segunda-feira, 28 de abril de 2008

I'm always hoping


Pessoas são sempre muito complicadas. Na verdade, as pessoas costumam ser simples, o que complica mesmo são seus comportamentos. Algumas coisas que são desnecessárias, e poderiam ser evitadas com um pouco de reflexão, ou com um pouco de empatia. Deve ser pedir demais, não é mesmo?
Fico pensando que a vida já é tão complicada. Nós poderíamos facilitar, para os outros e para nós mesmos. Deixar as relações mais leves, na medida do possível, porque também não teria a mesma graça se tudo fosse só simples.
Estou entediada das pessoas: nunca conheço alguém que me agregue. Parece que todos estão sempre pautados nas mesmas escolhas – e, conseqüentemente, nos mesmos erros. E eu me vejo sempre repetindo os mesmos conselhos, advertências, e sempre despertando os mesmos sentimentos. Como um vício humano, maior do que minha capacidade de interferência.
Gostaria que mais pessoas grandes me atingissem no percurso. Com novos modos de pensar e também com revoluções internas por fazer. Para variar um pouco os meus diálogos, o meu raciocínio e o meu discurso. Também me canso de me colocar para menos, por falta de quem me entenda e escute plenamente.

Ao mesmo tempo em que tudo isso me passa pela cabeça, tive uma experiência de muito me passar pelo coração. Antes de ter este blog, eu escrevia em um caderno, com letrinha apreensiva e miúda. Palavras de tempos marcadamente mais complicados, e muito solitários. Hoje, pelo menos, tenho em quem depositar meus desabafos.
Também escutei músicas desta época, todas tão nervosas e urgentes.
Hoje, bem mais calma e portadora de inúmeros significados, sei que já não estou mais correndo risco de vida.
Curioso que, quem me conheceu neste período, acreditava que aquela era eu – e não era. Aliás, era metade-eu, pois eu estava muito em formação. Depois, quando me montei inteira, e me defini como toda-eu, há quem não mais me reconhecesse (afinal, eles me desconheciam). Distanciaram-se, xingaram-me, ficaram desnorteados – e eu não sempre digo que todos preferem o que é fácil ao que é real?
O que eu era antes, era bem mais clichê. Muito mais fácil de ter amigos.
Hoje, quem me ama, é autêntico, pois não sou óbvia nem tranqüila.

Também andei me recordando de como a vida termina de repente.
Sem preâmbulos e sem que possamos nos posicionar como vítimas.
E às vezes desperdiçamos esse tempo escasso com banalidades.
Isso eu não admito, a vida é sagrada.

"As we were talking outside,It was cold,We were shivering, yet warmed by the subject matter.My wife is in the next room,We've been having troubles you know, Please don't tell her or anyone, but I need to talk to somebody.

You said, "Wouldn't it be a shame if I knew how great I was five minutes before I died? I'd be filled with such regret before I took my last breath."And I said, "You're willing to tell me this now, and you're not going to die anytime soon."And I said I haven't been eating chicken, or meat, or anything. And you said yes, but you've been wearing leather and laughed and said “We're at the top of the food chain.”And yes you're still a fine woman, And I cringed.

I was hoping, I was hoping we could heal each other. I was hoping, I was hoping we could be raw together.

We left the restaurant where the head waiter (in his 60's),said "Good bye, sir. Thank you for your business sir. You're successful andestablished, sir, and we like the frequency with which you dine here sir. And your money."And when I walked by, they said "Thank you too dear."I was all pigtails and cords.And there was a day when I would've said something like,"Hey dude, I could buy and sell this place, so kiss it."I too once thought I was owed something.

I was hoping, I was hoping we could challenge each other. I was hoping, I was hoping we could crack each other up.

I too thought that when proved wrong, I lost somehow. I too thought life was cruel. It's a cycle, really. You think I'm with drawing and guilt tripping you.I think you're insensitive and I don't feel heard. And I said "Do you believe we are fundamentally judgmental? Fundamentally evil?"And you said Yes. And I said I don't believe in revenge, in right or wrong, good or bad? And you said "Well, what about the man that I saw handcuffed in the emergencyroom, Bleeding after beating his kid, and she threw a shoe at his head. I think what he did was wrong, and I wouldn't have had a hard time feeling compassion for him. "I had to watch my tone for fear of having you feel judged.

I was hoping, I was hoping we could dance together. I was hoping, I was hoping we could be creamy together."
I Was Hoping - Alanis


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Eu-comigo no Chile

Hoje não estou conseguindo me concentrar, não estou com cabeça, estou com coração demais – e isso sempre me atrapalha.

Impressões de Viagem #1

Conheci a casa do Pablo Neruda, e fiquei pensando que seria muito mais fácil para mim se eu pudesse viver em um lugar como aquele. Sinto falta deste contato com o silêncio, e com todo um ambiente que tivesse sido escolhido e elaborado por mim, pelas minhas necessidades de inspiração e de alargamento da consciência. Um ambiente que me recordasse o tanto de arte e de verde que possuo dentro de mim – mas é tão complicado me lembrar disso em meio a este cinza e barulho, a pele coberta de pequenas fuligens, desprezo tanto tudo isso.
Figura instável e movedora do mundo. Um pedaço de mim que eu gostaria de utilizar mais.
Também gostaria de ter mais figuras deste tipo ao meu redor, substituindo essas pessoas de conversar superficiais e medíocres. Que falta me faz a expansão do pensamento!


“Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se como o pão ou as cadeiras ou o produto das farmácias ou das oficinas - há fábricas de dias que virão - existem artesãos da alma que levantam e pesam e preparam certos dias amargos ou preciosos que de repente chegam à porta para premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato.” P.N.

Impressões de Viagem #2

Há também um pedaço de mim que procura revoluções. Revoluções pessoais, estas sempre faço, de tempos em tempos (como um fenômeno), mas queria revoluções maiores – de almas, de mundo, de sociedades.
Curioso que, quando pequena, lia certos livros que me marcaram mais do que eu esperava, e que são mais fiéis a mim do que pensava. Tudo de Isabel Allende veio de encontro a mim de uma maneira inesperada, e houve esse reencontro de mim-comigo, como um susto.
Um lembrete de que há tanta força em mim que nem sei o que fazer.
Não sei onde depositar essa quota de energia meio desvitalizada pelo mundo ao meu redor.
E essa vontade de querer fazer... fazer o quê?
Ali, parada, olhando aquele monumento / palácio, tão governamental, tão central, só fazia era pensar em épocas políticas de revolução, em ruas com gente de verdade.

“A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.” I.A.

Impressões de Viagem #3

Gosto de cerimoniais. Solenidades. Militariedades.
Esta sensação de que posso ser subversiva e pega.
Não me importo em ser pega, desde que possa ser subversiva.
Gosto de observar as ruas fechadas para os militares passarem com sua banda e sua música. Tudo muito alinhado, enfileirado, correto. Tentação de desarrumar tudo!
Mas minha amplitude de alma não condiz com minha amplitude de realidade, e isso vai doer até quando.
Até quando?
Não sei.
Ali eu poderia ser alguma coisa maior, e gostaria de ser, fazer uso maior de mim.
Ali poderia existir uma rua com gente de verdade, com frases de verdade, com lutas reais e genuínas.

Impressões de Viagem #4

Se eu pudesse – e como gostaria de poder – estaria em Sta Lucia. Pisando em pedras que fazem perceber que já existiram tempos imemoriais. Ruínas de qualquer tipo de palácio, ou castelo, ou fortificação – tanto faz. São 70m de subida, como se fosse a conquista de si mesmo – acho que seria um bom jeito de encontrar meu Moksha.
Um jeito de realeza destruída. Bem assim eu.
Com mulheres de vestidos soberbos sujos de terra.
Incrível.

...
Enquanto isso, só me resta fingir que não escuto conversas e mais conversas sobre trivialidades. Casamento, festa de casamento, buffet de casamento, filhos, sobrinhos, gravidez... Tudo tão distante da minha vida e do meu modo de ver. Não participo disto, prefiro vir aqui e me refugiar um pouco na minha música e no meu próprio contexto.
Já que ninguém pára para refletir na implicação de certas escolhas.
Já que ninguém pára para pensar em como são coisas apenas sociais ou históricas – não vitais.
Estas são minhas pequenas subversões diárias, enquanto me transporto de coração para qualquer história da I.A., ou mesmo me imagino na casa de P.N., porque tudo ali me recordou de coisas que sou.

Sempre fui.

Nem havia me dado conta de tanto.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Exercício da Tranqüilidade

"Porque há o direito ao grito. Então eu grito." Clarice

Esses dias precisei lutar pela minha tranqüilidade. Eu posso ficar muito tranqüila comigo mesma - apesar de sentir tanta coisa e pensar muito mais - mas é um fato que os outros conseguem me incomodar. Acabei me acostumando a contar com a falta de educação, com a falta de respeito, com a falta de noção; e acabei me acostumando a guerrear para conseguir meus minutos de descanso. Veja que este descanso é o que me permite colocar em prática minhas criações, e extrapolar o nível dos meus pensamentos para exteriorizar o que eu sinto e o que eu preciso elaborar. Quando não me reservo, todo dia, essa quota de refinamento do mundo, é como se, naquele dia, eu não tivesse existido: meus sentimentos são sempre muito volúveis, e é preciso captá-los no momento exato, senão, fogem, e nunca mais aparecem em mim de novo. Claro que isso não é o tipo de coisa que se fale a certas pessoas, imagine:

Eu: Boa noite, você pode, por favor, fazer menos barulho?
Vizinho-Transtorno: Desculpe, minha senhora, não sabia que estava incomodando. (!)
Eu: Como não se são 4h30 da manhã?
Vizinho-Transtorno: Mas a senhora dorme às 4h30 da manhã de uma segunda-feira?
Eu: Filhinho, olhe só: a questão não é se eu durmo a esta hora, a questão é se eu crio a esta hora, ou mesmo se eu tenho a possibilidade de criar a essa hora. E tem mais: já me é árduo demais trabalhar amanhã, sem poder me ser plenamente com os demais, e ainda preciso não-me-ser com muito sono e muito cansada? Não há quem agüente tanta provação. Preciso ser autêntica, entende?, e o seu barulho interfere.
Vizinho-Transtorno: (Piscando)

(Suspiro) Muito complicado lidar com as questões da vida em sociedade do meu jeito. Sou obrigada a recorrer a maneiras convencionais - e por acaso alguém acredita ainda nessas maneiras? Se elas funcionassem de verdade, não continuaríamos tendo os mesmos problemas - eu mesma tenho os meus problemas há anos! Também não me tranqüiliza pensar que só eu penso em soluções alternativas, sendo que isso foi o que fiz a vida toda, com tanta gente, com tanta coisa. Por isso digo que é uma luta pela tranqüilidade.

E se não fosse pela luta, não seria tão tranqüilo depois. Eu sei. Mas é que eu preciso reclamar, senão explodo, já tem muita coisa se mexendo em mim.

Sem contar que hoje escapei (delicadamente) para ficar um tempo sozinha, organizar os conteúdos. Eis que não consigo: não podia deixar de perceber duas promotoras de venda de um restaurante competindo por clientes - juro que esperava que elas fossem se estapear. E o restaurante prometendo "vida saudável", bem atrás delas. Essas contradições do mundo acabam comigo, já não me bastam as minhas próprias contradições?

Acho que preciso de férias do mundo. De mim mesma, uma overdose.

"Não sei se quero descansar, por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir." Clarice

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Do you know the things that I can do?

“the lights came on fastlost in motorcrashgone in a flash unreal but you knew all alongyou laugh the lightI sing the songs to watch you numbI saw you thereyou were on your wayyou held the rainand for the first time heaven seemed insanecause heaven is to blame for taking you awaydo you know the way that I can?do you know the way that I can't lose?do you know the things that I can?do you know the things that I can do?where is your heart? where is your heart gone to?tear me apart tear me apart from youyou laugh the light I cry the wound in gray afternoonsI saw you thereyou were on your wayyou held the rainand for the first time heaven seemed insanecause heaven is to blame for taking you awaythe lights came to passdead opera motorcrashgone in a flash unreal in nitrous overcastdo you know the way that I can?do you know the way that I can't choose?do you know the things that I can?do you know the things that I can't lose?tear me apart tear me apart from youwhere is your heart? where has your heart run to?”
Tear - Smashing Pumpkins

Gosto muito dessa música porque ela me traz alguma coisa de sofredora solene. Como se este sofrimento fosse o último e mais bonito que se pode ter. Como se se chegasse a um momento de iluminação.

Dias desses passei por maus bocados: foram séries e séries de elaborações, e, apesar da angústia e da dificuldade, eu sentia que estava chegando onde deveria, e que, daquele ponto em diante, eu poderia modificar ainda mais o meu mundo e o que não aprovo nele.

Minha grande e amada sis me disse essa frase: “transformando o gozo sofredor em arte.” Foi um grande alívio encontrar esta verdade – e, a parte mais estranha da história é que eu já havia passado por essa parte do meu caminho, há anos, e hoje me vi novamente passando por ele. Andei em círculos?, pensei. A verdade é que: não. Hoje sou uma pessoa totalmente diferente, e sinto que passei novamente pelo mesmo lugar para apreender coisas que eu não tinha percebido ainda. Estou maior e vejo a paisagem mais de cima hoje.

Também percebi que não posso me angustiar por ser angustiada – desejar não desejar. Disso sai minha fonte de idéias, e eu preciso saber manter esta fonte. Com serenidade – porque hoje quero uma vida mais tranqüila.

Palavras, apenas palavras. A minha mudança de posição no mundo me diz mais que isso.

Curioso que, bem neste momento, de descobertas e re-descobertas, e de encontros com conteúdos do passado, tem sempre esta figura que ressurge. Ressurge como quem pede, como quem anseia, mas não como quem oferta. E aproveitei para rever a minha posição nesta situação: percebi que continuará a mesma, seja por convicção, seja por deficiência de coração, mas nada mudará – ninguém tem o direito de destruir meu mundo, depois que me refiz e desfiz para arrumá-lo como pude. Certas ausências jamais são repostas, e minha essência já está por demais acostumada com buracos – não preciso preenchê-los com qualquer coisa, de qualquer jeito, para ser feliz. Deste sofrimento sei eu, pois nunca o dividi com ninguém.

Penso que é difícil pensarmos na nossa implicação nas nossas escolhas. Aquilo que renunciamos sempre deixa marcas pelo caminho. Eu tenho as minhas marcas, mas não me arrependo da minha escolha: o grande problema sempre foi não ter ao que renunciar – nada me foi oferecido, e isso me desobriga de qualquer sentimento por você.

Não sou de me contentar com migalhas. Porque não me dou em migalhas a quem gosto.
Também não sou de mentir e nem de me ausentar. Nada é mais confuso que uma ausência mal colocada. Nada é mais perturbador do que perceber uma falta – antes fosse uma presença incômoda. Ao menos se teve – e quando não se tem, o que fazer?

Cada um que pense nas conseqüências. Não sou de facilitar a vida. Gosto mesmo é de complicá-la, para ter mais, e melhor. E acontece o que sempre previ: a própria vida se encarrega de explicar o que foi feito de errado .

Um desabafo em hora apropriada. Muita coisa acontecendo, indo para o lugar.

Antídoto para o Mais ou Menos

Hoje navegando pela internet, encontrei uma matéria muito interessante (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2710115-EI8423,00.html), e teve uma parte dela que me chamou mais a atenção:

“De uma maneira equivocada, dizemos "matar-se", quando é mais real dizer "viver-se". A gente se vive a cada instante, a cada dia, mês e ano. Escolhemos a dureza de ir em frente, quando seria tão mais fácil qualquer outra alternativa, a, b, c, d ou e. A gente insiste em assistir ao filme da nossa vida, não gostando tanto assim da trilha e sofrendo pra arrumar o financiamento que torna o filme mais ou menos possível, e que permite aos atores comerem mais ou menos, beberem mais ou menos, viajarem mais ou menos, encontrarem o amor, mais ou menos, tudo mais ou menos assim, até o fim, amém.” (Marcelo Carneiro da Cunha)

Acho que me vivo demais, e por isso fica difícil viver-me em meio aos outros com quem convivo. Viver-me implica em muitos comportamentos que são contravenções, revolucionários para uma sociedade como a nossa, e, como é de se esperar, há muito estranhamento – e acabo optando por me desligar de certas coisas. Vou dar um exemplo prático: as conversas cotidianas. Quantas e quantas vezes não emiti minhas opiniões (aos temas mais comuns) e fui recebida a) como estranha; b) como louca, c) com ignorância. Isso me fez, aos poucos, perder a energia, e prefiro hoje ser assim calada – sem que isso me isente de parecer esquisita aos olhos dos outros, obviamente.

Mas a questão é exatamente essa: “tudo mais ou menos assim, até o fim, amém.” Não sou de viver mais ou menos: sou de viver ou tudo, ou nada. Acho mais nobre assim, assim precisamos de maior sensibilidade, de maior inteligência, de maior envolvimento. Mais ou menos é assim, sempre muito comum, sempre tudo nos lugares-comuns – e por acaso isso existe em mim? Faça-me rir.

Fico aqui pensando que a vida já é tão curta para fazer tudo o que quero. E eu fico aqui buscando o meu desejo, e fico buscando que a minha vida seja construída de uma forma que eu possa viver-me por inteira – e não mais ou menos, como me forço por disfarçar quem sou de fato: se não disfarço, não sou aceita ou eu não aceito. E percebo que a vida, para os outros, não é curta, pois eles não têm muito que querer, que desejar, e qualquer coisa mais ou menos já atende às expectativas: todos nos seus respectivos padrões, com seus “certos e errados, podes e não podes” – tudo tão estreito diante da largueza que há.

Que bom que não sou comum.

"A Idade da Razão"

Cheguei num daqueles momentos da vida que precisamos decidir entre nossas convicções e o nosso futuro: não deveria ser assim, mas preciso escolher entre um e outro, pois não fui capaz de encontrar uma solução que intergrasse as duas coisas. E como nada no universo acontece por acaso – já dizia Jung e seu inconsciente coletivo – estou lendo um livro do Sartre, chamado “A Idade da Razão”, que conta exatamente esta história.

Vou resumir só um pouco o conteúdo do livro para ficar mais inteligível o que escrevo: existe um homem, e este homem precisa dar um futuro a si mesmo, pois não tem nenhum. Porém, para conquistar este futuro, ele se vê frente a frente com a escolha: se continuar vivendo do jeito que vive, baseado em suas convicções (de mundo, das pessoas, da sociedade), ele será infeliz daquele momento em diante; por outro lado, para que exista uma possibilidade, mesmo que pequena, dele ser feliz, ele precisa abandonar estas convicções e traçar um plano B.

Eu me vejo assim nesse momento da minha vida: tenho minhas convicções, que foram conquistadas com muito sofrimento, e depois de sucessivas crises existenciais. Depois deste longo percurso, eis que começa um novo: descubro que muitas dessas convicções não vão me servir muito mais tempo, e precisarei escolher.

Resumindo, agora, o conteúdo da minha história, é mais ou menos assim: se mantenho a maneira como vejo e penso, provavelmente cairei na solidão – e já vivi uma solidão irreversível, e não quero voltar para lá; por outro lado, para não ficar sozinha, precisarei abandonar coisas em que acredito de todo o coração. Ainda estou elaborando tudo isso, mas sei que não quero ficar mais sozinha do que já fiquei na minha vida – pelo menos por enquanto esta é minha prioridade.

As conseqüências desta escolha são: eu me sentir um pouco menos eu, e um pouco mais clichê. Pensar que isso me agride tanto. Essa anulação faz parte da "Idade da Razão"? Acho totalmente irracional.

Um estudo psico-sociológico dos fenômenos de massa juvenis (rs)

Vamos lá, eu tentei. Quis, de verdade, com-viver com pessoas, e, inclusive, pessoas desconhecidas. Me animei verdadeiramente em estar perto, em ser além do que costumo ser e me permitir construir pontes (já que nunca fui boa nisso). O resultado foi exatamente o que esperava: nada. Ser psicóloga me dificulta as coisas: vejo coisas que não gostaria, e compreendo comportamentos que eu não deveria – bem diz aquele ditado que “a ignorância é a felicidade”. Talvez seja verdade, talvez seja realmente mais fácil não pensar a respeito das pessoas, apenas conhecê-las, aceitá-las, dividir-me. Eu tentei, eu juro, mas tem discursos que eu não consigo deixar passar, não consigo me deixar passar ilesa.

Personagem A: A. vê-se muito vivido, mas eu prefiro quem seja realmente vívido. Não se sabe se o ânimo vem de dentro ou de fora, tudo artificialmente planejado, não se sabe se veste o personagem o tempo todo ou se já o absorveu por completo. A. conta muitas histórias, e suas frases sempre começam com “eu”. “Eu” fez de tudo, experimentou tudo, e, ainda novo, viveu e viverá muito. Tudo muito. Teatro, mas antes esse muito do que pessoas-nada.

Personagem B: B. é o oposto de um padrão tido como atraente, e parece compensar as faltas nos excessos. Parece regredir à puberdade – vai ver que foi naquela época que foi rejeitado, e nada como querer ressignificar sua própria história. Válido, of course, mas exagerado: tem gente que gosta de se desperdiçar, e não percebe que, nesse desperdício, perdem-se pedaços que não se repõem.

Personagem C: A presença de C. é sempre cheia. C. é daquelas pessoas que preenchem um ambiente todo com sua voz, seu discurso, seus comportamentos. E preenche para ser preenchido, sabido é seu medo de solidão. C. só não sabe que não precisa ter medo, na medida em que for autêntico - mas, às vezes deixa de sê-lo por medo da solidão, e aí sim, por não ser autêntico, que seu medo pode tornar-se realidade: C. é cheio como este círculo em que vive.

Personagem D e E: Normalmente eu não veria os dois juntos, seria mais simplista se eu os colocasse separados – sabem-se como são separados, mas sabem-se como são juntos? Descobrem a cada palavra, e – boa surpresa! – amam-se, só precisam dizer.
Figurantes: Estes são o recheio da festa. Me fizeram perceber que estou em uma era da qual não faço parte, e meus pensamentos formaram frases como “na minha época”. Mas, uma pausa: e a minha época não é agora? Parece que não. Embora me utilize de um blog e da internet. Me senti estranha, parece que perdi um pedaço da história.

Personagem Eu: Percebi que minha melancolia vem sempre da sensação de não estar participando do que eu deveria. Como se eu nunca tivesse sido convidada para as grandes festividades da humanidade. E o pior: sou uma grande festa em mim, enorme, e preciso urgentemente colocar isso para fora, antes que eu perca mais e mais de mim no caminho. Podem acontecer tragédias por eu não me exercer de fato.
Conclusão: As minhas teses são inúteis quando quero ser feliz
.

05/03/2008

Psicóloga.Filósofa.Pagã
“Deus transforma caos em cosmos.”

Não acredito neste Deus cristão (parece até frase de música do Legião Urbana). Esta imagem de um Deus que pune seus “súditos” pelos pecados cometidos e que faz uma série de exigências para que se alcance o “paraíso” não me convence. Não acredito que em Deus possa existir regras, normas, leis ou qualquer coisa do gênero – para mim Deus é a vida, o universo, o que existe e o que não sabemos se existe, uma energia universal que nos aponta caminhos – e que pode, vez ou outra, nos dar uma inspiração, um insight, sobre algo que deveríamos fazer para sermos mais felizes. Não tem forma, e, na verdade, só tem um nome porque nós, homens, precisamos nomear as coisas. Não tem cor, luz, nada: apenas existe, e pode-se senti-lo, ou não. Depende da visão de mundo de cada um. Conseqüentemente, não acredito nas religiões: não vejo sentido em como uma pessoa, representada como mais sábia ou mais evoluída, pode me dizer o que devo fazer para conquistar x,y,z – o que você tem que eu não tenho para que você tenha o direito de me regrar? Ninguém tem este direito: somos apenas seres humanos, animais como os demais, com necessidades não tão civilizadas e hábitos não tão inteligentes. Um conjunto de regras estabelecido com fins sociais, políticos, econômicos – só depende da época. Quem segue, pode até ter boas intenções, mas, quem determina, garanto que não – existe muito mais sujeira no mundo do que somos capazes de (querer) enxergar. É um pouco de Teoria da Conspiração, é verdade, mas nisso, sim, eu acredito (também a meu modo).
Depois, passo para a segunda parte da frase: transformar caos em cosmos. Vendo Deus como eu vejo (totalmente pagão), me conforta pensar que a Vida, de um jeito ou de outro, dá um jeito. Existem certos momentos que eu sinto que nada posso fazer, e, até, que nada devo fazer, e apenas espero as coisas se arrumarem cada qual em seu encaixe, sem sentir angústia, pressa ou incômodo. É uma espera mansa – o que me assusta mesmo é esta mansidão, não estou acostumada com tranqüilidades. E esta sensação sempre aparece quando nada mais faz sentido, quando todas as opções já foram descartadas e sobrou só o nada: é bem verdade que o caos surge do nada. Para mim, pelo menos, é assim. É exatamente no nada que eu sinto que eu tenho que esperar, uma coisa superior, uma energia, chegar e organizar o caos, transformando-o no cosmos.
Vou parecer um pouco mais doida do que já sou ao dizer isso, mas eu sempre gostei muito de Física Quântica: é uma explicação científica dessas bobagens que digo. A energia, o nada, a mecânica do universo – acho lindo! Minha “religião” é mais ou menos assim: essa trombada de Física Quântica com Hinduísmo. Maluquices de uma psicóloga que adora filosofar.
Ando com vontade de ler filosofia: será que é uma vontade de encontrar iguais nesse mundo grande? Eu e me busca por pertencer, mas aí já é outro assunto.

Tr3s


Comecei esses dias um livro novo. Fazia tempo que não me vinha uma inspiração maior, que coubesse em várias páginas. Todas as minhas inspirações andavam tímidas, cabiam aqui em meus posts e eu ficava mais leve. Mas foi se juntando um peso maior em mim, e agora eu preciso de várias páginas. Não sei ainda o que vai se formar: o caminhar do livro será o mesmo que o meu, sem saber muito qual são as possibilidades, mas sabendo, no fundo, que qualquer coisa será possível. É diferente de outras coisas que já escrevi: tudo estava pronto em mim, lá dentro, só precisei desenterrar e vomitar algumas palavras. Hoje não: hoje não sei de nada do que há em mim, não posso prever o que virá. É um desafio, em termos técnicos – preciso escrever o que nem sequer está no nível do pensamento, só no nível do sentimento.

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever." CL

Também comecei uma nova fase da definição de mim mesma, e nesta nova fase há algumas coisas que se confirmam e há muitas outras que se contradizem. Estou, agora, em outro ambiente, com outras pessoas, convivendo com realidades diferentes das que eu tinha antes: ando buscando uma sensação de conforto maior, de familiaridade, mas não estou desconfortável. Isso foi uma descoberta: eu posso não me sentir desconfortável. Passei tanto tempo me sentindo assim que esqueci da possibilidade de que poderia ser diferente. Também redescobri minha vontade de estar perto de pessoas – bom isso, havia esquecido de que eu não sou sempre melancólica, dolorida: também posso ser aberta e colorida. Estranho isso de me estranhar. Estranho, mas, comum.
Pensar que já tive tanto medo de tudo isso, e depois passei a não ter mais. Agora sou maior de verdade, e não tenho medo mesmo, fez parte de mim conhecer essas grandes-pequenas coragens.


"Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa, minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai." CL

Agora também passo por um outro novo começo. Ando nesta fase das coisas que quase-terminam e quase-começam. Não gosto de quase, não sou pessoa de quase: gosto tudo intenso e definido, mas existem as épocas de quase-acontecer o que quer que seja. Nessas horas, que fico assim desanimada, acredito no Tempo – o que para algumas pessoas é Deus, para mim é uma combinação de Tempo, Vida e Universo. Eu confio neles três, porque sempre foi assim: quando chega aquele determinado período que parece que tudo não vai mais acontecer, há algo que simplesmente aparece, de tal forma e na minha frente que não há como recusar: eu digo – é isso o que eu quero!, sem saber antes que era aquilo que eu queria. E aí entendo por quê tudo deu errado antes, era porque havia algo maior para dar certo.
Descobri esta pequena esperança – não gosto da palavra, mas é este ato de esperar-com-calma. Logo eu, calma – quase dou risada. Vamos ver o que acontece, vamos ver no que é que dá.

06/02/2008

Diálogos são difíceis de eu recordar: não lembro ao certo detalhes, palavras, sinônimos. Mas fica em mim a marca da sensação das palavras, dos seus vários sentidos, das suas cócegas e das suas dores.

Diálogo 1
Estava eu na manicure e a conversa que transcorria era mais ou menos assim:
Manicure: Mulher quando não tem filhos, não é mulher. Mulher só é mulher quando é mãe. Mulher que não é mãe é vazia.
Eu: (cara de simpática)
Eu pensando comigo mesma: Ninguém realmente questiona os paradigmas da sociedade. Ninguém pode me dizer que tenho a obrigação de ter filhos: sou eu quem escolho qual é o meu papel enquanto mulher, e eu tenho o direito de não aceitar certas fórmulas prontas que existem. É possível repensar tradições seculares, tradições puramente burguesas - papéis adquiridos ao longo da História da humanidade, adquiridos por razões econômicas, políticas - não por razões de ser, de existir, de viver. Duvido. Eu não falo mais: não quero mais assistir a expressão de surpresa-ofendida quando digo as minhas escolhas, não quero mais participar deste pequeno momento de ignorância e de cegueira, também não quero mais ouvir os mesmos comentários e palpites discretos - esta sou eu: faço escolhas que ninguém sequer percebe que podem existir. Além disso, mãe não é mulher: mãe anula a mulher. Mãe é esta matéria revestida de sagrado, de censura, de perfeição (ou obrigação de tê-la). Não quero ser mãe, quero ser mulher. Sendo mulher, me sou livremente - não quero a imensa responsabilidade de cuidar de uma vida, já me basta a minha enorme e suntuosa vida, carregada à base de angústia e sacrifício.

Diálogo 2 – (Alguns são quase impossíveis de se reproduzir)
Você para mim: Você não teve ninguém.
Eu para você: (Dor)
Incrível como existem marcas que são para sempre: parece que elas irão desaparecer, mas continuam lá, tão firmes e tão fortes que nem passadas eu as sinto: são presentes e, o pior: serão futuras? A cada dia percebo os resquícios da solidão - em convívios, em conversas, em conjuntos: como se o peso da ausência fosse muito maior do que é possível ser o peso de uma presença torta. Fica em mim a impressão do que sou - e o que sou é assim tão difícil? É. Não quero te passar esta dor, pois ela só pode pertencer a mim, mas você a viverá como eu, eu sei. Eu vi nos teus olhos a tua impossibilidade de elaborar a minha dor - eu vejo nos meus olhos a minha própria impossibilidade, todos os dias. Parece até que sou mal-dita. Você me bem-diz, por favor? O meu mundo é assim mesmo, de vazio a quase-cheio, mas jamais será completo: meu mundo não será como o teu, como não será como o de ninguém, pois me sinto assim mesmo: espécie única e muito rara, quase estranha.

MM & VW ou Some girls can't wait to make life happens!


Existem poucas pessoas que conseguem expressar dores minhas – mesmo porquê nossas dores não podem pertencer a mais ninguém – mas existem duas mulheres que sabem ser uma parte de mim (ou eu consigo ser uma parte delas?).

MM: Gosto de belezas autodestrutivas. De belezas tão perfeitas que desembocam na dor irreprimível de manter a perfeição inatingível da alma. Não lamento que a perfeição seja inatingível – na imperfeição, a beleza adquire tantas possibilidades e variações: mas eu gosto mesmo das belezas imperfeitas e mal-cuidadas. Também me refiro à dor que só quem sente, a sente de verdade – impossível saber de fora, não estando ali: mas eu sinto que já estive ali, naquele ponto de abandono e solidão irreversível. Existem períodos que não há apreensão total do tamanho da angústia: ela só existe, existe mais do que eu sou, existe mais do que qualquer possibilidade de que eu seja. E eu entendo a dor dos teus olhos como a dor dos meus olhos: parece que o mundo todo julga o que vê, mas não há como alcançar o que se sente de dentro, tão lá de dentro. Sinto um pouco desta incompreensão de uma sociedade que se denomina “normal” – e buscam a normalidade tanto quanto buscam a perfeição, com a doce ignorância de achar que ambas existem mesmo. Eu já sou grandinha: sei que nada disso é possível, e acho isso tão tão bom e vivo. Gosto de possuir essa beleza que guarda uma loucura, um limite muito pequeno com a realidade, essa intenção de não-ser presente em qualquer segundo, essa capacidade de esmaecer e acender – e agir como se nada estivesse acontecendo. Esta é minha verdadeira beleza: você nunca sabe. Nem eu.

VW: Paradoxal que sou, há em mim muito de uma forma poderosa de feminino. Posso ser frágil e estranhamente bela, mas freqüentemente nego eu mesma: encontro coragens enormes escondidas, e estas coragens me guiam sempre na busca dos meus atos de liberdade. Há algo de libertário e anárquico em mim, e quero sempre questionar estes preceitos que ninguém questiona, e quero sempre fazer estas coisas que ninguém concorda, e quero sempre o pensamento na contra-mão do pensamento. Assim vivo a minha vida do meu próprio jeito, e transformo a minha história num reflexo do que sou: autêntica. E quando acho que já questionei de tudo, vou lá e começo tudo de novo. Não existem limites para a reflexão, mas as reflexões estão completamente limitadas: não me conformo, a minha inconformidade jamais me fará pertencer a este mundo-raso-vão. Nunca quero perder este meu pedaço que procura por transgressão real.
E as duas mulheres me proporcionaram este reencontro com duas partes essenciais de mim: a parte tragicamente bela, escondidamente trágica; e a parte inconvenientemente inteligente, esta inteligência transformadora e incômoda aos lugares-comuns. Eu me gosto assim. What a hell!


O Exercício da Espontaneidade


***
Andei pensando muito esses dias que saí de uma angústia grande para enfrentar o mundo, e que este enfrentamento obviamente me provocaria uma segunda angústia: eu e minha luta pelo endurecimento do coração diante da realidade. Tantas vezes não desejei saber do mundo o que ele poderia me oferecer por medo - é sempre o medo - do que ele poderia me recusar. A recusa sempre remete para um vazio dolorido de uma ausência. Percebo cada dia mais as implicações desta decisão, e como não previ a grandiosidade do que eu enfrentaria - e isso é bom. Assim não tive medo. Assim escolhi a minha própria grandiosidade. Se eu estava infeliz anteriormente, mesmo em segurança, hoje estou mais tranqüila, apesar da imprevisibilidade de tudo. Tenho tanta energia em mim para abraçar isto que mal acredito que esteja vindo de mim - incrível descobrir sempre tanto de mim mesma. Sei que toda esta experiência de suporte à angústia me fará mais. Tudo é uma questão de resistência: até onde posso ir? - posso ir onde eu quiser. São meus pequenos atos de liberdade que, por si só, já me tornam mais livre.

***
Não sei o que fazer com toda esta capacidade de observação que possuo em mim. Creio que seria mais fácil se eu não visse tanto - de ti, não de mim. Me inconformo com tanto: com amarguras, com infelicidades, com excessos e com faltas. E busco esta postura de arcar com as próprias dores: nós as fabricamos, nós as expulsaremos, nós - que somos os grandes responsáveis por utilizar (ou não) a enorme beleza e fluidez da Vida. Já não procuro mais fazer-me entender: se não há disposição mental e, muito pior, se a alma tem preguiça de se alargar, eu me dou o direito de desistir: se certo ou incerto, de hoje em diante eu digo não.

***
Esse momento de mudanças me levou ao passado - naturalmente, depois de ter tentado ir ao futuro e voltar. Não houve nada novo neste meu retorno, apenas olhei e voltei. Senti tristeza - fazia tempo. Nos meus últimos anos foi só indiferença, conquistada após muita angústia, muita raiva, muita aceitação e tantas outras escolhas. Hoje percebo que não há tanto peso nesta ausência como havia antes: adquiri minha força no vazio, na solidão total e devastadora. Mas é impossível esquecer de dores que vivi.

***
Todas essas palavras me levam a um único ponto: o exercício da minha espontaneidade. Envolve várias reações a esta ação: pessoas se assustam, pessoas vão embora, pessoas não entendem, pessoas se identificam, pessoas se aproximam, pessoas se enganam, pessoas não me absorvem. Já perdi e já ganhei com isso, mas não deixo nunca de me ser genuinamente: aqui estou eu, e não me importo em ser amada e odiada, desde que eu exerça esta liberdade inigualável se ser autenticamente produto de mim mesma.

Faço um brinde ao vinho, ao chèz-long e ao escuro!

27/11/2007

The End Is The Beginning Is The End
“The sewers belch me upThe heavens spit me outFrom ethers tragic I am born againAnd now I'm with you nowInside your world of wowTo move in desires made of deadly pretendsTill the end times beginIs it bright where you areHave the people changedDoes it make you happy you're so strangeAnd in your darkest hour, I hold secrets flameYou can watch the world devoured in it's pain StrangeClimb my ribcage toThe replays run for youUnhook my lights to peek behind the flashFor I am crystal chromeI am shatter domeI am kremlin king of angels avenged To destroy the endIs it bright where you areHave the people changedDoes it make you happy you're so strangeAnd in your darkest hour, I hold secrets flameYou can watch the world devoured in it's painThe zeppelins rain upon usThe guns of love disastrousA shadow lies amongst you To defy the future castIs it bright where you areHave the people changedDoes it make you happy you're so strangeAnd in your darkest hour, I hold secrets flameYou can watch the world devoured in it's painStrange Strange” Smashing Pumpkins

Destruir para reconstruir. Estou numa época de fins, um atrás do outro. Isso implica que estou numa fase de recomeços, que também virão um atrás do outro.

Término 1
Eu tenho um histórico de decisões corajosas, e estas decisões sempre são a separação daquilo que parecia insubstituível, ou a separação de situações que pareciam inevitáveis. Decisões sempre acompanhadas de muita surpresa daqueles que me cercam. Mas a coragem vem de perceber que preciso correr certos tipos de risco para ser feliz, e vem de notar que estou caindo no erro de tornar-me conformada, óbvia e amorfa demais. Não aceito situações (e pessoas) que me oprimem, e para ter minha certa dose de liberdade possuo muita coragem. Passei muito tempo, recentemente, elaborando e planejando o momento certo de me libertar: fui lá e fiz, a despeito do que pudesse acontecer comigo em um futuro próximo ou a opinião que certas pessoas poderiam ter. Eu sei o que se passa no meu coração, e quais são meus objetivos de vida. Isso basta para que seja capaz de realizar qualquer coisa que seja necessária para atingir um certo fim.
Hoje fico feliz por escrever sobre o meu alívio. Novamente, sou capaz de respirar e sorrir com o que sou de fato ao mundo. Uma libertação inicial da minha vida que propõe o máximo de libertação possível. E me recompenso com a perspectiva de não ter nenhuma perspectiva à minha frente: tudo eu posso viver, de bom e de não-bom, e eu vivo para ter esta sensação de nada-previsto. A vida é assim para mim: esta enorme chance, esta grande possibilidade, este enorme quadro em branco para eu desenhar o que eu quiser.
Não que eu não sinta medo – claro que sinto. Mas prefiro o medo do desconhecido ao tédio do que já conheço e não gosto.

Término 2
Este término tem mais a ver comigo: com todas as descobertas que fiz de mim, com a imensidão de imagens que eu possuía e nem imaginava. Penso que, em cinco anos, tanto que me latejava saiu, e às vezes saía de uma forma caótica e desordenada. Gastei alguma energia para controlar meus impulsos, assim como para descontrolá-los também. Quanta diferença nesse período, mal enxergo a minha vida antes disso.
Agora preciso rever este tempo. Gastei tanto dele com algo que nem sei se tenho alguma convicção. Mas muito eu aprendi sobre eu mesma: nada do que eu seria hoje teria acontecido se não fosse pelo tempo, por este tempo. Me lembro de quando tudo começou e de como a vida e o mundo eram maiores e mais assustadores – adquiri esta força, tanto quanto enfrentei minha dose de angústia. De qualquer forma, não me vejo sem ter passado por esta experiência, e isso é bom. Foi tudo um pouco estranho e dolorido, mas bom. E agora, chegando perto do último dia, tento me lembrar de como eu era no primeiro: tão pequena e tão estreita, contendo tanto esse ímpeto de liberdade que existe em mim. Guardo, enfim, este sentimento de engrandecimento e alargamento, e procuro me acostumar com minha nova imagem diante dos outros e de mim.
Muitos dizem que sentirão saudades das pessoas: eu não. Quem conheci só me fez perceber mais a inutilidade de certas coisas e a mediocridade de certas cabeças. Este foi o legado que me deixaram: o desprezo por algo que não quero para mim outra vez. (Obs.: Sis, óbvio que isso não é para vc, minha linda exceção! rs)

Término 3

Este é o mais difícil: porque é irreversível. Difícil lidar com algo que nunca mais retornará – o “nunca mais” sempre foi o que mais me perturbou. Difícil, inclusive, escrever sobre isso. Ouvi muito que “a morte é a única certeza que nós temos”, e não é? Faz parte da minha filosofia conviver com esta realidade. Isso não impede que seja doloroso quando esta mesma realidade vem de uma só vez ao meu encontro. Para mim está claro o quanto devemos aproveitar a vida, não penso mais nisso pois já adquiri meu ponto-de-vista. O que me pego pensando é: o que acontece depois conosco? Não acredito em nada, preciso criar a minha própria teoria. O que será que existe, o que será que existe, o que será que existe? Faço a pergunta, sabendo que talvez eu nunca encontre a resposta, quem sabe.
Não sei até que ponto me preocupo com as respostas, as verdades contidas nelas podem ser muito inconstantes. Não existe verdade absoluta, e acho bom que seja assim.

Me sinto muito grande por ter esses fins a elaborar: adoro isso de começar coisas novas. Há tanto na vida, e quero aproveitar o que for possível.

09/11/2007

How to Disappear Completely
“That there That's not me I go where I please I walk through walls I float down the Liffey I'm not here This isn't happening I'm not here I'm not here In a little while I'll be gone The moment's already passed Yeah it's gone And I'm not here This isn't happeningI'm not here I'm not here Strobe lights and blown speakers Fireworks and hurricanes I'm not here This isn't happening I'm not here I'm not here.” Radiohead


Mais um passo na minha elaboração do que me ocorre. Este último semestre tem sido decisivo de uma forma inesperada: já passei por momentos mais modificadores da minha realidade, mas estes momentos foram planejados – eu havia me preparado toda uma vida p/ eles, houve uma grande elaboração e um desejo imenso de que tais transformações ocorressem. Mas hoje, hoje é diferente.

Me vejo sempre cercada pelas escolhas, e eu sei que são as nossas escolhas – mesmo as inconscientes, impulsivas, repentinas – que escrevem a nossa vida. Sei que tudo que eu escolher agora se refletirá no meu futuro, para o bem ou não: é preciso ter muito cuidado, todo o cuidado, quando se vive. Viver sempre desencadeia o mundo: em qual mundo quero me depositar? Já houve um período em que eu não acreditava no meu poder de decisão sobre a minha essência, hoje sei que posso fazer dela o que quiser: óbvio que sofro com o peso desta grande responsabilidade. Por outro lado, ando reescrevendo a minha história, e já percebi - sempre conquistei o que eu quis, mas nunca pude perceber por sempre querer além. Olho para o hoje, e então sorrio, s/ querer saber do que virá.

Como costumo dizer, não ter consciência das coisas, às vezes, me traria uma maior felicidade, pois é sempre um sofrimento enfrentar a “LUCIDEZ PERIGOSA”. Não tem fuga: preciso realmente me mergulhar na lucidez, já que a tenho, p/ conseguir entender o que a vida quer de mim – ou melhor, o que eu quero de mim e da vida. Transformo isso em pergunta: o que eu quero de mim e da vida? – e, pronto!, imediatamente estou no mundo das escolhas outra vez.

Reservo alguns pedaços do meu tempo p/ pensar na pergunta. Por enquanto, só consigo pensar na pergunta, e aos poucos percebo que estou mais perto de pensar nas respostas. No fundo, sempre me interessei mais em perguntar do que em responder, acho muito bonito o mistério que existe na vida. É de uma beleza s/ tamanho, e nesse mistério estão todas as possibilidades. Possibilidade vem de Possuir. E eu me possuo como ninguém, mas isso não quer dizer que eu tenha algum controle. A grande questão é o inesperado: faz o coração se mexer em meio à inércia de um cotidiano mecânico e indesejado.

Quero sair desse cotidiano cada vez mais. Penso na peça “Como me tornei estúpido” – não é sem consciência que me interessei em vê-la. Não posso admitir que isso aconteça comigo, mesmo lidando diariamente com a agudeza da percepção do que me corrompe e do que me autentica. E quando penso: I’m not here. Eu não sou isso, não sou assim – deveria ser?
Não quero e nem consigo.

What a moon!


"What a night! What a moon' What a boy! What a moon' What a night! What a boy!Those white clouds hang in the air Like toy balloons Say, they just hang in the air That's made for honeymoonsWhat a hug! What a kiss! What a boy! What a game! Oh, what bliss! What a boy!Is it a wonder My heart is full of joy?What a night! What a moon' What a boy!" Billie Holiday

Mesmo que as coisas não estejam do jeito que eu gostaria, ainda assim consigo ser feliz. Apesar de toda a angústia, apesar de toda uma tristeza, apesar de toda uma vida: depois que eu descobri uma certa parte de mim que sempre sorri, percebo que ela é maior e faz-se mais forte a cada dia. Se p/ nada encontro soluções no momento, pelo menos continuo vivendo a minha felicidade leve e colorida - o que mais eu poderia fazer por mim mesma nesse momento?

Não encontrei solução p/ as minhas "voltas ao redor do desejo". Tive a fase de percebê-lo, de encontrá-lo: agora aguardo o instante-já certo p/ vivê-lo. Verdade que talvez eu ainda não esteja pronta, e faça parte da minha história de "atos de liberdade" também vários atos de paciência. Logo eu, sempre tão in-quieta. Hoje adquiri uma esperança muito doce: de saber que o que me aguarda é tão delicado e precioso que está guardado no futuro, a sete chaves. Nada mal p/ quem não sabe onde se colocar no mundo.

Também não encontrei um alívio final. Talvez ele nem exista, o que é mais real. Gostaria de encontrar as palavras certas que atingem exatamente aquele pedacinho de coração que sempre dói tanto. O que mudou em mim, e isso sim é sempre muito digno, é que hoje sei viver s/ esse alívio: não preciso tanto dele como precisava antes p/ ser capaz de abrir um dos meus sorrisos.

Vivo essa espécie de felicidade s/ muitas garantias - e percebo que ela é muito genuína, e que podendo sentí-la - posso qualquer coisa. Bom me sentir forte outra vez, depois de tantas quedas contínuas. Aproveito minha alegria mansa enquanto ela está por aqui, pois logo sei que retorna minha lucidez perigosa. Os meus já clássicos altos e baixos - e, quando no alto, me divirto imensamente, c/ o espírito.

Só me resta agora agradecer quem compartilha comigo esses momentos tão bêbados de felicidade autêntica: sempre me inspira pensar em quem me ajuda a fazer dos meus dias pequenas festas s/ fim.

26/10/2007

1.
Ontem eu desmoronei: e hoje me sinto pela metade. Tem dias que são tão diifíceis que duram anos, e que me provocam tal angústia que não saio a mesma. Retorno como se um pedaço fosse cortado s/ dó. Incrível como eu sempre sinto a falta que me faz o que eu nunca tive: como é possível sentir o que nunca tivemos - eu sinto que eu quase tive, cheguei perto, mas não foi. E permanece p/ sempre essa espécie de buraco branco, s/ possibilidade de preenchimento. Mas isto é uma ausência antiga, vez ou outra retorna à minha consciência - o grande desespero é quando acontece outra vez. Parece que tenho tudo resolvido dentro de mim - seria simples se pudéssemos viver c/ as aparências. Não quero mais me atingir nesse pedaço que falta cicatrizar: dói tanto, e me sinto tão pouco.
2.
Tão pouco. Existem pessoas, situações, conversas, que eu sinto mais. Ontem foi daqueles dias que quer-se sumir: p/ não sei onde, p/ onde der, da maneira que for possível. Permaneço neste ambiente que me desagrada cada dia um pouco mais: não há ninguém aqui perto em quem eu confie, e sei exatamente como é difícil que as pessoas me apreendam como sou de fato. Não sou simples, e é mais fácil se acostumar em ser - não aceito isso p/ mim, já decidi quem eu sou. A questão é, então, que eu passe a viver bem c/ essa verdade - mas já não espero que quem está ao meu redor consiga com-viver com esta beleza estranha. Quero me livrar dessa sensação de 'tão pouco' - a minha medida jamais pode ser a medida do outro.
Ontem tentei dar um passo de felicidade na minha vida. Passo em falso - machuca, mas não mata. Não aceito o fracasso de nunca tentar: mesmo que dê errado, ao menos fiz algo por mim, e tentei alcançar certos objetivos. Nesse momento entram os meus paradoxos: depois de um grande ato de coragem, desmorono. Quase uma compensação. Viver é assim mesmo: preciso de vários "atos de coragem" para alcançar meu "ato de liberdade". E minha vingança - ou justiça? - do que me foi feito e dito, será a persistência de quem continua mesmo aos pedaços. Obs.: as palavras "vingança" e "justiça" em latim são 1 só palavra, a tradução depende do contexto - e não é assim mesmo?
3.
Sempre estou nesse dilema: fraqueza x coragem. Hoje me sinto fraca, e dói. Parece que meu coração está mais sensível. Gostaria de enxergar as minhas coragens, pois sei que posso ser uma mulher muito forte quando é preciso. Mas e quando eu não consigo, o que posso fazer? Hoje foi muito difícil me levantar e enfrentar o dia: hoje vou ficar pensando na minha Ausência - com A maiúsculo.
Quando vc foi embora, eu não soube. Era pequena demais p/ saber - e hoje me sinto aquele "pequena". Sempre tive a esperança de que vc voltasse - e a minha Ausência poderia ser preenchida. Um dia, quem sabe. Mas, hoje, sinto a dor do que é irreversível, e de perceber que não há mais como. Gostaria que fosse apenas uma desesperança, mas é um fato. Quando vc foi embora, deveria saber que uma presença torta ainda é melhor do que a Ausência completa. E se me sinto sempre abandonada - vc foi o começo de tudo. Desde então, desde sempre, todos os dias, luto contra isso - mas hj, hj não: desmoronei c/ gosto. Não sei se vc sofre, não sei o que vc pensa, não sei quem vc é - e vc também jamais saberá qualquer coisa de mim. Não sinto raiva: sinto a Ausência, sinto a figura transparente de quem nunca existiu comigo.
Então, vem a minha filosofia de vida, que resume-se um pouco nessas frases: " Por isso é que eu penso assim / Se alguém quiser fazer por mim / Que faça agora."
Eu sei o porquê da minha ansiedade, e cada um é responsável por suportar suas próprias dores.

The Deepest Blues Are Black


"Shame on you Seducing everyone Faded you Your diamond in the roughYou don't have to tell me I know where you've been Shining once againWill you do The thing you've always done Tell me true I think you know the oneOne that makes me blurry Colors start to runEverytime I wonder I go underThe deeper the blues The more I see blackSweeter the brew the feeling starts coming backAll the deepest blues are blackHow my mind is spinning And my head is going numbRight from the beginning Our ending had begunI can be your trouble Shiver into youShaking like the thunder Sinking underThe deeper the blues, the more I see blackThe sweeter the bruise, the feeling starts coming backAll the deepest blues are blackWhen it comes closing in Reject Cause I gotta moveAnd the simple things get in the openings ConnectBecome something new To removeThe deeper the blues, the more I see blackThe sweeter the bruise, the feeling starts coming backAll the deepest blues are black."


Às vezes fico perto de algumas pessoas, desconhecidas, que me despertam vários sentimentos. Ao olhar para elas, estala uma história, um cenário, um contexto – não importa se está correto ou não, se é verídico ou ficção: vale pelo momento, pelo instante, pois é tão vívido.

Ontem estava sentada na plataforma do metrô, em cadeiras verde-hospital. Ao meu lado, havia um senhor. No seu colo, havia uma mala de viagem, destas bem antigas e bem rotas. A mala transmitia já ter viajado bastante – com aquele senhor ou não – mas não eram viagens peculiares: era daquele tipo de viagem que se faz com pouco dinheiro, muito planejamento, ao lado da família ou com o objetivo de ver a família, para estados distantes e cidades minúsculas. Tudo muito arenoso, quente e abafado. Existe movimento, mas não é um movimento vivo: é um movimento amorfo, apático, de quem já não espera que haja grandes surpresas. Tudo é previsto, e quer-se que seja previsto. Essa é a história da mala, mas existe também a história do senhor. Ele é roto como a mala: as roupas, a aparência, o cabelo, os sapatos. Mas, mais roto ainda é o olhar, a postura: tudo o que vem de dentro demonstra esse tipo de precariedade cafona, daquele tipo que ainda tem esperança de que sairá desta posição, mesmo sabendo que nada será feito para tal. Imagina-se facilmente a casa: os móveis velhos, desatualizados, parados no tempo. O senhor era parado no tempo: em algum momento houve um fracasso, e neste fracasso permaneceu, com aquele ar conformista de quem acha que merece a derrota. A história da mala com o senhor: ele segurava a mala com muita força em seu colo, a abraçava como a um tesouro, e permanecia imóvel esperando pelo metrô: não cogitei o que ele poderia estar pensando – parecia que desistira de pensar, e que nunca havia feito muito isso, de fato. Talvez não precisasse mais do que possuía para ser feliz – só pensamos mesmo na vida quando percebemos que o que temos não nos é suficiente. Para ele, sempre foi. Continua sendo, mesmo quando não é. Ele me deu certeza de que, quando eu levantasse, ele ainda estaria lá: esperando – e, realmente, quando fui embora, ele continuava lá, na mesma posição, sem movimento, sem vida.

No trem do metrô, uma mulher me chamou a atenção – dentre tantas. Aparentava ter mais de trinta anos, mas não ser bem resolvida com sua idade: a maquiagem, o penteado, a roupa, a figura como um todo. Existem certas mulheres de 30 que carregam um enorme peso: a vida ainda não foi vivida, mas quem sabe ainda dê tempo (que grande desespero o de correr contra o relógio). Esse era o seu peso, caracteristicamente feminino e burguês. Mas, o que mais me atraiu o pensamento foi sua postura: ela estava com as costas extremamente retas, sentando-se na beirada do banco. Me perguntei quem preocupa-se tanto com a postura, em deixar a coluna bem ereta, hoje em dia? Sabemos que devemos, mas não fazemos. Por que ela, logo aquela mulher, precisava tanto ser correta – reta? Gostaria de ter visto em seu rosto alguma expressão que acompanhasse tanta retidão: um olhar arrogante, um rosto perverso, um ar de superioridade, algo de nobreza. Mas não: esse é o ponto – não tinha essa expressão. Olhava ao longe no vagão, de uma forma ingênua e desesperada, vítima e sofrida, receptiva e medrosa. Com as mãos entrelaçadas em cima do colo: quase uma senhora bem antiga.

Depois, tive a chance de me deparar com três bebês recém-nascidos: recém-nascidos de apenas algumas horas. Achei muito estranha essa idéia: eles estavam nesse mundo há apenas algumas horas. Como deve ser difícil se acostumar com a nova realidade. Os três respiravam muito depressa, pulmõezinhos afoitos e acelerados. A barriga branca descendo e subindo depressa. Bonito de se ver essa ansiedade em estar vivo. Eles estavam com os braços e pernas ainda juntos ao corpo, não acostumados ao espaço que agora teriam: com a exceção de um deles – havia um que estava de braços abertos, havia um que estava com as pernas esticadas, havia um que alongava-se ao redor do novo território: parecia querer alcançar o novo mundo. Ele me fez uma promessa: de que não seria como o senhor ou como a mulher do metrô, ele faria da sua existência algo mais elástico, mais vivo, mais enérgico. Não ficaria encolhido diante da grandeza de uma nova realidade.

Nova realidade: este é o conflito. De agora e de sempre. Tão fácil o costume com um mundo, tão difícil nos acostumarmos com um novo. Tão fácil nos acomodarmos confortavelmente em um espaço, tão difícil enfrentarmos um novo e grande espaço. A diferença entre os bebês, entre o senhor e a mulher do metrô. É tudo uma questão de posicionamento diante da vida: como eu me coloco no mundo? O que eu faço de mim? Me encolho ou me alongo? Me agarro à mala rota ou a solto e sou livre também? Tudo é uma questão de escolha: eu escolho sempre a minha liberdade.

Desconstruir p/ Reconstruir


Fiquei pensando na instabilidade da vida. De uma hora p/ outra, tudo mudou ao meu redor, e me aperta muito o coração este meu desejo de que a rotina volte, assim como a sensação de leveza e despreocupação. Fiquei pensando como somos muito frágeis, e nos basta muito pouco p/ sermos quase extintos. Fiquei pensando sobre viver e morrer.

Quando situações como a de agora acontecem comigo, percebo que precisamos sentir sede p/ lembrarmos da importância da água. Se não houvesse esse risco, sempre presente, sempre iminente, de perdermos nossas vidas, não acredito que fôssemos valoriza-la. Que grande ingenuidade a nossa, pois, mesmo que não existam as doenças e os problemas, ainda sim a vida estaria por um triz: será que só eu penso a vida dessa forma? Penso a vida que não há garantias de absolutamente nada – tempo, felicidade, futuro ou que quer que seja. Enquanto a maioria se assusta com esta instabilidade, eu a acho incrível: sem ela não seria capaz de encontrar beleza e solenidade nos meus dias. Em todos os dias, mesmo naqueles que são felizes.

Também é muito difícil olhar alguém com outros olhos: saber, prevendo o que pode ser, que haverá mudanças muito profundas, mudanças que implicam em pensamentos, sentimentos, estrutura. Tão dolorido: ver que nada mais está no seu lugar, como um grande e terrível pecado – as coisas não estão como deveriam. E quem sabe, de verdade, qual é a melhor maneira das coisas estarem? Até experimentarmos tudo, do bom e do ruim, leva muito tempo, e só ao final de uma enorme eternidade, após tragédias e comédias, poderíamos ter a medida exata do que é o certo. Por enquanto, sem essa capacidade de vivermos absolutamente tudo, é impossível saber o que é o pior ou o melhor: só nos resta essa angústia da espera do que pode ser, torcendo muito sempre p/ que seja suportável e vivível.

Seria muito superficial se vivêssemos tudo e escolhêssemos o que é melhor: onde estaria a essência da vida de nos surpreender? Mas é sempre fácil gostarmos das surpresas boas, enquanto o que mais podemos esperar hoje são as ruins – os dois tipos de surpresa dizem o mesmo: a vida é grande e extremamente dominante.

A instabilidade da vida: em poucos minutos tudo muda consideravelmente, e precisamos usar essa capacidade magnífica do ser humano de adaptação – um recomeço tão de dentro. Me dói o peito em ansiedade. Não temo o que pode acontecer, apenas lamento por tudo. Sinto uma tristeza doce – não estou angustiada, não estou doendo, não estou perdida. O que eu sinto é uma ternura sem igual pelas pessoas envolvidas, e reservo minha energia p/ tentar dar a elas um recomeço mais leve, mais descontraído, mais feliz até. Acredito que, nesse momento, seja esse o meu papel – pelo menos é o que o meu coração me diz.

O que seria de nós se passarmos por tudo isso? Apesar da dor – pela dor – vejo tudo através de uma beleza estranha e mal iluminada. Viver esses momentos de tristeza aguda sem medo, sem dó, sem remorso. É impossível escapar de certas experiências. Esta é uma das mais difíceis que já tive (apesar das minhas crises existenciais sempre presentes por aqui), e não sei do que sou capaz, embora saiba que sou capaz de (alguma coisa, qualquer coisa).

Não acredito em Deus, não tenho religião, mas acredito na vida – e a morte é apenas uma das suas personalidades. Não vejo a morte como algo “oposto”, “contrário” à vida: faz parte morrer tanto quanto faz parte nascer para a vida ter seu grande valor. Difícil é encarar a vida e a morte quando estão muito próximas.

Loucura Mansa

“... ‘inteligência’ que, no seu entender, era uma espécie de loucura mansa.” George Orwel

Filosofando (p/ variar)
Gostei disso: loucura mansa. Acredito que realmente seja assim: quando se é inteligente demais, alcança-se um estado de lucidez extremamente perigosa. Entende-se muito a realidade, as pessoas, o mundo – e nada esconde mais lixo do que a realidade, as pessoas e o mundo (isso é algo que venho descobrindo). A realidade, tal como ela é, é o que mais próximo da loucura pode nos levar: a fantasia, muito raramente, nos causa esse mal – é impossível viver ao longo dos longos dias do cotidiano sem um pouco de fantasia, sem ela seria extremamente pior para mim suportar o peso que a realidade implica. Daí minha preferência pelos loucos: considero que eles compreenderam demais a realidade, e chegaram à conclusão de que é melhor construirmos nosso próprio mundo, e nele sermos livres para nos expressarmos como somos de verdade.
Domingo à noite é quando mais sofro por me deparar com essa dificuldade. Não é aquela depressão-clichê de domingo à noite, sofro ao meu modo existencial. Depois de ter experimentado minha doce liberdade, minha estranha autenticidade, cortam-se as minhas asas como se não houvesse dor, e como se não fosse uma segunda forma de castração. Não é fácil para mim viver no mundo como ele é: eu aqui questiono, e percebo que ninguém sabe as respostas, ou sequer entende as minhas perguntas. Faz parte da mediocridade do mundo não entender: é a máxima da “ignorância é a felicidade”. Aliás, separo as pessoas que podem fazer parte da minha vida a partir dessa máxima: não considero digno de experimentar a VIDA quem não quer saber, entender ou se envolver – a minha concepção de vida engloba sofrer por não concordar, sofrer pelo desejo, construir este desejo.
Quero me sentir construtiva, afirmando minha existência como algo que não é possível ser modificado pelos outros. Não quero que a minha fragilidade me deixe sofrer com o que não me pertence, quero ser capaz de redescobrir a coragem que sei que tenho escondida. Meio perdida e, nos últimos tempos, sem uso. Não me admito caindo na conformidade de uma vida fracassada e sem registro. Isso não sou eu. Muita coisa do que tenho passado não sou eu.

Decepcionando (mais uma vez)
Continuo o fio dos meus pensamentos indo para as decepções que tive. Já houve quem passasse pela minha história com garantias de permanência – e quando digo isso, refiro-me aos “amigos” que não tive de fato, falo sobre amizade – e, não sem antes uma investigação, percebi que não seriam capazes de ficar. Não sou comum, não sou simples, não sou fácil, nem óbvia. Quem permanece ao meu lado deve, em um nível mínimo, ter capacidade de me ler: quando escrevo eu me destravo e me sou. Deve-se passar do primeiro texto, do primeiro livro, do primeiro post. Dessa forma – eu me sendo assim dessa forma – seleciono naturalmente que vai e quem fica. Pouquíssimos agüentam, e são heróis tanto quanto eu sou heroína de mim mesma.
O que me abala mais é a capacidade quase inata do ser humano de ser mesquinho. De ter objetivos tão rasos e tão imediatos. Há quem prefira uma posição de status à uma amizade genuína, há quem coloque esta amizade a perder pelo status. Os valores modernos me parecem distantes demais. Não falam ao coração, à alma. E assim percebo a pequenez e a feiúra de quem me pareceu à minha altura: agora sinto uma grande e pesada raiva, o que detesto. Isso também não sou eu.
Não é fácil que eu me entregue a alguém: sei que sou um fardo, e sempre trago incômodo:

Continuando a filosofia
E, então, volto ao primeiro tópico: incomodo porque penso. Porque sou vítima dessa grande lucidez que desencadeia a loucura mansa. Porque não acredito que a vida deva ser desse jeito torto imposto e obrigatório. Ainda acredito que existem opções, e, claro, sofrerei por não escolher o que é mais fácil, mais óbvio e mais próximo: eu desejo o meu desejo, e o meu desejo envolve seguir em frente mesmo com este medo imenso que sinto.
E tenho medo: sempre acho que a realidade vai me roubar o meu desejo, ser um obstáculo às minhas necessidades tão vitais. E por que sinto tanto esse medo? Cabe aí um pouco de psicanálise. Ou não. Não sei se me teorizar vai me levar a algum lugar.
Só sei que estou numa fase de inércia - não tenho p/ onde ir, embora existam muitas opções. Não chegou a hora, sequer, de pensar qual das opções. Essa fase é a que eu mais odeio: fico esperando o tempo passar, tentando aproveitar o tempo enquanto isso, p/ ver onde meu futuro vai dar. Guardo muita expectativa e muita insegurança, aquele medo sempre volta. Mas já passa, e dias melhores virão, disso eu tenho certeza.
E pensar que há alguns anos eu estava na fossa. Sem dó de mim. Decidi que não deixaria mais a vida me machucar, e, daí p/ frente, tudo foi melhorando muito, e hoje - quando estou no MEU mundo, tenho tudo o que preciso e sou tudo o que quero. Minha luta, agora, é permanecer dele o maior tempo possível. É nele que sou feliz.

E termino como comecei: “...ah, o dinheiro. Sempre o dinheiro.” (George Orwell)

I chose something else.

Eu escolho: não fazer parte dos lugares-comuns e dos clichês.
Eu escolho: não participar de conversas rasas do dia-a-dia.
Eu escolho: não conviver com quem colabora com a mesquinheza de um cotidiano superficial.
Eu escolho: viver cada segundo com a intensidade de quem vai morrer - e quem não vai?
Eu escolho: manter minha essência intacta a despeito da mediocridade do mundo.
Eu escolho: minha liberdade como o que há de mais importante - e mais difícil.
Eu escolho: ser eu mesma, apesar de mal-compreendida, estranha e diferente.
Eu escolho: ser o que me é alegre, ser o o que me convém, ser tudo e nada ao mesmo tempo.
Eu escolho: a solidão à companhia de quem não me absorve.
Eu escolho: o lema "decifra-me ou te devoro".



"Choose life. Choose a job. Choose a career. Choose a family.
Choose a fucking big television.
Choose washing machines, cars, compact disk players, and electrical tin openers.
Choose good health, low cholesterol, and dental insurance.
Choose fixed interest mortgage repayments.
Choose a starter home. Choose your friends.
Choose leisure wear and matching luggage.
Choose a three-piece suit on higher purchase in a range of fucking fabrics.
Choose DIY and wonder who the fuck you are on a Sunday morning.
Choose sittin' on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game-shows, stuffing fucking junk food into your mouth.
Choose rottin' away at the end of it all, pissin' your last in a miserable home nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats that you've spawned to replace yourselves.
Choose your future. Choose life.
But why would I want to do a thing like that? I chose not to choose life. I chose somethin' else. And the reasons? There are no reasons." (Trainspotting)

She's lost control


"Confusion in her eyes that says it all, she's lost control And she's clinging to the nearest passer by, she's lost control And she gave away the secrets of her past and said I've lost control again And of a voice that told her when and where to act She said I've lost control again And she turned to me and took me by the hand and said I've lost control again And how I'll never know just why or understand she said I've lost control again And she screamed out, kicking on her side and said I've lost control again And seized up on the floor, I thought she'd die She said I've lost control She's lost control again, she's lost controlWell I had to phone her friend to state her case and say she's lost control again And she showed up all the errors and mistakes and said I've lost control againBut she expressed herself in many different ways until she lost control again And walked upon the edge of no escape and laughed I've lost controlShe's lost control again, she's lost control I could live a little better with the myths and the lies When the darkness broke in, I just broke down and cried I could live a little in a wider lineWhen the change is gone, when the urge is gone To lose control When here we come." (Joy Division)


Seria muito bom se eu me permitisse perder o controle: tenho tanto a dizer para tantas pessoas, acho que haveria uma ruptura em quase tudo ao meu redor - como se essa não fosse exatamente a minha busca. Mas quando penso que poderia me aliviar, sendo um pouco mais sincera e um pouco menos paciente, logo me lembro que não posso: não poder é o que mais me dói. Gostaria de poder, e optar por não fazer. Ter opção é sempre bom. Fico pensando que é muito difícil passar os dias sem concordar com o que me acontece e sem concordar com o comportamento das pessoas - não porque eu ache que sei o que deve ser feito, mas porque eu tenho muita clareza do que não sei e do que não gosto. Talvez eu seja intolerante, talvez. Mas ainda acho que as pessoas são pouco evoluídas, e que o homem está muito longe de ter um espírito e um coração.

Ando pensando muito no meu futuro. Além de ser uma fuga singela do meu cotidiano, me dá esperança - aquele tipo de esperança que se assemelha a uma luz verde. E também me aproprio do meu destino: sinto que eu sou responsável pelo que fazer de mim, e que não sem dor e não sem ansiedade, eu posso fazer do meu mundo algo concreto. Fico imaginando que, anos depois, tudo isso me parecerá um exagero - pois os meus dias de paz já terão chegado, da mesma forma que hoje é o meu dia bom que achei que não aconteceria no passado. Me agrada pensar que existem mudanças: seria a morte se eu me sentisse sem movimento.

A grande questão é que eu não consigo ser infiel a mim. Não me preocupo com coisas "comuns" (o emprego, a roupa, a posição, o status): eu só me desgasto com o que corrompe a minha essência e com o que ameaça a minha felicidade. Não me importo onde ou com o quê eu trabalho, desde que eu me sinta eu. Isso é o que me dá o prazer de acordar pela manhã - e não me sentir assim amanhecida e amarelada pelo resto do dia. Quero simples: fazer o que me dá prazer de estar viva. Não é pedir muito - embora pareça.

Eu fico num limite bem estreito entre a angústia e a indiferença. Jamais consigo negar, e se eu negasse estaria me violando. Mas agora tudo parece mais claro, e sinto que está tomando forma e proporção, um colorido agradável aos olhos. Esse momento já chegou, antes era tudo p/b. E aqui fica minha discreta homenagem a vc: e por acaso eu conseguiria sem sua inspiração? Vc sabe que não.

Strangeness and Charm


Não quero ser uma dessas pessoas que se conforma. Não quero ver minha vida tomando rumos que não concordo. Tenho medo que comigo aconteça o que às vezes vejo ao meu redor: existências tão desperdiçadas, tão mesquinhas, paradas no tempo de uma forma irreversível. Há tanto no mundo, por que me prender em algo que não me é prazeroso? Não quero que aconteça esse tipo de erro, desses erros que cometemos com nós mesmos e nunca mais nos perdoamos: perdoar os outros é fácil, complicado mesmo é o perdão que se dá a si. A vida é curta demais para se fazer o que não se quer - eu já sei o que não quero, posso fazer listas incríveis do que não quero, mas e o que eu quero? Onde está? Esta é uma questão eterna que sempre me cerca: sempre busco o meu desejo. Não quero a minha vida construída sempre no mesmo lugar, na mesma rotina, na mesma função, nos mesmos vícios. Quero novos e diferentes vícios, experimentar aos poucos todo e qualquer pecado - eu topo até sofrer, mas não aceito a estagnação, a solidez de uma vida sem surpresas. O problema é que não sei por onde começar: quem não sabe o que busca, não percebe o que encontra - é nesse ponto que estou. Nada me parece bom o suficiente para eu perder meu (precioso) tempo com. Tenho uma impressionante urgência de viver, talvez eu morra cedo. Não sei viver do quê. Como se eu estivesse sem caminhos à frente, e precisasse eu mesma construir um - pode ser que eu perceba que está tudo errado de novo, mas o que sou se eu parar de tentar e de buscar? E mesmo depois que eu penso, converso, reflito, chego a lugar nenhum - às vezes acho que esse é meu destino, estar sempre perdida. O que me consola é que tudo sai do nada, tudo sempre me saiu do meu nada. De tempos em tempos fico sem saber o que fazer comigo, não sei bem onde me colocar, como me usar, só sei que mereço mais de mim no meu cotidiano. Há quase nenhum registro do que sou de verdade - custei tanto a descobrir, agora preciso dar uma utilidade a isso. De qualquer jeito, com urgência.

"I can't be who you are"

"I am so sick of the tension, sick of the hunger, sick of you acting like i owe you this. Find another place to feed your greed, while i find a place to rest. I'm so sick of the tension, sick of the hunger, sick of you acting like i owe you this. Find another place to feed your greed,While i find, a place to rest. (...) I wanna be in another place, i hate when you say you don't understand (you see it's nothing to me) I wanna be in the energy, now with the enemy, a place for my head." LP

Passei muito tempo, muito mesmo, procurando o meu lugar - e eu jurei para mim mesma que eu nunca encontraria algo que me desse o sentimento de pertencer. Agora eu juro que não vou deixar ninguém me fazer esquecer que o encontrei - é o meu tesouro mais precioso, e o que faço questão de proteger a qualquer custo. Passei um período que me senti defendendo o meu espaço, ferozmente, dia-a-dia, coisa mais selvagem. Passou, continuo ilesa, apesar das animalidades ao meu redor.

Depois de tanto pensar, finalmente consegui sair do meu dilema. Pensei que o meu conflito nunca passaria, mas o que importa realmente é que me mantive fiel ao que sou de fato. Isso que é tão complicado em mim: se eu questionasse menos, me conformasse mais, seria menos doloroso - mas então eu seria qualquer pessoa, e não admito esse lugar-comum em mim. Sou obrigada a arcar com as conseqüências de me ser: isso envolve uma série de pré-ocupações e angústias sem sentido. Mas acho que consigo viver assim mesmo. Ressignifiquei tudo ao meu redor, e percebi que ainda existiam valores que não eram meus. Agora todos são.

Exigiu de mim mais coragem - na verdade, de uns tempos para cá, só o que faço é oscilar entre ter muito medo e ter muita coragem. Acho curioso uma amiga que diz: "não tenho peito para isso OU tenho peito para aquilo". Engraçado colocar um sentimento tão duro em palavras assim - eu deveria tbm simplificar mais o que me acontece. Uma das minhas coragens deve ser descomplicar a mim. Andei cansada de me superar tanto - esse ano fiz tanto que me desafiou, tanto exigi de mim e tanto consegui que saísse que, agora, simplesmente, eu quero sossego. Quero me desinteressar de tudo. Quero ser um pouco irresponsável, eu que sempre fui muito precoce. Quero exercer mais a minha liberdade - apesar do medo, apesar das dores que sei que vou provocar.

Do que aprendi: não permito mais me preencher com o que não é meu, com o que não faz parte do meu mundo. Não quero mais ser invadida. Me dou o direito de não me interessar, não me envolver, não me machucar - e não me importa como isso apareça aos outros. Que eu aproveite a minha vida, segundo a segundo. E pensar que cheguei a me culpar por isso, quase me traí. Dessa vez foi por pouco.

Gosto da sensação de sentir o problema indo embora - sinto um alívio de minuto a minuto por perceber que se passou mais um minuto sem aquele peso em mim. Confiro o tempo todo, só para confirmar que realmente passou - que bom que posso ser autêntica de novo. Ser transparente, e sei que incomoda.

"Go away can't you see you're not realOpen your eye some place far awayI've seen the ocean and I've seen the skyI've got my wings and I'm starting to fly" LP

01/08/2007

O Processo ou A Crise
Existem algumas fases quando se passa por momentos de crise: já tive a tristeza, a raiva, o medo. Agora estou perto de sair da crise, pois alcancei o estágio da elaboração - minha mente não pára um segundo, mas sinto que estou quase lá. E o "lá" será maravilhoso, será libertador, e sairei maior disso tudo. Ando elaborando:

Ressignificação 1 - Sábado
Tem uma coisa que eu acho que ninguém sai ileso: percebi que é comum que nosso parâmetro seja relacionado com o que fazemos - o que temos e o que não temos, o que fazemos e (principalmente) o que não fazemos, e daí vem o que somos e o que não somos. Eu penso tanto sobre isso, e pelo menos já concluí uma coisa: são apenas coisas, são apenas verbos, são apenas atos, nada além. Trata-se apenas de uma rotina, monótona e cansativa, de quem não pode escolher outra coisa - alguém pode? Enxergo como ações mecânicas minhas, quando estou totalmente fora de mim fingindo-me ser eu - porque ali não sou, apenas compareço. Acho curioso quando percebo que muitos se medem por ali, até compreendo que fiquemos o dia todo, a semana toda exercendo tal e tal função, mas é apenas isso: uma função - função podemos ter milhares, mas valor só se tem uma vez, e é de vez. Tento me guardar no valor que possuo, e não na função que os outros me atribuem; não quero mais permitir que os outros (pouco que me conhecem) sejam capazes de me agredir tanto mentalmente. São intrusos da minha paz de espírito. A boa notícia é que sou mais impermeável do que eu era antes, e já alcacei tal indiferença que pouco me importa o que vai me acontecer - acredito que sempre haverá um alívio maior. E é no alívio que eu me concentro dia e noite. Tento me preservar desta selvageria - competição insana pela melhor comida. Amanhã acordarei e vestirei minha máscara, mais uma vez, me disfarçarei da angústia que me toma diversas vezes, e fingirei que sou o que não sou - não porque eu seja hipócrita, nem porque eu seja conformada: eu apenas cansei e desisti. E passo as horas do meu dia, concentrada para não sentir o desconforto por trás, concentrada em coisas cotidianas meramente. Mediocrimente.


Ressignificação 2 - Tattoo
Na humanidade sempre teve histórias de sacrifícios, em várias religiões, vários cultos, muitas crenças, era bom. Entendo isso melhor hoje. O sacrifício que se faz na pele, muito simbólica, limpa - estou com a sensação de leveza, de purificação, é bom. Estranho pensar nessa coisa universal de que ferir a carne purifica a alma, por que? É a concretização das dores, a ida delas à superfície, a ida delas para sempre de dentro para fora. Como se fossem arrancadas, e por isso dói, eram enraízadas demais, talvez. Talvez as minhas sejam. Estou mais indiferente, mais abstrata, mais solene. Mas ainda há o porquê de sentir mais um pouco, não saiu tudo ainda de mim.

Ressignificação 3 - Viagem
Ando ressignificando os acontecimentos, como pode-se perceber. Me ajuda muito quando entendo o porquê das pessoas serem o que são: não anula os sentimentos que me despertam, mas impedem que muitos outros venham a aparecer. Eu me conheço: posso ser muito corajosa ou muito medrosa - sou sempre de extremos. Decidi que minha coragem vai ser a grande indiferença, a grande irresponsabilidade, a grande amoralidade. Minha coragem foi a de ressignificar o que era para ser mundano em algo digno de memória: não me importa se objetivos que não são meus não foram atingidos, me importa que tive um lindo lindo dia ao lado de quem amo mais. E da minha vida só pretendo isso de hoje em diante, porque o resto não vale a pena - exatamente isso, pena, como quem está preso, cumprindo uma: hoje resolvi fugir da cadeia, que deliciosa liberdade a de viver.

Ressignificação 4 - A alegria
Por que descartar a minha alegria, se hoje conquistei uma felicidade que parecia impssível? Tudo me bate na casca, e volta para quem me desferiu, porque sei da minha sorte, da minha vida, e dos meus amores - grandes e acolhedores. Ninguém tira isso de mim.

22/07/2007

VENUS IN FURS - VELVET UNDERGROUND
"Shiny, shiny, shiny boots of leatherWhiplash girlchild in the darkComes in bells, your servant, don't forsake himStrike, dear mistress, and cure his heartDowny sins of streetlight fanciesChase the costumes she shall wearErmine furs adorn the imperiousSeverin, Severin awaits you thereI am tired, I am wearyI could sleep for a thousand yearsA thousand dreams that would awake meDifferent colors made of tearsKiss the boot of shiny, shiny leatherShiny leather in the darkTongue of thongs, the belt that does await youStrike, dear mistress, and cure his heartSeverin, Severin, speak so slightlySeverin, down on your bended kneeTaste the whip, in love not given lightlyTaste the whip, now plead for meI am tired, I am wearyI could sleep for a thousand yearsA thousand dreams that would awake meDifferent colors made of tearsShiny, shiny, shiny boots of leatherWhiplash girlchild in the darkSeverin, your servant comes in bells, please don't forsake himStrike, dear mistress, and cure his heart"

Me disseram que o tema dos meus últimos posts tem se repetido, e eu concordo: mas isso me entristece, é sinal de que são sempre os mesmos incômodos. São minhas "voltas ao redor do desejo." E o que eu desejo? E por que dou voltas?
Eu desejo uma rotina diferente. O cotidiano nos diz muito o que somos: sobra pouco tempo, e, com isso, devemos escolher nossas prioridades - então é fácil descobrir quem é o quê, e eu gostaria de entender menos os motivos dos outros, pois sempre descubro uma parte podre em quem eu não gostaria. Fica tão nítido, para mim, os meus valores e os dos demais, e aí percebo que o mundo não é um bom lugar para se estar. É nas escolhas dos outros que eu me aprofundo, e nas minhas me descubro um pouco mais todos os dias. E as minhas escolhas são o meu desejo. Mas, por que dou as voltas? Se a vida me levasse direto, reto, em direção ao meu desejo, de onde eu tiraria uma razão de ser, literalmente? Não me vejo conquistando as coisas fáceis, é contrário à minha filosofia.
Me lembrei de um certo tipo de sofrimento que já tive. Foram vários diferentes, e não costumo dividi-los - guardo um certo tipo de constrangimento e me preservo. Mas desse me lembrei: era uma espécie de letargia, de uma apatia - o grau de infelicidade alcançava tal ponto que era impossível reagir de alguma forma que fosse compatível. Não havia saída: esse era o desespero final. E não havia ninguém - qualquer dia coloco em palavras o nível de solidão que me era. Mas o que doía mesmo era a letargia: eram horas lentas e amargas que passavam ser me levar a nada, sem passar por nada, sem dizer nada. O pior acontecia: nada. Sentia que foram anos desperdiçados de vida, essa matéria-prima, mas me lembrando, revi: faz parte do que eu sou hoje, e faz parte de eu ser assim tida como esquisita e impenetrável. Melancólica.
Ainda sinto o alívio de ter saído deste nada - era tão denso, tão sem ar. Todos os dias me convenço de que não vai mais voltar: se hoje eu me descubro nas minhas escolhas, também descubro que as minhas escolhas me levam à distâncias enormes desse nada. Porque agora me sinto dona de mim, não ainda das minhas angústias, mas de mim, do que eu terei para contar no futuro. Como se eu tivesse retomado o rumo, depois de ter me perdido e me deixado ficar. E penso que existem pessoas tão "próximas" de mim que nunca perceberam o que se passava comigo: esta foi a minha primeira grande decepção. E é por ter passado pelo pior sozinha que me tornei assim meio misteriosa, meio inquieta e meio distante, mas só eu sei. E hoje, quando percebo que as partes podres ainda existem, no mesmo formato, dôo minha raiva e meu asco, pois não quero que esse tipo de sensação fique comigo.
Nessas horas, não acredito nas palavras: quem quer que leia isso, vai entender o sofrimento a seu modo, não ao meu. Sei que podem até realizar esforços para me alcançar, mas nós somos proprietários dos nosso sofrimentos, os outros são sempre espectadores. É assim que a vida funciona - que cada um corra atrás de sua própria história.
Cada dia vale muito, e vale mais do que o dia anterior, pois é um dia a menos que temos - é isso que eu priorizo no meu cotidiano. E também é um dia a mais que sobrevivi a este tipo de sofrimento. Não quero mais me lembrar: a marca continuará aqui, mas silenciosa e calma.

18/07/2007

Oração - Clarice Lispector
"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença.Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude.Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase.Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.Faça com que a solidão não me destrua.Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.Receba em teus braços o meu pecado de pensar."


Quem me conhece sabe que eu não acredito em Deus, e que sou avessa às religiões - todas elas. Mas acredito que precisamos recorrer a coisas que são transcendentes, além de nossa compreensão e de nosso controle: para mim, isso são forças, energias, Universo, etc. Para outros, receberá outros nomes, e não é nenhum desses nomes que importa. Eu acredito na transcendência desse meu jeito, e hj estou precisando recorrer a ela. Quem me conhece tbm sabe que eu não acredito em orações, dessas cristãs: tenho minha própria prece, e hj ela será assim:

" Desejo que minha essência não seja violentada, nem pelos outros e menos ainda por mim mesma. Desejo que a minha paz, tão arduamente conquistada, seja preservada, inviolável dentro do meu frágil invólucro. Desejo que a minha mente mantenha-se sã, logo eu que sou tão fugidia. Desejo que eu possa viver no meu mundo, pois aqui é o único lugar onde sou livre e autêntica, e onde desfruto da minha leveza de estar viva. Desejo estar viva, apesar de. Desejo me manter de pé, calma e como uma estátua, mesmo que tudo ao meu redor esteja desmoronando. Desejo que todo o meu sacrifício p/ me livrar da angústia não seja em vão. Desejo dias melhores, de liberdade e colorido. E minha vida menos ordinária."

Foi assim então a minha prece. Não peço por mais ngm além de mim, por dois motivos: primeiro, pq eu mal consigo cuidar de mim mesma; depois, pq não acredito mais no ser humano. Quase não acredito mais em mim, mas aí seria o fim. E me resta sempre a esperança e a fantasia, minhas pqnas fugas diárias da rotina p/ me manter intacta. Eu sofro e faço minha prece: com o coração apertado.
Uma vez meu ex-terapeuta me disse que "coragem" significa "força no coração" em latim. Hj procuro essa minha força, a "força de me enfrentar" da Clarice.

24/06/2007

"Cada minuto que passa é um milagre que não se repete." (Clarice)

É estranho pensar como certas coisas mudam com o tempo: a sensação não é mais a mesma, mas, se eu me recordo, sinto exatamente igual. Como se eu não me esquecesse nunca de coisas que já sofri para não deixar de valorizar o não-sofrer. Quando ouço essa música - memória auditiva - a sensação é a mesma: como se eu pudesse ser o que eu era antes, mas não em tempo real. Meio esquisito. Não quero esquecer de certas coisas que já vivi, muito incômodas e difíceis, mas se lembro - re-sinto com intensidade demais, e não quero mais esses sentimentos para mim. O que importa é que agora eu encontrei o lugar ao qual pertenço: é verdade que ainda há espaços que preciso conquistar, mas nos últimos tempos já me descobri e me reconheci bastante. Isso me alivia, porque a sensação de não-pertencer sempre foi presente demais. Fico feliz porque pecebo que estou aproveitando minha alegria mansa: me sinto mais leve e mais em paz - certas mudanças me pareceram perturbadoras no início, mas agora as considero abençoadas. A cada dia que passa noto mais quais são meus papéis, qual é meu espaço e ao que faço parte. Pelo menos não sou mais tão confusa e tão perdida. E ser um pouco perdida, sempre, faz parte de mim. Mas hoje não encontro bem as palavras, eu só sinto e quero que continue assim, no nível da sensação. Racionalizar tudo faz mal, quem dera o mundo fosse um pouco mais sensitivo. Quero permanecer com minha cabeça de vento durante um tempo mais.
Vou ficar pensando em como as histórias passadas ainda mexem comigo. São um presente que está indo embora, mas me pergunto por que ainda não foram totalmente? Falta algo a ser elaborado? Acho que falta digerir a idéia de que minha vida não é mais apática como era antes - eu nunca achei que isso fosse acontecer. De intensidades pesadas passo a ter intensidades perfumadas.

Bad Reputation / Cherry Bomb


"I don't give a damn 'bout my reputation / You're living in the past it's a new generation / A girl can do what she wants to do and that's / What I'm gonna do / An' I don't give a damn ' bout my bad reputation / Oh no not me / An' I don't give a damn 'bout my reputation / Never said I wanted to improve my station / An' I'm only doin' good / When I'm havin' fun / An' I don't have to please no one / An' I don't give a damn / 'Bout my bad reputation / Oh no, not me Oh no, not me / I don't give a damn / 'Bout my reputation / I've never been afraid of any deviation / An' I don't really care / If ya think I'm strange / I ain't gonna change / An' I'm never gonna care / 'Bout my bad reputation / Oh no, not me Oh no, not me Pedal boys! / An' I don't give a damn / 'Bout my reputation / The world's in trouble / There's no communication / An' everyone can say / What they want to say / It never gets better anyway / So why should I care / 'Bout a bad reputation anyway / Oh no, not me Oh no, not me / I don't give a damn 'bout my bad reputation / You're living in the past / It's a new generation / An' I only feel good / When I got no pain / An' that's how I'm gonna stay / An' I don't give a damn / 'Bout my bad reputation / Oh no, not me Oh no, not Not me, not me" JOAN JETT

Um tempo atrás eu me preocupava demais com oq as pessoas pensavam de mim. Já faz um bom tempo, na verdade, mas ainda me sinto muito feliz de ter me libertado dessa amarra. Decidir ser mais eu mesma foi uma das melhores decisões que já tomei, e me reinvento e me descubro mais um pouco por dia. Hoje já não me importa o que dizem: já sei quem realmente gosta de mim, e já sei que foram essas as pessoas que me desamarraram. É tão entediante quando temos que ficar nos controlando: pensando no que dizer, no que vestir, no que gostar - para causarmos aquela boa impressão em quem não aceita o que é diferente ou fora do comum. Tão pobre isso, pois no final confundimos o que é real e o que é fictício, e não conseguimos enganar por muito tempo. Eu, pelo menos, me preocupo não em enganar aos outros, mas em me enganar. Não quero mais ser o que não sou de verdade, só porque tenho meus conceitos e minhas filosofias tão diferentes do senso comum. Aprendi a me orgulhar disso, e deixar que os outros falem falem falem, já não absorvo mais. Faz parte do meu cansaço pelas coisas e pessoas de hoje, faz parte de achar tudo vazio e sem sentido. E agora com este meu ideal de liberdade, sendo ele uma ilusão ou não, fico cada vez mais à vontade comigo mesma, para me ser e ponto final. Bom isso de não precisar me auto-afirmar.

"Can't stay at home, can't stay at school / Old folks say, ya poor little fool / Down the street I'm the girl next door / I'm the fox you've been waiting for / Hello Daddy, hello Mom / I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb / Hello world I'm your wild girl / I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb / Stone age love and strange sounds too / Come on baby let me get to you / Bad nights cause'n teenage blues / Get down ladies you've got nothing to lose / Hello Daddy, hello Mom / I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb / Hello world I'm your wild girl / I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb / Hey street boy whats your style / Your dead end dreams don't make you smile / I'll give ya something to live for / Have ya, grab ya til your sore / Hello Daddy, hello Mom / I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb / Hello world I'm your wild girl / I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb" JOAN JETT

Curioso que esse prazer com a autenticidade me energiza um pouco, me oferece uma certa esperança. Eu já havia pensado que eu precisava de um pouco mais de esperança, ou de qualquer coisa com qualquer nome que me deixasse mais calma e mais leve. E isso de me ser, sinto que não sou facilmente atingível, nem tão suscetível como me sinto normalmente. Parece que eu preciso relembrar dessa força, dessa atividade, em vez de só reclamar do furacão. Se eu pudesse ter mais desse tempo para me reencontrar, costumo me perder facilmente no caminho. Que caminho?! Do que eu estou falando agora?! Ai ai ai!!
 
AT Wireless
Cell Phones