segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ensaio do retorno

Suponha que sejamos livres: assim começou seu pensamento. E assim também ele parou. Havia tanta convicção de que er de fato, livre, que desistiu do resto da frase.
Suponha, então, que não sejamos livres: opa. Outro pensamento que terinou em seu início. Pois também sabe que nem sempre conseguimos exercer a liberdade.
E agora? Éramos ou não, livres?
Confuso, sabia que era. E também um pouco solitário. Na verdade, sua solidão era ferramenta para o exercício da liberdade: era muito raro sentir-se bem ao lado de outras pessoas.
E, se a liberdade existe, é algo interno. É uma divisão que especifica quais escolhas foram tuas, e quais escolhas foram minhas. Nada mais é que o exercício do discernimento: o que vem de fora nos atinge, de uma forma ou outra.
Então, ele dissipo um pouco da atenção. Ao seu redor, ecoavam assuntos tão banais, de existências tão comuns. Existências tão não-livres. Estava cansado dos pseudo-livres. Eles tinham a falsa sensação de pertencer a um nível mais elevado de vida.
Na sua frente, havia uma muher escolhendo o nome e o signo de seu filho. Impossível não rir disso.
Para ele, era cada vez mais difícil viver em um mundo de escolhas tão óbvias.
Será que era possível escolherema liberdade?

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O volume da música

Aumento o volume da música e confirmo que os fones estejam bloqueando o som que vem de fora.
Não quero escutar nenhum som além dos meus e dos seus.
Eu bem que poderia participar dos assuntos, pois em todos eles tenho uma opinião ou uma história a dizer, mas eu simplesmente desisti. Não acredito mais que eu possa open a mind. Não acredito mais que as pessoas possam ter maior amplitude.
A música que ouço avança dentro de mim como nada mais é capaz.
São palavras de quem talvez faça parte da mesma realidade que eu, e o único contato que tenho contigo é desconhecido e abstrato.
Isto faz parte das minhas melhores relações com pessoas: distância e abstrato.
Eu queria, pelo menos por um momento, sentir que há possibilidades de transformar as conversas, os pensamentos, as opiniões dos outros em riqueza.
Queria sentir que existem pessoas que podem ser autênticas, diferentes, revolucionárias, e que fosse possível reunir identidades inteligentes e realmente originais e iniciar uma mudança: de postura, de relação, de visão. Mas eu só conheço eu e você, e por mais que sejamos totalmente fora da curva, somos pouco diante da força que a ignorância pode ter.
Há quem deva me achar mau humorada. Eu não me importo. Há quem deva me achar estranha. Eu até mesmo gosto e prefiro que as pessoas percebam que eu sou diferente e não faço parte do pequeno mundo em que elas vivem.
Eu posso bem mais do que tenho hoje. Me vem esta vontade incontrolável de querer operar uma grande mudança em minha vida – mas fique tranqüilo, que você fará parte de toda e qualquer mudança de planos que eu esquematize.
Vamos encontrar lá fora a harmonia para essa música que eu escuto.
Deve existir algum lugar no mundo para pessoas como nós. E, neste lugar, ou faremos uma revolução ou teremos, enfim, sossego. Ou me exerço de vez, ou me recolho de vez – é este meio termo comum que me mata aos poucos.
Poderíamos criar uma realidade totalmente nossa, e que fosse coerente com a música.
Ah, a música. Existe ressonância entre eu e ela, e eu e você. Para mim, basta isso, e então sou feliz e calma. Inacreditavelmente à vontade para ser eu mesma.
Você é o meu lugar no mundo.
Vai ver que meu alter ego é para ser uma música: distante e abstrata. Ah, mas isso eu já sou.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Os ângulos

Não sei mais o que saiu errado. Não consigo identificar de onde vem essa minha sensação de desassossego, ou este embrulho estranho no estômago. É uma sensação de desvio, como se algo tivesse acontecido e só eu não estivesse sabendo.

Tão complicado ser feliz. Essa felicidade que depende ou demanda que outras pessoas caminhem para o mesmo lugar, e tenham os mesmos desejos, que sejam muito parecidas – pois não consigo acreditar que a felicidade possa ser construída por pessoas opostas.

Não encontro semelhantes. Eu que sou estranha, ou os outros que são muito comuns?

E nesta dificuldade de ser feliz, me sinto muito só. Com quem contar ou para quem contar os meus conflitos que, para início de conversa, são sempre muito repetidos e, depois, são sempre complicados demais para que eu consiga explicar.

Às vezes eu só quero uma palavra boa. Mas parece que o preço que sempre pagarei por ser assim é receber como retorno baldes seguidos de água fria. Tanta dificuldade em ser gentil. Não é justo: as pessoas me tomam como alguém de um ângulo só, sendo que tenho dezenas deles.

A partir de hoje, excluo da minha vida quem não conhece ou respeita estes meus vários ângulos. Não é justo com a minha vida me decepar assim, ou me sujeitar a certas situações. Não é justo que as pessoas me tomem por um outro comportamento que apresento, sem considerar o todo. Porque é isso que acontece.

Gosto de pessoas que me agreguem. Falar o que eu já descobri me desmotiva.
E o que eu não consigo descobrir, quem pode me ajudar?
Convido a todos que quiserem uma visão diferente da vida e do mundo.
 
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