Li essa frase em uma lista de afazeres da Clarice Lispector. Entre coisas rotineiras, estava essa tarefa - colocada exatamente assim, como uma obrigação a cumprir durante o dia. O mais curioso é que todos os ítens de sua lista estavam riscados, já feitos, mas este ainda não estava feito. Era o mais difícil de todos, não só para ela, mas acredito que para todos. Para mim é. No começo, achei um absurdo considerar "viver melhor as 24h do dia" como uma obrigação de uma lista de afazeres, mas depois pensei: se não colocarmos isso nesses termos, muito provavelmente deixamos de lado - oq é importante demais, difícil demais, árduo demais, sempre é deixado para depois - afinal, não há quem queira gastar energia com o que é realmente valioso. Sim, é preciso encarar como uma tarefa, para anotar-se na agenda, e não se esquecer. Eu procuro não me esquecer: penso que cada hora pode ser a minha última hora, e não quero disperdiçar a minha (potencial) última hora com raiva, ou estressada - muito menos esse mal moderno. Quero q a última hora seja alegre, uma alegria mansa:
"Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser pedra. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo. Não quero mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo é uma alegria mansa." Clarice
"Viver melhor as 24h do dia" é algo que exige esforço, claro. A vida nada nos dá de graça. Se eu fosse fazer uma lista de tarefas do dia-a-dia para viver melhor, seria algo mais ou menos assim:
Não deixar que nada interfira no que eu sou de verdade. Não há nada pior do que perceber que não estou sendo verdadeira comigo mesma, com a minha filosofia de vida, com a minha maneira de ver o mundo. É uma agressão, quase física.
Não esperar pela reciprocidade de afeto. Quando se espera o leite ferver ou o telefone tocar, nada acontece.
Perceber que faço parte do meu próprio universo, e que nele nada pode me afetar - pois estou sempre sofrendo desse mal moderno "estresse", que nada mais é do que nossa reação quando nos sentimos ameaçados. O que pode me ameaçar que seja eterno e imutável? Nada.
Aproveitar cada minuto para ser um pouco mais feliz que no minuto anterior. Todos falam em produtividade, em trabalho, em dinheiro: eu falo de uma coisa muito simples, chamada felicidade, que as pessoas complicam tanto.
Perceber que a maioria das coisas com as quais nos preocupamos no dia-a-dia não é digna de tanta atenção: que exagero das nossas necessidades, das nossas raivas e revoltas, dos nossos problemas. Não agüento mais isso.
Eu quero minha alegria mansa.
"É que sinto falta de um silêncio. Eu era silenciosa. E agora me comunico, mesmo sem falar. Mas falta uma coisa. E vou tê-la. É uma espécie de liberdade, sem pedir licença a ninguém." Clarice
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