"Diariamente, noturnamente, abro a janela do meu quarto e espio o teco de Universo que se apresenta à minha visão. Olhando para o Céu e para a Lua penso, eu e os meus botões, o quão além uma essência pode ir sem tirar os pés do chão.
Diariamente e noturnamente, chorei. Com as luzes apagadas, envergonhada de que algum vizinho visse as lágrimas, chorei incansavelmente através do parapeito. Em dias quentes, em dias de chuva, em dias comuns, em datas especiais.
Hoje, aconteceu: abri a janela e sorri. Sorri para o Universo, sinceramente agradecida pelo que eu havia ganho nas noites anteriores. Senti a minha essência alargando-se dentro de mim satisfeita com as minhas conquistas. Eu sorri. Genuinamente.
Hoje, não apaguei a luz do quarto. Queria ser um ponto iluminado no meio da noite, entre tantos pontos escuros, diante de tanta escuridão que houve dentro de mim. Sorri com os novos conflitos que tenho pela frente, e sorri pelas escolhas sábias que ando fazendo.
A lua cheia hoje está mais próxima da Terra. Quis vê-la assim de perto, mas as nuvens impediram. Sorri para as nuvens, e sorri para a Lua.
Olhei a máscara na porta do quarto, e sorri a ela também.
Se me perguntar se estou feliz com o mundo, e, por isso, sorri – responderei que não, não estou. Se me perguntar se estou feliz com os outros, menos ainda. Sorri porque, pela primeira vez em toda a minha pequena existência, descobri o meu valor.
Abri todas as janelas, permitindo ao Universo que o seu vento faça parte da minha casa. Eis o reembolso da minha dor: este momento de alegria mansa.
Faz (quase) cento e vinte dias. Que eu renasci."


