Hoje não estou conseguindo me concentrar, não estou com cabeça, estou com coração demais – e isso sempre me atrapalha.
Impressões de Viagem #1
Conheci a casa do Pablo Neruda, e fiquei pensando que seria muito mais fácil para mim se eu pudesse viver em um lugar como aquele. Sinto falta deste contato com o silêncio, e com todo um ambiente que tivesse sido escolhido e elaborado por mim, pelas minhas necessidades de inspiração e de alargamento da consciência. Um ambiente que me recordasse o tanto de arte e de verde que possuo dentro de mim – mas é tão complicado me lembrar disso em meio a este cinza e barulho, a pele coberta de pequenas fuligens, desprezo tanto tudo isso.
Figura instável e movedora do mundo. Um pedaço de mim que eu gostaria de utilizar mais.
Também gostaria de ter mais figuras deste tipo ao meu redor, substituindo essas pessoas de conversar superficiais e medíocres. Que falta me faz a expansão do pensamento!
“Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se como o pão ou as cadeiras ou o produto das farmácias ou das oficinas - há fábricas de dias que virão - existem artesãos da alma que levantam e pesam e preparam certos dias amargos ou preciosos que de repente chegam à porta para premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato.” P.N.
Impressões de Viagem #2
Há também um pedaço de mim que procura revoluções. Revoluções pessoais, estas sempre faço, de tempos em tempos (como um fenômeno), mas queria revoluções maiores – de almas, de mundo, de sociedades.
Curioso que, quando pequena, lia certos livros que me marcaram mais do que eu esperava, e que são mais fiéis a mim do que pensava. Tudo de Isabel Allende veio de encontro a mim de uma maneira inesperada, e houve esse reencontro de mim-comigo, como um susto.
Um lembrete de que há tanta força em mim que nem sei o que fazer.
Não sei onde depositar essa quota de energia meio desvitalizada pelo mundo ao meu redor.
E essa vontade de querer fazer... fazer o quê?
Ali, parada, olhando aquele monumento / palácio, tão governamental, tão central, só fazia era pensar em épocas políticas de revolução, em ruas com gente de verdade.
“A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.” I.A.
Impressões de Viagem #3
Gosto de cerimoniais. Solenidades. Militariedades.
Esta sensação de que posso ser subversiva e pega.
Não me importo em ser pega, desde que possa ser subversiva.
Gosto de observar as ruas fechadas para os militares passarem com sua banda e sua música. Tudo muito alinhado, enfileirado, correto. Tentação de desarrumar tudo!
Mas minha amplitude de alma não condiz com minha amplitude de realidade, e isso vai doer até quando.
Até quando?
Não sei.
Ali eu poderia ser alguma coisa maior, e gostaria de ser, fazer uso maior de mim.
Ali poderia existir uma rua com gente de verdade, com frases de verdade, com lutas reais e genuínas.
Impressões de Viagem #4
Se eu pudesse – e como gostaria de poder – estaria em Sta Lucia. Pisando em pedras que fazem perceber que já existiram tempos imemoriais. Ruínas de qualquer tipo de palácio, ou castelo, ou fortificação – tanto faz. São 70m de subida, como se fosse a conquista de si mesmo – acho que seria um bom jeito de encontrar meu Moksha.
Um jeito de realeza destruída. Bem assim eu.
Com mulheres de vestidos soberbos sujos de terra.
Incrível.
...
Enquanto isso, só me resta fingir que não escuto conversas e mais conversas sobre trivialidades. Casamento, festa de casamento, buffet de casamento, filhos, sobrinhos, gravidez... Tudo tão distante da minha vida e do meu modo de ver. Não participo disto, prefiro vir aqui e me refugiar um pouco na minha música e no meu próprio contexto.
Já que ninguém pára para refletir na implicação de certas escolhas.
Já que ninguém pára para pensar em como são coisas apenas sociais ou históricas – não vitais.
Estas são minhas pequenas subversões diárias, enquanto me transporto de coração para qualquer história da I.A., ou mesmo me imagino na casa de P.N., porque tudo ali me recordou de coisas que sou.
Sempre fui.
Nem havia me dado conta de tanto.
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Um comentário:
Legal! Gostei do final, sabe pq? Ali vc deixou de ser queixosa, vc foi ao encontro de algo q te faz ser vc, q te traz tranquilidade.
Talvez falte isso, sis, talvez falte mais movimento seu em busca do q te traz conforto(ou não). Pq vamos e venhamos, vc já está cansada de saber q as pessoas "normais" são repugnantes.
Suas viagens parecem ser verdadeiros encontros, há sim uma clara busca de identidade, de identificação... isso pode ser feito tb no meio da fumaça e ruído, há pessoas diferenciadas em certos meios sociais. Pensei num curso de filosofia (mentira, pensei na pp psicanálise), de política, de ambientalismo, etc e tal.
Continue se mexendo, minha flor. É esse o caminho.
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