Uma pessoa muito especial na minha vida uma vez me disse que, quando estava feliz, achava que ia morrer. Eu a entendi perfeitamente, e na mesma hora, porque a felicidade realmente assusta.
A tristeza machuca, deixa marcas, dói, mas não assusta. Porque na tristeza ficamos tão limitados em nossas próprias fraquezas que sabemos, ou pelo menos sentimos, que não existem muitas possibilidades ao redor. Estamos ali, e ficaremos por ali, contra nossa vontade, mas ainda assim ali.
A felicidade, não. Se me sinto feliz, passo a acreditar que existem todas as possibilidades de vida para mim e tamanha perspectiva de alegrias vai me deixando mais e mais perdida, diante da imensidão do que posso ter - e mais - do que posso ser. Não ter fantasmas é de uma liberdade tão grande que assusta, a todos, pois somos vulneráveis demais para conseguirmos viver sem um trauma que determine nossos passos.
É muito mais cômodo que nos apoiemos em nossas fraquezas, e façamos delas nossa desculpa para não enfrentarmos nosso medo da liberdade. Porque liberdade não vem sem um pouco de loucura, e a loucura não vem sem uma extrema lucidez.
Se você me perguntar em que estágio estou, te respondo que estou na fase da aguda lucidez. Penso e tudo dói como se me fosse faltar o ar, mas sei que estou como nunca perto de uma liberdade inimaginável. E logo também não serei mais determinada pelas minhas feridas e pelos meus medos, e serei determinada tão somente pela minha essência maior e mais leve.
"... a noção desassossegada de algo a não poder tocar jamais, de alguma coisa que já não lhe pertencia porque estava completa mas que ela ainda se prendia pela incapacidade de criar outra vida a um novo tempo." (Lispector)
E digo para mim mesma todos os dias: se não consigo imaginar algo, não significa que a vida não possa fazê-lo para mim.