Se fosse assim tão fácil estar onde se deveria, se fosse assim tão fácil fechar os olhos e ir para outro lugar: e por que as coisas não podem ser assim de fato? Prefiro, por isso, os fatos do jeito que eles se desenrolam no meu mundo de verdade - e ai de quem disser que ele não é real. Como se nós pudéssemos nos vangloriar de ter certeza do que existe e do que não existe. É tudo tão relativo, tanto quanto Nietzsche já dizia do bem e do mal. Mas, de qualquer forma, há uma concretude que me obriga a estar aqui, enquanto todo o resto de mim voa sem freios por lugares coloridos onde não há limites como chão, teto, paredes - onde eu possa enfim ser livre para me ser e para não-me-ser também. Esta concretude que me embrutece o coração já pesado deste mundo que não me pertence e que tampouco eu escolhi. A concretude horrorosa das pessoas e dos fatos. Tudo tão pequeno diante do que desejo fazer de mim e da minha vida, tudo tão material demais, não sei bem. Ah, se fosse fácil viver onde eu construí, tal como sou, sem precisar de reformulações e disfarces, sem precisar fazer aquilo que não me condiz e que não me engrandece; se fosse simples escapar desta estreiteza e ir firme e reta à amplidão, sem ser linear, sem ser lógica - pois já não sou óbvia.
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