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Andei pensando muito esses dias que saí de uma angústia grande para enfrentar o mundo, e que este enfrentamento obviamente me provocaria uma segunda angústia: eu e minha luta pelo endurecimento do coração diante da realidade. Tantas vezes não desejei saber do mundo o que ele poderia me oferecer por medo - é sempre o medo - do que ele poderia me recusar. A recusa sempre remete para um vazio dolorido de uma ausência. Percebo cada dia mais as implicações desta decisão, e como não previ a grandiosidade do que eu enfrentaria - e isso é bom. Assim não tive medo. Assim escolhi a minha própria grandiosidade. Se eu estava infeliz anteriormente, mesmo em segurança, hoje estou mais tranqüila, apesar da imprevisibilidade de tudo. Tenho tanta energia em mim para abraçar isto que mal acredito que esteja vindo de mim - incrível descobrir sempre tanto de mim mesma. Sei que toda esta experiência de suporte à angústia me fará mais. Tudo é uma questão de resistência: até onde posso ir? - posso ir onde eu quiser. São meus pequenos atos de liberdade que, por si só, já me tornam mais livre.
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Não sei o que fazer com toda esta capacidade de observação que possuo em mim. Creio que seria mais fácil se eu não visse tanto - de ti, não de mim. Me inconformo com tanto: com amarguras, com infelicidades, com excessos e com faltas. E busco esta postura de arcar com as próprias dores: nós as fabricamos, nós as expulsaremos, nós - que somos os grandes responsáveis por utilizar (ou não) a enorme beleza e fluidez da Vida. Já não procuro mais fazer-me entender: se não há disposição mental e, muito pior, se a alma tem preguiça de se alargar, eu me dou o direito de desistir: se certo ou incerto, de hoje em diante eu digo não.
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Esse momento de mudanças me levou ao passado - naturalmente, depois de ter tentado ir ao futuro e voltar. Não houve nada novo neste meu retorno, apenas olhei e voltei. Senti tristeza - fazia tempo. Nos meus últimos anos foi só indiferença, conquistada após muita angústia, muita raiva, muita aceitação e tantas outras escolhas. Hoje percebo que não há tanto peso nesta ausência como havia antes: adquiri minha força no vazio, na solidão total e devastadora. Mas é impossível esquecer de dores que vivi.
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Todas essas palavras me levam a um único ponto: o exercício da minha espontaneidade. Envolve várias reações a esta ação: pessoas se assustam, pessoas vão embora, pessoas não entendem, pessoas se identificam, pessoas se aproximam, pessoas se enganam, pessoas não me absorvem. Já perdi e já ganhei com isso, mas não deixo nunca de me ser genuinamente: aqui estou eu, e não me importo em ser amada e odiada, desde que eu exerça esta liberdade inigualável se ser autenticamente produto de mim mesma.
Faço um brinde ao vinho, ao chèz-long e ao escuro!
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