segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Eu quero a Graça

Várias conversas sobre expectativas. Diálogos mais ou menos parecidos:
- Não sei o que preciso para ser feliz.
- Sei o que preciso para ser feliz, mas não como encontrar.

Encontrar a felicidade realmente não é tarefa fácil. Nem deve ser. Qual a graça que a vida teria se não fossem os caminhos complicados que precisamos seguir até o delicioso Encontro, e qual a graça deste Encontro se não fosse as dificuldades de se chegar até ele.

Será que o País das Maravilhas seria maravilhoso para a Alice sem todas aquelas aventuras?

Com certeza o coração sofreria menos se pudéssemos ter pacotes prontos de felicidade – ou melhor, estes pacotes até existem, e às vezes até tentamos levá-los para o nosso mundo, mas nós não somos moldes prontos que recebem fórmulas prontas de felicidade. Ou de relacionamentos. Não somos todos iguais, logo, não podemos exigir que saibamos todas as respostas.

Há momentos que simplesmente não sabemos o que nos faz felizes. E quem disse que isso é ruim? Eu encaro como um mundo de possibilidades, boas e ruins. Este mundo de possibilidades que nos leva a conhecer quem somos de fato, e montarmos nós mesmos nosso pacote, customizado, não pré-fabricado, longe de expectativas irreais e que só se concretizam em filmes.

Me incomoda os conceitos de mulher. A mulher-casada, a mulher-sexy, a mulher-que-trabalha, a mulher-mãe. E quem me disser que eu não posso escolher ser isso tudo, ou ser nada disso, comprará brigas das feias comigo. Eu não sou do tipo que faz as escolhas óbvias e completas de fábrica. E, exatamente por isso, sou feliz. Me sinto uma ovelha negra por ser feliz – que mundo estranho nós vivemos. Mundo que estranha o incomum. Tanta criatividade e tantas possibilidades jogadas fora. Eu hein.

Me incomoda também os conceitos de relacionamento. O que é perfeito, o que é esperado, o que não pode, o que pode. Ainda mais quando tais enlatados vêem de pessoas que se consideram inteligentes – espere mais um pouco, por favor, que estou procurando essa sua suposta inteligência. Estou cansada de frases prontas, histórias baratas, arrogância burra. E já não tenho mais meus ímpetos revolucionários de querer trazer alguma luz: deixo as pessoas fazerem as escolhas delas, mesmo que eu não concorde. Ainda conquisto a nobreza da tolerância. Ou não.

Antes, eu não tolerava pessoas burras. Hoje, também não tolero as pseudo-inteligentes. Todas elas têm o mesmo discurso anti-sociedade, anti-mediocridade, anti-qualquer-coisa.

Farei um freakshow para tevê. Nele, haverá pessoas dizendo opiniões realmente autênticas e revolucionárias. Isso assustará o mundo, i am sure.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Hoje

Imagem Audrey Kawasaki

Hoje minha vontade é de ser outra pessoa. Estar em outra pele, em outros olhos, em outro rosto e corpo. Hoje eu gostaria de poder me transformar no que eu quisesse, ou no que eu entendesse como o melhor para mim. Hoje eu queria que meu coração tivesse um botão, e então, poderia desligá-lo.

Acordei amassada, desanimada de ter que me ser mais um dia. Hoje, estou cansada de fingir que aceito a minha estranheza e, só por hoje, eu gostaria de ter uma beleza delicada, simples e mesmo óbvia. Para ter um conforto interno de que posso me aceitar e de que há orgulho em me ser.

E sinto como se estivesse guardando um mistério por me sentir assim. É uma angústia tão intensa que sinto que meu coração pode (dis) parar a qualquer momento. E ficaria assim estática por muito tempo.

Hoje minha vontade é me esconder, e não deixar nenhum olho do mundo me ver, porque simplesmente não acredito que eu seja algo bom. Hoje minha vontade é de ser um animal, daqueles bem pequenos e solitários, e passar despercebida pelo chão. Hoje queria não ter memória, para não lembrar do que me desperta a angústia.

Ando tão dolorida. Dia a dia carrego este fardo de não me aceitar nem por um segundo, e em dias como hoje, acordo sem a menor vontade de ter que fazer todo este esforço novamente. Porque gasto uma enorme energia tentando ser quem eu sou.

Engulo o choro mais uma vez. Caminho devagar para mais um dia.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Buddha for Ruby

"This is the night, this is the night
A simple fear to wash you away(this is the night, this is the night)
An open mind can't open today(this is the night, this is the night)
A silent song that's in your words(this is the night, this the night)
A different taste that's in your mind
This is the life on mars (2x)
Mary was a different girl Had a thing for astronauts
Mary was the type of girl She always like to play a lot
Mary was a holy girl Father whet her appetite
Mary was the type of girl She always like to fall apart
Tell me, did you see her face?Tell me, did you smell her taste?Tell me, what's the difference,
Don't they all just look the same inside?B
uddha for Mary,Here it comes
Mary was an acrobat But still she couldn't seem to breathe
Mary was becoming everything she didn't want to be
Mary would hallucinate And see the sky upon the wall
Mary was the type of girl She always liked to fly
Tell me, did you see her face?Tell me, did you smell her taste?Tell me, what's the difference,
Don't they all just look the same inside?
Buddha for Mary,Here it comes
This is the life on mars
He said: "Can you hear me? Are you sleeping?"
She said:"Will you rape me now?"
He said: "Leave the politics to mad men."
She said: "I believe your lies."
He said: "There's a paradox beneath me"
She said:"Am I supposed to bleed?"
He said: "You'd better pray to Jesus"
She said:"I don't believe in God"
Mary was a different girl Had a thing for astronauts
Mary was the type of girl She always liked to play a lot
Mary was a holy girl Father whet her appetite
Mary was the type of girl She always liked to fall ...apart
Buddha for Mary (Here it comes)Buddha for Mary (Here it comes)Buddha for MaryHere it comes(Here it comes)" 30 second to Mars - Buddha for Mary

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Quereres

Sentir, de novo.
Cair, no mesmo lugar, do mesmo jeito.
E o carinho de uma palavra boa?
Ou de uma mensagem positiva.
Um sinal de siga em frente.
Nenhum sinal de pare.
Olhar a paisagem sabendo que ela não sairá dali.
Ter um pensamento bom sabendo que ele não sairá dali.
Ter uma saudade que não dói.
Guardar uma recordação que não fere.
Resgatar uma oração de infância.
Receber um sorriso.
Um presente em forma de elogio sincero.
Uma surpresa.
Sem esta necessidade de justificativa.

Eu tento consertar o erro que sou.
E tento não cair na armadilha das minhas saudades amassadas.

E essa insegurança que poderia morrer em mim?
Em vez de eu morrer dela, como sempre acontece.
O meu estoque de auto-sobrevivência acabando, e já me reconheço como alguém que precisa de ajuda.

Quando parece que estou mesmo sozinha dentro das minhas angústias.
Sozinha e esperando demais do mundo.

domingo, 23 de novembro de 2008

Such a mess.


Ao som de "A wolf at the door" (Radiohead)

Não sou uma pessoa muito resistente a frustrações. Acho que fui criada naturalmente insatisfeita, e acabo não tendo muito tato ao lidar com as coisas que não vão bem.
Ando em um dilema quanto a única parte de mim que me faz satisfeita (!) comigo mesma. Não há nada em mim que eu verdadeiramente goste, ou tenha convicção, exceto me ver como Escritora. Está aí minha única identidade que me faz sorrir e até esboçar uma certa auto-estima.
Mas não sei o que fazer com isso, e eis que me vejo passando pela mesma tortuosa crise artística da minha prezada CL. Não sei o que faço com o meu material: se exponho, onde, como, por qual valor, a quem. Me vejo rodeada por centenas de ? e nem sei qual é a pergunta mais fácil a ser respondida, ou qual delas me proporcionaria a menor dose de angústia. Não sei onde foi parar meu ímpeto de começar uma "carreira" como escritora, e nem mesmo sei se isso pode realmente acontecer, pois hoje, nesse momento, it's so dark right here.
Não quero me tornar uma escritora famosa. Faz, inclusive, sentido não ser, pois minha escrita não é fácil - eu não sou fácil. Sendo assim, sei que não ficarei rica a partir disso, e mesmo nem quero que as minhas obras me tragam esse tipo de conforto. Mas, espero das minhas obras uma dose cavalar de conforto artístico, para alimentar uma alma sempre tão auto-destrutiva. Um pouco de reconhecimento seria como um carinho, ou mesmo como um encorajamento por continuar sendo quem sou - coisa que nunca tive muito.
Só vejo obstáculos, no entanto. Talvez faça parte do processo, talvez. E há uma voz de auto-ajuda me dizendo quão pequena serei se não enfrentar esse desafio. E de onde posso tirar esta injeção de convicção, de ânimo, de grandiosidade, se em mim não há nada disso? Alguém pode me dizer, porque eu não.
Penso, às vezes, que nada disso faz diferença. Eu, como escritora ou não, não faço diferença. E essa minha enorme crise-sem-fim de que sou nada, me dói tanto. Tem sido uma fase complicada, eu e essa iminência de que descobrirão de que sou nada - porque, por fim, parece que todos esperam demais de mim e acabam me abandonando ao perceberem que exigem demais para uma pessoa tão assustada com o mundo quanto eu.
Está aí: o mundo nunca me pareceu um lugar bom, e, quando tenho um pequeno estímulo interno de voar, me dou conta da minha própria insignificância. De que serei soterrada por pessoas melhores, anyway.
Meu destino é mesmo ser uma pessoa solitária. Como se eu não soubesse de antemão o fim das minhas próprias histórias.
Desiludida que estou comigo e com o mundo. Nem exigirei de mim que este texto seja bom.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Dois.

- Ela é tão livre que um dia será presa.
- Presa por quê?
- Por excesso de liberdade.
- Mas essa liberdade é inocente?
- É. Até mesmo ingênua.
- Então por que a prisão?
- Porque a liberdade ofende.
(Clarice Lispector)
***

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Um brinde!

Um brinde ao esquecimento dos pesares.
Um brinde ao esquecimento das frustrações.

Para, quem sabe, acreditar que a vida pode sim me trazer desejos.
E, ainda melhor, acreditar que tais desejos possam acontecer.
Para encontrar a energia de conseguir ir além da realidade. Porque não gosto dela.

Proponho um brinde ao fim do mundo. Onde seria abertamente aceito que se dançasse e se fosse quem gostaria de ser, e talvez eu descubra que já sou assim e apenas não exerço.

Um brinde ao esquecimento completo das minhas rejeições.
E também de todas as possibilidades que nunca foram e nem serão.

Quando não consigo comemorar nada, meu conforto está em ser assumidamente angustiada. É uma escolha, afinal de contas.
E me acredite quando digo que, dentro das escolhas possíveis, é a única que consigo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Stand Inside Your Love

"You and me meant to be immutable, impossibleIt's destiny, pure lunacy, incalculable, insufferable (Inseparable) But for the last timeYou're everything that i want and asked forYou're all that i dreamWho wouldn't be the one you loveWho wouldn't stand inside Your love? Protected and the lover ofA pure soul and beautiful, YouDon't understand, don't fear (feel) me nowI will breathe for the both of usTravel the world, traverse the skiesYour home is here within my heartAnd for the first timeI feel as though i am reborn in my mindRecast as child and mystic sageWho wouldn't be the one you love?Who wouldn't stand inside our love?And for the first timeI'm telling you how much i need and bleed forYour every move and waking sound in my timeI'll wrap my wire around your heartand your mindYou're mine forever nowWho wouldn't be the one you love and live for?Who wouldn't stand inside your love and die for?Who wouldn't be the one you love?" Pumpkins

Coração cheio.
Incrível essa sensação de ter uma vida toda nas mãos.
De ter toda a possibilidade de felicidade nas mãos.
Aproveito este meu coração cheio: ele que costuma sempre ter muitos vãos.
Está aí algo que não estou acostumada, plena quase nunca sou. Mas, agora, vai.
Vou e não retorno mais para onde estava, pelo menos não tão cedo.

Brilhante decisão esta, de pensar em mim, e replanejar meu destino. Agora só preciso me destravar por dentro: faz tempo que não me escrevo, faz tempo que não me penso, e fazia tempo que não me reencontrava.
Acostumada que estou a ser perdida, já não me importo mais – mas deveria. Ler sinais de que estou no caminho errado, ou, pelo menos, não sofrer de estar nele. Escolhas complicadas, mas, feitas, enfim.

Aos poucos. Para curtir esse alívio de sair do caos. Essa purificação.
Para curtir essa unidade.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Uma experiência lisérgica, por favor

“Soma is what they would take
when hard times opened their eyes.”

Provoca-se uma dor e abre-se um vazio.
Parti do princípio que virá algo melhor para preencher o que se foi.

... e?

Não tenho resistência à angústia do vazio. Logo se transforma em tédio, e logo, também, perco os ânimos. E o vazio também me leva ao que sou de fato: perdida.
Está aí uma realidade que cansei de enfrentar, uma dor por demais recorrente. Sempre me vejo às voltas dessa mesma questão, e nada consigo resolver.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Insight express

A indiferença é o que me provoca as feridas.
Ao longo de toda a minha vida.

"You don't, you don't, you don't see me at all..." A Perfect Circle

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Until the end of everything at all

“When i'm at the pearly gates This'll be on my videotape My videotapeWhen mephistopholis is just beneath And he's reaching up to grab meThis is one for the good days And i have it all here In red blue green In red blue greenYou are my centre when i spin away Out of control on videotape On videotape On videotape On videotapeThis is my way of saying goodbye Because i can't do it face to face I'm talking to you After it's too lateFrom my videotapeNo matter what happens now I shouldn`t afraidBecause i know today has been The most perfect day i've ever seen.” Videotape - Radiohead

Acho um pouco estranho lidar com situações fadadas ao fim.
Mesmo sabendo que nós mesmos estamos sempre fadados ao fim.

Houve a demora em perceber que haveria mesmo um inevitável ponto final. Doeu essa percepção, tão fundo e tão agudo. Mas me nascem vários calos no coração diariamente, e este será só mais um, sobreviverei a ele como sobreviverei aos muitos que ainda virão. Esses calos são o meu mistério.
Difícil sair de um mundo de fantasia e cair (literalmente) na realidade. Quanto maior o vôo, maior a queda, e hoje reconheço que andei mesmo voadora demais.
Mas é que era tão doce.

Depois de castrar minhas próprias asas, havia duas decisões a serem feitas: abandonar antes do fim ou aproveitar antes do fim. Claro que decidi por aproveitar tudo: esta sou eu.
Hoje, vem essa estranha vontade de chorar, não de tristeza, mas de uma melancolia estranha: devoro e não esqueço nem por um segundo que aquilo tudo não será meu, e deverei renunciar, a despeito do quanto sou feliz naquilo. É nesse momento que vem um choro engasgado subindo pela garganta – preciso esconder.
Você não imagina como sou feliz naquele momento. E viva. E totalmente desconhecida a mim. Gosto desse eu dali, e gosto muito mais do que eu deveria.
Mas é que é tão doce.

Assumi para mim mesma. Há verdades complicadíssimas de serem percebidas, e são sempre aquelas impossíveis de serem escondidas.
Em breve assumirei ainda mais. Assim, sem nenhum propósito (aparente).
Porque eu não sei me colocar razão, mesmo quando sei que tenho tudo a perder e nada a ganhar. Nem isso me faz desistir.
Direi: Mas é que foi tão doce.

E terá valido cada segundo.

sábado, 30 de agosto de 2008

(+1) Instante de Lucidez Perigosa

(Muito o que pensar, muito o que sentir e, o que fazer?)

"Controlling my feelings for too long. Controlling my feelings for too long. Controlling my feelings for too long. Controlling my feelings for too long.
And forcing our darkest souls to unfold. And forcing our darkest souls to unfold.
And pushing us into self destruction. And pushing us into self destruction.
They make me, make me dream your dreams.They make me, make me scream your screams.
Trying to please you for too long. Trying to please you for too long.
Visions of greed you wallow. Rhythms of greed you wallow. Visions of greed you wallow. Rhythms of greed you wallow.
They make me, make me dream your dreams. They make me, make me scream your screams." Muse

Parte 1
Me pego passando pelo conflito clássico do ser humano: escolher. E eu, sempre tão decidida do que quero, estou dividida em vários quereres. Meu desejo é tê-los todos - estudo formas para que isso seja possível.
Mas, claro, me deparo com as consequências. Todas elas implicam em uma renúncia. Perceba: se eu quisesse exercer esta opção, já a tera elegido; o que me aflige é exatamente este desejo incontrolável e que me parece impossível de ser renunciado.
Do que posso ter, do que quero ter e do que preciso ter. Está tudo aqui, mas não tenho idéia de qual combinação me fará eu e me fará viva. Talvez acabe por me afogar para que alguém escolha por mim: não, isso é covarde.
Acredito que, cedo ou tarde, terei que ser hercúlea. Terei que guardar meu desejo é segredo, com o sofrimento inevitável. Claramente sei que isto será inevitável. E fica a questão: aproveito enquanto posso ou reprimo enquanto posso?

Parte 2
Uma ausência pode ser preenchida? E, se for, deixará de ser uma ausência? Uma vez abandonada, se vierem me resgatar, não deixarei de ser uma sobrevivente do abandono: há esta marca irreparável.
Podemos construir um novo futuro, mas te digo que não podemos me dar uma nova condição. Existe, aqui, uma estrutura sobre uma total falta dela, e nisto fui feita.
Esta sou eu. Respeite meu mistério e minha defesa.

Parte 3
Não quero que desistas de mim.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Sobre o Encontro

Pós-filme: Into the Wild
Trilha sonora deste post: Radiohead.

E essa crueldade do contato com o que me dói.

Faz tempo que tenho essa vontade de fugir. Trata-se de uma vontade sem forma: não existem destinos nesta minha vontade, não existem objetivos nela, e nem sei realmente qual é minha intenção – mas as vontades são assim mesmo em mim.

E desde este “faz tempo” me proponho a responder algumas perguntas. Na verdade, acho que sou naturalmente mais predisposta a perguntar do que me preocupar com as respostas.
Do quê eu fujo. Pergunta clássica. Comigo, não é assim que funciona. Eu fujo para o quê. Tem alguma coisa dentro de mim que eu não consigo alcançar, é este meu desejo inalcançável, e acho mesmo que eu o desejo pelo não-alcance. Eu vivo pela busca, não pelo encontro.

Por que eu tenho medo de encontrar. Porque existe um discreto medo em encontrar. E, se houver encontro, o que sobra de mim? A necessidade de começar uma nova busca, pois é disso que sou preenchida. Vês algo na minha vida que não tenha fugido de mim quando eu mais precisei?

Por que eu escolho não encontrar. Sim, eu escolho isso. Quando me vejo perto de algo que eu desejo – lembrando sempre que o desejar vai muito além do querer, como, para minha sorte, Lacan percebeu – eu choro. Impensadamente. Porque me dói de um jeito tão apertado dentro de mim: sei que vou perder aquilo.
Eu e este sentimento de perda. Inclusive eu a espero, acredito que ela está sempre prestes a acontecer. E me vem este medo sempre que encontro algo / alguém que faz diferença na minha angústia – eu sei que há algo acontecendo dentro de mim quando minha angústia ou 1) desaparece como se eu não fosse quem sou ou 2) aparece para me lembrar de quem sou.

Perceba meu dilema. Se há algo logo ali, extremamente valioso a mim e preenchedor desse meu vazio, eu desejo mesmo me entregar. I just close my eyes. Porque, humana que sou (demasiadamente), sempre tenho a esperança maior da não-angústia. Mas, assustada, o que quero é me afastar, e jamais consigo. Este paradoxo ainda me enlouquece.

Desejo dizer tanto. Desejo abraçar tanto. Desejo ser eu mesma tanto. “Hapiness is just real when is shared.” – sempre lembrarei desta cena do filme. Penso como é preciso a renúncia para perceber a escolha.

Creio que sou um pecado. Um mistério – adoro a concepção da Clarice de que a palavra “mistério”, é, na verdade, um grande palavrão. As pessoas têm dificuldade de exercer o encontro delas em mim: eu sou mesmo assim difícil de se chegar.

Mas se chega, fique por aqui. Fique um pouco mais.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Oh, me

Eu.

Está aí um personagem que não ando procurando muito.
Tem vivido tantas coisas, este eu, e mal tem dado tempo de organizar as informações.
Nada ainda foi elaborado. Sinto esta bagunça aqui dentro, se empoeirando.
Este eu, não tem absorvido conselhos. Nem recados. Menos ainda mensagens subliminares.

Repare que ando perdida em mim mesma. Este sempre foi o problema de eu ser quem sou: há tanto aqui dentro de mim, e este tanto é sempre tão intenso, que transbordo por todos os lados. Tudo assim, sem direção.
Fica impossível encontrar o meu equilíbrio. Mesmo eu sabendo que não sou pessoa de ter eixos, mas ser assim, tão viva, também me traz dificuldades. Quero chorar, de tão viva que estou, e nada posso fazer.

Não tem sido uma época simples. Não digo que esteja sendo ruim; também não posso dizer que esteja sendo bom. Estranha essa sensação de coisa-amorfa, coisa-sem-sentido, mesmo que eu já esteja acostumada à minha total falta de sentido. Mas, também tenho um coração, e ele às vezes se decide em ser extremamente sensível, e vulnerável. Não há nada pior para a minha angústia do que esta suscetibilidade que me aparece.

Tenho sentidos demais. Eles dóem dentro de mim. Meu desejo me dói.
Fica a pergunta: por que escolho desejar algo que dói?

Também não posso dizer que não sei o que fazer para o meu coração descomprimir: eu sei.
Não consigo. Simplesmente não consigo. Estou totalmente sem controle de mim mesma.
Um sinal disso é este choro fácil, e surpreendentemente doce.

E esta esperança, mediocremente humana, que não me deixa desistir.
Pareço um cão, rodeando o próprio rabo.

Ser eu me prega cada peça. Vou te contar.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A Epifania e a Desgraça (sic)

Eu, conversando com uma das pessoas mais importantes da minha vida sobre o Desamparo.
Assunto que eu, me recordando de que sou psicóloga, adoro. Está na monografia, documentado.

Nossa condição primária é ser desamparado. Todo ser humano é desprotegido em sua estrutura: não há como vivermos sós, como nos sustentarmos sós, como não nos comunicarmos. Uma vida de solidão completa é como uma morte na solidão completa: o ser humano é, a partir do momento que existe o Outro. (Sis, olha só, Freud e Lacan na mesma sentença!)

Não há como ignorarmos nosso desamparo existencial. Ele aparece, em forma de angústia, medo, paixão, amizade, auto-estima: há as maneiras boas dele surgir, assim como as ruins. Eu, como pessimista que sou diante da condição humana, gosto de pensar nas negativas. As positivas, como luxuriosa pela vida que também sei ser, não gosto de pensar, mas de viver.

Por que estaria eu ali, protegendo aquela pessoa tão querida de uma crítica?
Por que estaria eu aqui, querendo comunicar as minhas filosofias?
Porque a sensação de desamparo pode ser avassaladora: ela nos coloca diante da nossa pequeneza como ser humano. E não há angústia maior que este descontrole por nós mesmos.

O que diferencia cada um é a maneira de lidar com esta condição, pois a condição é a mesma para todos nós.

Eu, angustiada que sou (por natureza, por condição, por experiência, por charme), ando com esta condição sob o meu nariz todo o tempo. Já houve minha fase de auto-destruição, em que a minha maneira de lidar com ela era não lidar. Depois, tive a experiência maior de Solidão – e a partir dela precisei superar a condição através da própria Solidão. Ela era meu único instrumento, fosse para a vida ou para a morte.

Não sem desespero, usei-a para a Vida. Não a largo mais. Está tatuado, veja.
Foi um processo árduo este de saber viver, mesmo sob minha condição de ser-humana.
Só eu sei. Só nós mesmos sabemos de nossas dores.

Hoje, sei que resolvo minha condição com o seu extremo oposto: vivendo.
Apesar de, como diz minha querida Clarice, em uma sabedoria simples: APESAR DE.
Isto é o que me torna digna.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Fase de Testes - Teste de Hoje: Desistência

Trilha sonora deste post: "Alone in Kioto" - Air

Não sou de desistir fácil do que eu desejo. Posso, até, apertar um botão de “pausa” dentro de mim, mas não jogo fora sentimentos densos que construo. Mesmo quando não me trazem os benefícios que eu gostaria, sempre acredito, no fundo, que pode dar certo, não importa quanto eu tenha que esperar. O que pode acontecer é eu mudar o meu desejo, mas não desistir dele.

Mudar de desejo, tenho histórico. Desistir do que desejo, não. Até agora.

Incrível como dói.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

.

Eu que gosto de palavras, estou muda.
Incrível como palavras podem ser inúteis quando se trata de sentimento.
Hoje escrevo a não-palavra: deixo aqui um silêncio que sabe falar mais.

domingo, 6 de julho de 2008

(Suspiros)

Eu, ainda recolhendo alguns pedaços.
Tudo em mim um pouco fora do lugar.
Consigo ouvir as pecinhas soltas aqui dentro.
Vê meus pensamentos confusos? Eu, sim.

O que posso é esperar pelos dias.
Embora uma ordenação, neste momento, pareça improvável.

Torce por mim, pelo menos um instante?
Juro que estou precisando.

domingo, 29 de junho de 2008

Dor de Estômago


Coisas que eu não posso viver sem:
1) Pequenos (ou não) atos que manifestem minha verdadeira essência. Desde um comentário impróprio até minhas repentinas rupturas. Sou pessoa de extremos: não sou do tipo que possui sentimentos mornos. “Decifra-me ou te devoro”.
2) Inquietação. Absurda e presente de uma maneira irreversível. O que me garante que continuo buscando, perguntando, descobrindo. Remexendo na ordem do mundo.
3) Surpresas. Quando eu não mais surpreender alguém (o que às vezes se tranforma em assustar), ou quando ninguém mais conseguir me surpreender, estarei morta por dentro.
4) Música. Algumas tocam exatamente o que eu tenho a sentir.
5) Liberdade. Mesmo não sendo ainda do tamanho do meu desejo.
6) Desejo. Se eu não mais desejar além do que eu tenho, alguém deverá me ajudar: pois será um sinal de que me tornei uma pessoa comum, uma pessoa normal. Ordinária. Eu preciso dessa minha insatisfação inacabável.
7) Pessoas. Do meu mundo, ou do mundo mais próximo possível.
8) Atenção. Pois meus instinto me faz ser carente.
9) Lust. A vida calma jamais foi inventada pensando em mim. Eu gosto de absurdos. De contravenções. De anormalidades.
10) Coragem. Ser como eu sempre me deu medo.


Alguns insights recentes:
A) Meu desejo é sempre meu medo.
B) Meu desejo também sempre é meu dono. Não sei dizer não ao meu desejo. E mesmo que dizer sim a ele me faça sofrer, dizer não é de um sofrimento pior. Causa danos irreparáveis em mim.
C) Não sou mulher simples. Há quem diga que nenhuma mulher é (o que eu concordo), mas eu nasci com o destino de ser complexa. Certas fórmulas comigo não funcionam – mas há esse viver-comigo que eu quero que seja aproveitado, pois eu me divirto muito sendo mulher-do-meu-jeito.
D) Repito alguns padrões de comportamento. E existe esse botão de alerta que me sinaliza quando posso ficar carente – e existe este meu alarme de sobrevivência, pois é impossível não lembrar os abandonos. Eu tenho medo, after all.
E) A vida está sempre ao meu lado. É porque sei o que quero.
F) Minha beleza não é óbvia. Em todos os sentidos. Eu não sou óbvia.
G) Preciso de espaço para me exercer. Me ser requer uma imensidão de mundo.
H) Posso ser tolerante. E posso, também, não querer ser.
I) Me falam sempre sobre oferecer (ou não) garantias. Agora quem não as oferece sou eu.
J) Tenho o direito à minha própria defesa. Mas, às vezes, opto por me expôr até o osso.
K) Estou me ampliando ainda mais, sem limite e sem controle.

"Blue, songs are like tatoos You know I've been to see before Crown and anchor me, Or let me sail away Blue, there is a song for you Ink on a pin, Underneath the skin, An empty space to fill in Well, there's so many sinking Now you gotta keep thinking You can make it through these waves Acid, booze, and ass Needles, guns, and grass Lots of laughs, lots of laughs Everybody's saying that Hell's the hippest way to go Well, I don't think so, but I'll take a look around it, though Blue, I love you. Blue, here is a shell for you Inside you'll hear a sigh A foggy lullaby There is your from me." Cat Power

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Instantes-já

Escuto muito as pessoas falando sobre planos. Reclamando que o tempo passa cada vez mais rápido. Que o mês x está chegando. Que a idade está chegando. Com aquele tom de urgência de quem está frustrado, e acha que não há mais tempo de recuperar o que se foi. Ou com aquele tom de quem não tem nada, no presente, com o que se entreter, e toda a vida não passa de alegrias projetadas para o futuro.

Como podemos contar com algo que não existe, isto é o que me pergunto. O futuro não existe: podemos prever algumas consequências, poucas necessidades, vários desejos, mas nada disso existe de fato. O futuro não passa de um produto do pensamento.

Eu penso em sentimentos: estes não sabem nada a respeito de futuro. Por isso os adoro – eles sabem exatamente como devemos nos comportar neste instante-já. Eles sempre sabem o que eu devo fazer e, melhor, o que eu realmente desejo fazer. Desta forma, percebo como quero viver a minha história: não dependente de algo que não existe, como o futuro, ou o tempo.

O tempo não existe, ele é, e é independente se dele vamos nos aproveitar ou não, se iremos desperdiçá-lo ou não. O tempo não se importa nem um pouco conosco, e nós, sempre tão pequenos diante da imensidão do mundo, não somos capazes de também não nos preocuparmos com ele.

O tempo, em si, não é rápido ou devagar. Nossa impressão dele é tão somente a nossa percepção de nossa própria vida.

Eu gosto de poder viver o que eu tenho hoje. Amanhã não faço a menor idéia de mim – alguém faz? E, se no futuro tudo o que eu tenho hoje não fizer mais parte do meu presente, farei questão de aproveitar tudo das novas histórias de mim mesma que eu poderei escrever. Não sou pessoa de ter uma história obviamente determinada, com começo, meio e fim: sou pessoa de inventar verdades minhas, como bem me convém, e sem a menor possibilidade de que eu ofereça a alguém garantias do que eu sou de fato.

O que eu sou eu mudo de acordo com a música que toca. Um grande e delicioso mistério dentro de mim. E assim estou sempre cheia por dentro.

Dia desses, terminei meu quarto livro. Muito árduo, e por isso mesmo, muito criativo. Orgulho. Quero o mesmo final a mim: quero conquistar um final solene, solenidade de música, e, de preferência, surrealmente lindo. Com pequenas explosões. Me realizei um pouco naquele fim.

Mas, como posso ter fim se nem começo tenho?
Não gosto de lógica.

“Se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é o bastante para a vida toda.” CL

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Silêncio-falador

Quando não posso dizer o que me é valioso, sempre existe a possibilidade do papel: assim faço chamados silenciosos, e ninguém precisa descobrir meus mistérios. Sou alguém de mistérios, e o meu maior mistério é agir com espontaneidade equivocada.
Minha espontaneidade me deixa certos destroços. Eu e essa mania de ser extremamente verdadeira, e sempre com quem mais se assusta. Eu atraio, juro. Não sei se é um teste, e, se for, azar – demorei muito tempo para me definir de uma maneira que eu gostasse, e hoje me aceito plenamente, a ponto de também poder rejeitar.
Houve um tempo – muito longo – que eu sempre estava na mesma posição diante do outro: como uma pessoa auto-piedosa demais, e esse sadismo de encontrar mil defeitos em um milímetro. Como a minha cabeça não se acalma, muito percorri dentro de mim até perceber que eu tenho controle sobre o que me atinge.
Mas continuo não tendo controle sobre o que eu sinto, e é então que preciso deste meu silêncio-falador. Como dizer não quando todo o resto até treme? Este sono cansado, este dia arrastado, tantos sinais de um desejo grande demais para ser sufocado: não é um desejo de ti, é um desejo maior, quase universal, atemporal. Não consigo, simplesmente assim. Quero sentir que estou vivendo o máximo que é possível – nem falo no máximo que eu consigo, porque eu ainda consigo muito mais que isso. Essa ânsia de viver e de ter uma felicidade que transborde bêbada. Ao natural.
E isso de não se preocupar com. Ótimo. E pensar que eu sempre fui assim, muito pensante, muito atrás de respostas – eu nem sequer sei fazer as perguntas certas, muita pretensão a minha de procurar tanto pelo que ninguém mais encontrou. Ou não?
O que não gosto (e por isso estou aqui) é quando me vejo impedida de expandir o tanto que meu coração quer. Tenho um coração grande, morno, e livre. Muito livre. Como se eu sempre pudesse oferecer o que a pessoa quer: não percebes? Basta se entregar – eu me entrego, e pronto! está feito. Pior é quando quero resistir: me torno apática, cansada, pensante outra vez. Isso não é o melhor de mim, mas como dizer a quem resiste que o meu melhor é não resistir, me diga.
Escolho, no final, este meu silêncio de quem se ausenta. Afinal, ser humano que sou, me devo o direito de negar, fugir, idealizar, racionalizar – mas, me enganar, isso jamais seria possível. Sou do tipo que possui uma alucinógena lucidez perigosa e quase mortal. Sei onde me dói. Sei onde desejo. Sei onde te desejo. Muito. E por isso finjo que não, embora esta minha espontaneidade equivocada ainda vá me fazer te confessar segredos inconfessáveis.
Confessa para mim também. Fala perto do ouvido que não digo nada a ninguém (nem mesmo você vai perceber o que me confidenciou). Bebamos, à vida! Porque a morte é certa. Eu não sou, e o charme de tudo é que ninguém é: obviedade não me é afrodisíaco. E, de tudo que meu coração sente – e minha cabeça atormentante pensa – o que tiro como lição é: nada. Nada! Continuo sentindo dores de dentro que só eu sei o que significam, e continuo percebendo que não quero resistir / não quero me entregar. Contraditória como sempre.
(O pior / melhor de tudo é o desejo. Maior que eu. Estes são os bons, e que me fazem relembrar de certas coragens imprudentes. That’s me babe. Enjoy what I have to give to you. Let’s spend the night together again.) A noite é sempre a melhor parte.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Dilema do Dia

Perceba meu dilema:

Quero conversar sobre minhas reflexões, mas quem me entende falar delas, não pode.
Quem pode conversar, quer assuntos banais, que não me dizem absolutamente nada.
Logo, me vejo aqui, em um silêncio meditativo. E inquieta por tanto o que expôr.

Incrível esta necessidade do ser humano de se comunicar.
E meu conflito é sempre ter esta necessidade um pouco diferente dos demais.

Vou para o meu livro. Difícil que está de terminá-lo.

domingo, 15 de junho de 2008

We are stars... we are...

"On another day c'mon c'mon With these ropes I tied can we do no wrong Now we grieve cause now is gone Things were good when we were young With my teeth locked down I can see the blood Of a thousand men who have come and gone Now we grieve cause now is gone Things were good when we were young Is it safe to say? (c'mon c'mon) Was it right to leave? (c'mon c'mon) Will I ever learn? (c'mon c'mon) (c'mon c'mon c'mon c'mon) As I make my way c'mon c'mon These better nights that seem too long Now we grieve cause now is gone Things were good when we were young With my teeth locked down I can see the blood Of a thousand men who have come and gone Now we grieve cause now is gone Things were good when we were youngIs it safe to say? (c'mon c'mon) Was it right to leave? (c'mon c'mon) Will I never learn? (c'mon c'mon) (c'mon c'mon c'mon c'mon)I s it safe to say? (c'mon c'mon) Was it right to leave? (c'mon c'mon) Will I never learn? (c'mon c'mon) (c'mon c'mon c'mon c'mon) And no this day these deepened wounds don't heal so fast Can't hear me croon of a million lies that speak no truth Of a time gone by that now is through." The Von Bondies

There's so much youth here.
What can i do?
I won't runaway, I will be me once more.
I'll die, by the way.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Space Dementia

Ando obcecada por esta música.

"Mmmmm H-eight ... is the one for meIt gives me all i need And helps me co-exist With the chill You make me sick Because i adore you soI love all the dirty tricks And twisted games you play On me Space dementia in your eyes and Peace will arise And tear us apart And make us meaningless again Mmmm, yeah You'll make us wanna dieI'd cut your name in my heart We'll destroy this world for youI know you want me to Feel your pain Space dementia in your eyes and Peace will arise And tear us apart And make us meaningless again Ooooh..." Muse

E é impossível não me ver naquela propaganda do Dior, Midnight Poison. :)
Hoje me dei o direito de não escrever algo existencial.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Karen Koltrane

"Karen's moving out Out into the sky Karen trips on a cloud Sets down with stars in her eyes She's alone in a room She's deep inside of her mind Karen's leaving for the snow Somewhere to somewhere... blind Cuts at the lining of my soul I was tethered to her for a time Will she stay forever? Are we still together?(will she stay?) Will she stay forever? Are we still together?(bedside.. flashlight.. bedside.. Karen stay) Will she stay forever? Are we still together?(bedside.. flashlight.. bedside.. will she stay?) Will she stay forever? Are we still together?(bedside.. flashlight.. bedside.. Karen stay..) (bedside..)Karen, you're hanging on the line Wrap your coat tight around Karen, your eyes are on the prize I'll catch you on the way down. " Sonic Youth

Quando eu fico muito bem, logo quero sair daqui. Não é por mal, nem por ingratidão. É pelo tédio.
O que me move é esta sensação implacável de tédio. Se não fosse por ele, como eu saberia onde não é o meu lugar? Jamais seria capaz de identificar o quão maior que tudo isso posso ser, e acabaria por me contentar com uma existência mais medíocre.
Mas não. Quero sempre uma vida menos ordinária.
Sabes que hoje nem estou com grande vontade de escrever? Isso me acontece quando estou neste ponto que é o meio do caminho: sei de onde estou vindo, mas não sei ainda para onde ir. Acho que será sempre assim comigo. Fico esperando que a própria vida desperte mim a minha já conhecida angústia de recomeços e re-destruições.
Tudo adormecido por aqui, assim um pouco mole, em câmera lenta, morno. Esperando as solenidades.
Hoje me saiu um pouco deste lust de estar viva. Gostaria de ter mais espaço para ele, mas hoje isso não vai me incomodar como de costume: é tudo uma questão das minhas escolhas, e como me escolhi ser assim, sempre fará parte me considerar um pouco fora de época, um pouco exagerada e espontânea demais, um pouco bêbada de menos.
Preciso exercer mais meu lust.
Topas?

Topas?

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Se Alguém Pisa no meu Pé

Penso, logo existo é uma afirmação de um intelectual que subestima as dores de dente. Sinto, logo existo é uma verdade de alcance muito mais amplo e que concerne a todo ser vivo. Meu eu não se distingue essencialmente do seu eu pelo pensamento. Muitas pessoas, poucas idéias: pensamos todos mais ou menos a mesma coisa, transmitindo, pedindo emprestado, roubando nossas idéias um do outro. Mas se alguém pisa no meu pé, só eu sinto a dor. O fundamento do eu não é o pensamento, mas o sofrimento, sentimento mais elementar de todos. No sofrimento, nem um gato pode duvidar de seu eu único e intercambiável. Quando o sofrimento é muito agudo, o mundo desaparece e cada um de nós fica só consigo mesmo.” Kundera

Existem coisas que são insuportáveis. Consigo resistir por algumas horas, mas logo percebo que se estabelece um conflito grande demais para ser ignorado. A grande inteligência é perceber por onde fugir, ou como, ou com quem – ou será do quê / de quem?


Construo a minha vida em blocos: estive no término de um destes blocos, e percebi isto hoje, quando meu gás diminuiu abruptamente. Há quem me diga que eu não deveria pensar tanto nos por quês – impossível ser eu mesma sem perguntar. Passei o dia, calada como sou, nascida do silêncio, e fiquei dentro de mim mesma até chegar onde deveria.
Pelo menos até onde sou capaz momentaneamente de ir.

Impressionante como às vezes eu me levo para situações de repetição, e o mais impressionante é que nem percebo tal movimento: precisei que alguém me dissesse isso, e me fizesse desmoronar como se eu tivesse descoberto uma verdade muito escondida e cruel. E eu já não sabia disso? Estava, apenas, perdido nesta bagunça que às vezes sou.
E vem sempre aquele estalo que me diz: você não está onde deveria. Esta angústia já me é familiar, o que acontece é que não descubro, nunca, onde o onde está.

Onde deveria depositar o que sou?
Deve haver algum objetivo ou não?
Quem vem comigo ou se vem alguém comigo?

Ainda não sou capaz de responder. Sou muito melhor em desconstruir com perguntas do que construir com respostas. Grande pecado, esse.

É sempre assim: quando uma nova fase começa (fase de dentro, ninguém percebe), fico assim meio sem saber o que fazer. É quando mais sou inconstante: não confie no que eu te falo, no que eu te faço, no que eu me ausento ou me apresento.
Isto costuma passar e me desdobro em decisões corajosas. Daquelas que ninguém entende muito bem. Vem aquele ápice, e é desta parte que eu gosto.

Esta clareza de ter o tempo nas mãos, e saber o melhor uso que é possível dele.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Reckoner

Trilha sonora da minha vida:
(Óbvio que seria Radiohead)

"Reckoner You can't take it with you Dancing for your pleasure You are not to blame for Bittersweet distractor Dare not speak it's name Dedicated to all you All human beings Because we separate like Ripples on a blank shore (in rainbows) Because we separate like Ripples on a blank shore (in rainbows) Reckoner Take me with you Dedicated to all you all human beings."

Hoje é sobre quando existem viveres maiores que as palavras.
Atrás de todas as palavras.
Alcança lá dentro: quase nada chega lá.
Para poucos, ou nenhuns.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Les joies, les peines de l'existence

Momento de solidão.
Um presente incrível no meio de um dia cansativo e entediante.
Uma pérola no meio desta fumaça.
Purificação da minha essência, como se, na solidão, eu filtrasse o pouco de outros que existe em mim. São tantas interferências e interrupções ao longo do dia que, às vezes, temo me perder.
Imagine a dor de nunca mais se achar outra vez. Dói quando preciso me encontrar, mas dor maior como a de se ter e se largar pelo caminho, isso não se compara.
Reencontro sempre digno este que tenho comigo.

O que eu mais gosto da solidão é o silêncio que a acompanha: eu nasci para o silêncio. Ou será que nasci do silêncio?
Se há algo que eu gostaria de mudar – e há tanto! – é poder ter mais silêncio. Este tipo de artigo realmente importante para a minha vida, eu não posso comprar se me der vontade: só me resta aguardar.
Pensar que já tive tanto disso, e era tão bom. Foi quando, realmente, pude me tocar mais de perto. Angústia tamanha. Uma bênção.

Não posso, jamais, deixar de me angustiar: primeiro, que não serei eu inteira; segundo, que minhas criações de vida e de palavra vêm daí. Este meu medo de ser um poço sem utilidade.
E então, me pergunto: como se fosse possível não angustiar com tudo o que desejo. Por mais que eu concretize diversas coragens, ainda me falta o ato de liberdade por excelência – e não existe sequer pistas de onde ele possa estar.

Eu e esta vida de busca.
Amo mais a busca do que o encontro em si.

LES JOIES, LES PEINES DE L’EXISTENCE. Não sou deste tipo de pessoa que se surpreende com a angústia: não há inteligência, nem loucura mansa, sem ela. Não há sensibilidade, nem desejo, sem ela. O que pode haver, então, sem ela?
Também não sou do tipo que se acostuma com as alegrias. Elas são passageiras, e quem não é? E mesmo que durem cinco segundos – ou este meu precioso tempo de solidão – valem como se eternas fossem: mas não são.
Já registrei em mim como vejo a Vida.
Agora registro como me posiciono diante dela.

Houve quem me dissesse que sou pessimista.
Eu te digo: otimistas são ingênuos. E superficiais.
Quem pode não ser pessimista quando o ser humano tem a capacidade de ser tão otimistamente raso?
Ontem, no almoço, alguém se chocou com o comentário “beyond society” de outra pessoa. Aquilo me enfureceu: nem minhas opiniões expresso mais, me poupando da expressão de espanto medíocre.

"A palavra Deus é para mim nada mais do que expressão e produto da fraqueza humana" (Einstein)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Sobre a vida e o rock'n'roll

“De repente, assustada com esse ódio, pensou: o mundo atingiu uma fronteira, quando ele a ultrapassar, tudo pode virar loucura: as pessoas andarão pelas ruas segurando um miosótis, ou então atirarão uns nos outros na frente de todos. E bastará muito pouca coisa, uma gota d’água fará o copo transbordar: por exemplo, um carro, um homem, ou um decibel a mais na rua. Existe uma fronteira quantitativa a não ser ultrapassada; mas essa fronteira não é vigiada por ninguém, e talvez até mesmo ninguém saiba de sua existência.” (Kundera)

Gosto desta parte que o mundo atingiu uma fronteira: só discordo que ele a tenha atingido, na verdade, esta fronteira sempre esteve por perto, mas não é fácil para as pessoas comuns perceberem o limite tênue que existe entre a sanidade e a loucura. Curiosa esta mania de pôr ordem em um caos que é inerente à existência. Nem consigo imaginar uma vida sem um pouco de caos, mas vai ver que isto não pode ser suportado por qualquer pessoa. Desordens não são nunca fáceis de serem suportadas, e pensar que delas saem tanto!

Mesmo ser são demais nos torna cada vez mais próximos da loucura – é impossível viver neste mundo, com estas pessoas, sem precisarmos ser um pouco não-sãos. Todos falam tanto sobre “ser normal” e fico me perguntando se alguém já pensou que o normal é não sê-lo. Na verdade, o que eu me pergunto mesmo é se alguém se pergunta alguma, qualquer coisa.

Acho que não. É isto que permite que o mundo continue girando nestes padrões que conhecemos, e deve ser muito complicado alguém entender – se entender – sem se estabalecer algumas normas de procedimento. Afinal, o que somos mesmo a não ser um amontoado (maior ou menor) de coisas impostas?

Devem existir pessoas que olhem por cima de suas cabeças. São as que enlouquecem.

Minha dificuldade como psicóloga sempre foi a nomenclatura. Gosto muito dos esquizofrênicos, dos psicóticos: não como objetos de estudo, mas como filosofias de vida. Quem teve sensibilidade demais neste redor de pedra: veja o que acontece. Estes rótulos de “louco, isto ou aquilo”, para mim, não deixam de ser manobras de um sistema que não nos permite a autenticidade original. Seria muito intenso se cada um fosse como é de verdade.

Não é simples colocar em prática o que somos.
Mais complicado ainda é descobrir o que somos.
Separar o lixo, ficar com as mãos sujas.

“Não apenas as pessoas não procuram ficar mais bonitas quando estão no meio das outras, mas nem mesmo evitam ser feias!
Ela pensou: um dia, quando a invasão de feiúra tornar-se inteiramente insuportável, comprará no florista um só raminho de miosótis, pequeno caule encimado por uma flor miniatura, sairá com ele na rua, segurando-o em frente ao rosto, o olhar fixado nele a fim de nada ver, a não ser esse belo ponto azul, última imagem que quer conservar de um mundo que ela deixou de amar. Irá, desta forma, pelas ruas de Paris, as pessoas logo saberão reconhece-la, as crianças correrão atrás, zombarão dela, jogarão coisas e Paris inteira irá apelida-la: a doida do miosótis.” (Kundera)

Para mim os conceitos estão todos de ponto-cabeça.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Tanto

“O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?” Clarice

Hoje faço anos.
São 23.

Fico esperando que algum super-evento da humanidade aconteça no meu aniversário, mas são coisas da minha cabeça. Não vale a pena considerar.

Não avalio os ciclos da minha vida pelos meus aniversários, ou pelos ano-novos – como a maioria costuma fazer. Costumo pensar todos os dias a respeito do que acontece comigo, e, de tal forma, que a idade perde seu peso: não encontro nenhum grande significado e nem sinto nenhuma grande mudança. Não tem data para isso acontecer.

Acontece toda hora, até demais. Se tivesse data, pelo menos, seria só uma vez ao ano.

Mas mentiria se não estou em uma posição de vida diferente do ano passado. Fiz muita coisa acontecer em um ano, sem falar naquilo que não deu certo, e contabilizo a tentativa. Não sou mesmo de ficar parada.

Passei a enxergar as minhas possibilidades a longo prazo. Não existe mais aquela ilusão de vida e saúde eternas: não que um dia eu tivesse me iludido, mas a tal da minha lucidez perigosa vai mais longe do que eu mesma, às vezes. Resolvi que cuidaria de mim, para poder comportar mais vida e mais tempo, de uma forma leve e colorida. Não quero ter uma velhice escura e embolorada: prefiro ir antes.

E me dei conta de que uma pessoa me ensinou muito mais do que eu pensava. E eu que achava que tinha ouvido anos de palavras desperdiçadas: ficou tudo guardado, esperando a hora certa de sair. Bonito de sentir. Preciso agradecer antes que seja tarde demais.

Morro de medo do “tarde demais”. Vai ver que é o principal motivo de ser precoce.

A cada ano que vivo, uma ou outra pessoa saem da minha vida. Não importa qual seja o motivo, mas saem de circulação, eu querendo e eu não querendo. Tem quem me faça falta, mas confesso uma crueldade a mim mesma: não me importo com elas. Eu provoco mesmo afastamento de quem não me acompanha, e quem não vem comigo só me atrapalha na jornada. Já me basta eu, que me atrapalho muito.

Refaço os meus votos de viver – mas não porque é meu aniversário. Refaço os votos todos os dias, quando percebo que tenho mais um dia novo e fresco pela frente. Vida não é coisa que se desperdice.

“Senti que podia. Fora feita para libertar. Libertar era uma palavra imensa, cheia de mistérios e dores.” Clarice

segunda-feira, 28 de abril de 2008

I'm always hoping


Pessoas são sempre muito complicadas. Na verdade, as pessoas costumam ser simples, o que complica mesmo são seus comportamentos. Algumas coisas que são desnecessárias, e poderiam ser evitadas com um pouco de reflexão, ou com um pouco de empatia. Deve ser pedir demais, não é mesmo?
Fico pensando que a vida já é tão complicada. Nós poderíamos facilitar, para os outros e para nós mesmos. Deixar as relações mais leves, na medida do possível, porque também não teria a mesma graça se tudo fosse só simples.
Estou entediada das pessoas: nunca conheço alguém que me agregue. Parece que todos estão sempre pautados nas mesmas escolhas – e, conseqüentemente, nos mesmos erros. E eu me vejo sempre repetindo os mesmos conselhos, advertências, e sempre despertando os mesmos sentimentos. Como um vício humano, maior do que minha capacidade de interferência.
Gostaria que mais pessoas grandes me atingissem no percurso. Com novos modos de pensar e também com revoluções internas por fazer. Para variar um pouco os meus diálogos, o meu raciocínio e o meu discurso. Também me canso de me colocar para menos, por falta de quem me entenda e escute plenamente.

Ao mesmo tempo em que tudo isso me passa pela cabeça, tive uma experiência de muito me passar pelo coração. Antes de ter este blog, eu escrevia em um caderno, com letrinha apreensiva e miúda. Palavras de tempos marcadamente mais complicados, e muito solitários. Hoje, pelo menos, tenho em quem depositar meus desabafos.
Também escutei músicas desta época, todas tão nervosas e urgentes.
Hoje, bem mais calma e portadora de inúmeros significados, sei que já não estou mais correndo risco de vida.
Curioso que, quem me conheceu neste período, acreditava que aquela era eu – e não era. Aliás, era metade-eu, pois eu estava muito em formação. Depois, quando me montei inteira, e me defini como toda-eu, há quem não mais me reconhecesse (afinal, eles me desconheciam). Distanciaram-se, xingaram-me, ficaram desnorteados – e eu não sempre digo que todos preferem o que é fácil ao que é real?
O que eu era antes, era bem mais clichê. Muito mais fácil de ter amigos.
Hoje, quem me ama, é autêntico, pois não sou óbvia nem tranqüila.

Também andei me recordando de como a vida termina de repente.
Sem preâmbulos e sem que possamos nos posicionar como vítimas.
E às vezes desperdiçamos esse tempo escasso com banalidades.
Isso eu não admito, a vida é sagrada.

"As we were talking outside,It was cold,We were shivering, yet warmed by the subject matter.My wife is in the next room,We've been having troubles you know, Please don't tell her or anyone, but I need to talk to somebody.

You said, "Wouldn't it be a shame if I knew how great I was five minutes before I died? I'd be filled with such regret before I took my last breath."And I said, "You're willing to tell me this now, and you're not going to die anytime soon."And I said I haven't been eating chicken, or meat, or anything. And you said yes, but you've been wearing leather and laughed and said “We're at the top of the food chain.”And yes you're still a fine woman, And I cringed.

I was hoping, I was hoping we could heal each other. I was hoping, I was hoping we could be raw together.

We left the restaurant where the head waiter (in his 60's),said "Good bye, sir. Thank you for your business sir. You're successful andestablished, sir, and we like the frequency with which you dine here sir. And your money."And when I walked by, they said "Thank you too dear."I was all pigtails and cords.And there was a day when I would've said something like,"Hey dude, I could buy and sell this place, so kiss it."I too once thought I was owed something.

I was hoping, I was hoping we could challenge each other. I was hoping, I was hoping we could crack each other up.

I too thought that when proved wrong, I lost somehow. I too thought life was cruel. It's a cycle, really. You think I'm with drawing and guilt tripping you.I think you're insensitive and I don't feel heard. And I said "Do you believe we are fundamentally judgmental? Fundamentally evil?"And you said Yes. And I said I don't believe in revenge, in right or wrong, good or bad? And you said "Well, what about the man that I saw handcuffed in the emergencyroom, Bleeding after beating his kid, and she threw a shoe at his head. I think what he did was wrong, and I wouldn't have had a hard time feeling compassion for him. "I had to watch my tone for fear of having you feel judged.

I was hoping, I was hoping we could dance together. I was hoping, I was hoping we could be creamy together."
I Was Hoping - Alanis


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Eu-comigo no Chile

Hoje não estou conseguindo me concentrar, não estou com cabeça, estou com coração demais – e isso sempre me atrapalha.

Impressões de Viagem #1

Conheci a casa do Pablo Neruda, e fiquei pensando que seria muito mais fácil para mim se eu pudesse viver em um lugar como aquele. Sinto falta deste contato com o silêncio, e com todo um ambiente que tivesse sido escolhido e elaborado por mim, pelas minhas necessidades de inspiração e de alargamento da consciência. Um ambiente que me recordasse o tanto de arte e de verde que possuo dentro de mim – mas é tão complicado me lembrar disso em meio a este cinza e barulho, a pele coberta de pequenas fuligens, desprezo tanto tudo isso.
Figura instável e movedora do mundo. Um pedaço de mim que eu gostaria de utilizar mais.
Também gostaria de ter mais figuras deste tipo ao meu redor, substituindo essas pessoas de conversar superficiais e medíocres. Que falta me faz a expansão do pensamento!


“Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se como o pão ou as cadeiras ou o produto das farmácias ou das oficinas - há fábricas de dias que virão - existem artesãos da alma que levantam e pesam e preparam certos dias amargos ou preciosos que de repente chegam à porta para premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato.” P.N.

Impressões de Viagem #2

Há também um pedaço de mim que procura revoluções. Revoluções pessoais, estas sempre faço, de tempos em tempos (como um fenômeno), mas queria revoluções maiores – de almas, de mundo, de sociedades.
Curioso que, quando pequena, lia certos livros que me marcaram mais do que eu esperava, e que são mais fiéis a mim do que pensava. Tudo de Isabel Allende veio de encontro a mim de uma maneira inesperada, e houve esse reencontro de mim-comigo, como um susto.
Um lembrete de que há tanta força em mim que nem sei o que fazer.
Não sei onde depositar essa quota de energia meio desvitalizada pelo mundo ao meu redor.
E essa vontade de querer fazer... fazer o quê?
Ali, parada, olhando aquele monumento / palácio, tão governamental, tão central, só fazia era pensar em épocas políticas de revolução, em ruas com gente de verdade.

“A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.” I.A.

Impressões de Viagem #3

Gosto de cerimoniais. Solenidades. Militariedades.
Esta sensação de que posso ser subversiva e pega.
Não me importo em ser pega, desde que possa ser subversiva.
Gosto de observar as ruas fechadas para os militares passarem com sua banda e sua música. Tudo muito alinhado, enfileirado, correto. Tentação de desarrumar tudo!
Mas minha amplitude de alma não condiz com minha amplitude de realidade, e isso vai doer até quando.
Até quando?
Não sei.
Ali eu poderia ser alguma coisa maior, e gostaria de ser, fazer uso maior de mim.
Ali poderia existir uma rua com gente de verdade, com frases de verdade, com lutas reais e genuínas.

Impressões de Viagem #4

Se eu pudesse – e como gostaria de poder – estaria em Sta Lucia. Pisando em pedras que fazem perceber que já existiram tempos imemoriais. Ruínas de qualquer tipo de palácio, ou castelo, ou fortificação – tanto faz. São 70m de subida, como se fosse a conquista de si mesmo – acho que seria um bom jeito de encontrar meu Moksha.
Um jeito de realeza destruída. Bem assim eu.
Com mulheres de vestidos soberbos sujos de terra.
Incrível.

...
Enquanto isso, só me resta fingir que não escuto conversas e mais conversas sobre trivialidades. Casamento, festa de casamento, buffet de casamento, filhos, sobrinhos, gravidez... Tudo tão distante da minha vida e do meu modo de ver. Não participo disto, prefiro vir aqui e me refugiar um pouco na minha música e no meu próprio contexto.
Já que ninguém pára para refletir na implicação de certas escolhas.
Já que ninguém pára para pensar em como são coisas apenas sociais ou históricas – não vitais.
Estas são minhas pequenas subversões diárias, enquanto me transporto de coração para qualquer história da I.A., ou mesmo me imagino na casa de P.N., porque tudo ali me recordou de coisas que sou.

Sempre fui.

Nem havia me dado conta de tanto.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Exercício da Tranqüilidade

"Porque há o direito ao grito. Então eu grito." Clarice

Esses dias precisei lutar pela minha tranqüilidade. Eu posso ficar muito tranqüila comigo mesma - apesar de sentir tanta coisa e pensar muito mais - mas é um fato que os outros conseguem me incomodar. Acabei me acostumando a contar com a falta de educação, com a falta de respeito, com a falta de noção; e acabei me acostumando a guerrear para conseguir meus minutos de descanso. Veja que este descanso é o que me permite colocar em prática minhas criações, e extrapolar o nível dos meus pensamentos para exteriorizar o que eu sinto e o que eu preciso elaborar. Quando não me reservo, todo dia, essa quota de refinamento do mundo, é como se, naquele dia, eu não tivesse existido: meus sentimentos são sempre muito volúveis, e é preciso captá-los no momento exato, senão, fogem, e nunca mais aparecem em mim de novo. Claro que isso não é o tipo de coisa que se fale a certas pessoas, imagine:

Eu: Boa noite, você pode, por favor, fazer menos barulho?
Vizinho-Transtorno: Desculpe, minha senhora, não sabia que estava incomodando. (!)
Eu: Como não se são 4h30 da manhã?
Vizinho-Transtorno: Mas a senhora dorme às 4h30 da manhã de uma segunda-feira?
Eu: Filhinho, olhe só: a questão não é se eu durmo a esta hora, a questão é se eu crio a esta hora, ou mesmo se eu tenho a possibilidade de criar a essa hora. E tem mais: já me é árduo demais trabalhar amanhã, sem poder me ser plenamente com os demais, e ainda preciso não-me-ser com muito sono e muito cansada? Não há quem agüente tanta provação. Preciso ser autêntica, entende?, e o seu barulho interfere.
Vizinho-Transtorno: (Piscando)

(Suspiro) Muito complicado lidar com as questões da vida em sociedade do meu jeito. Sou obrigada a recorrer a maneiras convencionais - e por acaso alguém acredita ainda nessas maneiras? Se elas funcionassem de verdade, não continuaríamos tendo os mesmos problemas - eu mesma tenho os meus problemas há anos! Também não me tranqüiliza pensar que só eu penso em soluções alternativas, sendo que isso foi o que fiz a vida toda, com tanta gente, com tanta coisa. Por isso digo que é uma luta pela tranqüilidade.

E se não fosse pela luta, não seria tão tranqüilo depois. Eu sei. Mas é que eu preciso reclamar, senão explodo, já tem muita coisa se mexendo em mim.

Sem contar que hoje escapei (delicadamente) para ficar um tempo sozinha, organizar os conteúdos. Eis que não consigo: não podia deixar de perceber duas promotoras de venda de um restaurante competindo por clientes - juro que esperava que elas fossem se estapear. E o restaurante prometendo "vida saudável", bem atrás delas. Essas contradições do mundo acabam comigo, já não me bastam as minhas próprias contradições?

Acho que preciso de férias do mundo. De mim mesma, uma overdose.

"Não sei se quero descansar, por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir." Clarice

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Do you know the things that I can do?

“the lights came on fastlost in motorcrashgone in a flash unreal but you knew all alongyou laugh the lightI sing the songs to watch you numbI saw you thereyou were on your wayyou held the rainand for the first time heaven seemed insanecause heaven is to blame for taking you awaydo you know the way that I can?do you know the way that I can't lose?do you know the things that I can?do you know the things that I can do?where is your heart? where is your heart gone to?tear me apart tear me apart from youyou laugh the light I cry the wound in gray afternoonsI saw you thereyou were on your wayyou held the rainand for the first time heaven seemed insanecause heaven is to blame for taking you awaythe lights came to passdead opera motorcrashgone in a flash unreal in nitrous overcastdo you know the way that I can?do you know the way that I can't choose?do you know the things that I can?do you know the things that I can't lose?tear me apart tear me apart from youwhere is your heart? where has your heart run to?”
Tear - Smashing Pumpkins

Gosto muito dessa música porque ela me traz alguma coisa de sofredora solene. Como se este sofrimento fosse o último e mais bonito que se pode ter. Como se se chegasse a um momento de iluminação.

Dias desses passei por maus bocados: foram séries e séries de elaborações, e, apesar da angústia e da dificuldade, eu sentia que estava chegando onde deveria, e que, daquele ponto em diante, eu poderia modificar ainda mais o meu mundo e o que não aprovo nele.

Minha grande e amada sis me disse essa frase: “transformando o gozo sofredor em arte.” Foi um grande alívio encontrar esta verdade – e, a parte mais estranha da história é que eu já havia passado por essa parte do meu caminho, há anos, e hoje me vi novamente passando por ele. Andei em círculos?, pensei. A verdade é que: não. Hoje sou uma pessoa totalmente diferente, e sinto que passei novamente pelo mesmo lugar para apreender coisas que eu não tinha percebido ainda. Estou maior e vejo a paisagem mais de cima hoje.

Também percebi que não posso me angustiar por ser angustiada – desejar não desejar. Disso sai minha fonte de idéias, e eu preciso saber manter esta fonte. Com serenidade – porque hoje quero uma vida mais tranqüila.

Palavras, apenas palavras. A minha mudança de posição no mundo me diz mais que isso.

Curioso que, bem neste momento, de descobertas e re-descobertas, e de encontros com conteúdos do passado, tem sempre esta figura que ressurge. Ressurge como quem pede, como quem anseia, mas não como quem oferta. E aproveitei para rever a minha posição nesta situação: percebi que continuará a mesma, seja por convicção, seja por deficiência de coração, mas nada mudará – ninguém tem o direito de destruir meu mundo, depois que me refiz e desfiz para arrumá-lo como pude. Certas ausências jamais são repostas, e minha essência já está por demais acostumada com buracos – não preciso preenchê-los com qualquer coisa, de qualquer jeito, para ser feliz. Deste sofrimento sei eu, pois nunca o dividi com ninguém.

Penso que é difícil pensarmos na nossa implicação nas nossas escolhas. Aquilo que renunciamos sempre deixa marcas pelo caminho. Eu tenho as minhas marcas, mas não me arrependo da minha escolha: o grande problema sempre foi não ter ao que renunciar – nada me foi oferecido, e isso me desobriga de qualquer sentimento por você.

Não sou de me contentar com migalhas. Porque não me dou em migalhas a quem gosto.
Também não sou de mentir e nem de me ausentar. Nada é mais confuso que uma ausência mal colocada. Nada é mais perturbador do que perceber uma falta – antes fosse uma presença incômoda. Ao menos se teve – e quando não se tem, o que fazer?

Cada um que pense nas conseqüências. Não sou de facilitar a vida. Gosto mesmo é de complicá-la, para ter mais, e melhor. E acontece o que sempre previ: a própria vida se encarrega de explicar o que foi feito de errado .

Um desabafo em hora apropriada. Muita coisa acontecendo, indo para o lugar.

Antídoto para o Mais ou Menos

Hoje navegando pela internet, encontrei uma matéria muito interessante (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2710115-EI8423,00.html), e teve uma parte dela que me chamou mais a atenção:

“De uma maneira equivocada, dizemos "matar-se", quando é mais real dizer "viver-se". A gente se vive a cada instante, a cada dia, mês e ano. Escolhemos a dureza de ir em frente, quando seria tão mais fácil qualquer outra alternativa, a, b, c, d ou e. A gente insiste em assistir ao filme da nossa vida, não gostando tanto assim da trilha e sofrendo pra arrumar o financiamento que torna o filme mais ou menos possível, e que permite aos atores comerem mais ou menos, beberem mais ou menos, viajarem mais ou menos, encontrarem o amor, mais ou menos, tudo mais ou menos assim, até o fim, amém.” (Marcelo Carneiro da Cunha)

Acho que me vivo demais, e por isso fica difícil viver-me em meio aos outros com quem convivo. Viver-me implica em muitos comportamentos que são contravenções, revolucionários para uma sociedade como a nossa, e, como é de se esperar, há muito estranhamento – e acabo optando por me desligar de certas coisas. Vou dar um exemplo prático: as conversas cotidianas. Quantas e quantas vezes não emiti minhas opiniões (aos temas mais comuns) e fui recebida a) como estranha; b) como louca, c) com ignorância. Isso me fez, aos poucos, perder a energia, e prefiro hoje ser assim calada – sem que isso me isente de parecer esquisita aos olhos dos outros, obviamente.

Mas a questão é exatamente essa: “tudo mais ou menos assim, até o fim, amém.” Não sou de viver mais ou menos: sou de viver ou tudo, ou nada. Acho mais nobre assim, assim precisamos de maior sensibilidade, de maior inteligência, de maior envolvimento. Mais ou menos é assim, sempre muito comum, sempre tudo nos lugares-comuns – e por acaso isso existe em mim? Faça-me rir.

Fico aqui pensando que a vida já é tão curta para fazer tudo o que quero. E eu fico aqui buscando o meu desejo, e fico buscando que a minha vida seja construída de uma forma que eu possa viver-me por inteira – e não mais ou menos, como me forço por disfarçar quem sou de fato: se não disfarço, não sou aceita ou eu não aceito. E percebo que a vida, para os outros, não é curta, pois eles não têm muito que querer, que desejar, e qualquer coisa mais ou menos já atende às expectativas: todos nos seus respectivos padrões, com seus “certos e errados, podes e não podes” – tudo tão estreito diante da largueza que há.

Que bom que não sou comum.

"A Idade da Razão"

Cheguei num daqueles momentos da vida que precisamos decidir entre nossas convicções e o nosso futuro: não deveria ser assim, mas preciso escolher entre um e outro, pois não fui capaz de encontrar uma solução que intergrasse as duas coisas. E como nada no universo acontece por acaso – já dizia Jung e seu inconsciente coletivo – estou lendo um livro do Sartre, chamado “A Idade da Razão”, que conta exatamente esta história.

Vou resumir só um pouco o conteúdo do livro para ficar mais inteligível o que escrevo: existe um homem, e este homem precisa dar um futuro a si mesmo, pois não tem nenhum. Porém, para conquistar este futuro, ele se vê frente a frente com a escolha: se continuar vivendo do jeito que vive, baseado em suas convicções (de mundo, das pessoas, da sociedade), ele será infeliz daquele momento em diante; por outro lado, para que exista uma possibilidade, mesmo que pequena, dele ser feliz, ele precisa abandonar estas convicções e traçar um plano B.

Eu me vejo assim nesse momento da minha vida: tenho minhas convicções, que foram conquistadas com muito sofrimento, e depois de sucessivas crises existenciais. Depois deste longo percurso, eis que começa um novo: descubro que muitas dessas convicções não vão me servir muito mais tempo, e precisarei escolher.

Resumindo, agora, o conteúdo da minha história, é mais ou menos assim: se mantenho a maneira como vejo e penso, provavelmente cairei na solidão – e já vivi uma solidão irreversível, e não quero voltar para lá; por outro lado, para não ficar sozinha, precisarei abandonar coisas em que acredito de todo o coração. Ainda estou elaborando tudo isso, mas sei que não quero ficar mais sozinha do que já fiquei na minha vida – pelo menos por enquanto esta é minha prioridade.

As conseqüências desta escolha são: eu me sentir um pouco menos eu, e um pouco mais clichê. Pensar que isso me agride tanto. Essa anulação faz parte da "Idade da Razão"? Acho totalmente irracional.

Um estudo psico-sociológico dos fenômenos de massa juvenis (rs)

Vamos lá, eu tentei. Quis, de verdade, com-viver com pessoas, e, inclusive, pessoas desconhecidas. Me animei verdadeiramente em estar perto, em ser além do que costumo ser e me permitir construir pontes (já que nunca fui boa nisso). O resultado foi exatamente o que esperava: nada. Ser psicóloga me dificulta as coisas: vejo coisas que não gostaria, e compreendo comportamentos que eu não deveria – bem diz aquele ditado que “a ignorância é a felicidade”. Talvez seja verdade, talvez seja realmente mais fácil não pensar a respeito das pessoas, apenas conhecê-las, aceitá-las, dividir-me. Eu tentei, eu juro, mas tem discursos que eu não consigo deixar passar, não consigo me deixar passar ilesa.

Personagem A: A. vê-se muito vivido, mas eu prefiro quem seja realmente vívido. Não se sabe se o ânimo vem de dentro ou de fora, tudo artificialmente planejado, não se sabe se veste o personagem o tempo todo ou se já o absorveu por completo. A. conta muitas histórias, e suas frases sempre começam com “eu”. “Eu” fez de tudo, experimentou tudo, e, ainda novo, viveu e viverá muito. Tudo muito. Teatro, mas antes esse muito do que pessoas-nada.

Personagem B: B. é o oposto de um padrão tido como atraente, e parece compensar as faltas nos excessos. Parece regredir à puberdade – vai ver que foi naquela época que foi rejeitado, e nada como querer ressignificar sua própria história. Válido, of course, mas exagerado: tem gente que gosta de se desperdiçar, e não percebe que, nesse desperdício, perdem-se pedaços que não se repõem.

Personagem C: A presença de C. é sempre cheia. C. é daquelas pessoas que preenchem um ambiente todo com sua voz, seu discurso, seus comportamentos. E preenche para ser preenchido, sabido é seu medo de solidão. C. só não sabe que não precisa ter medo, na medida em que for autêntico - mas, às vezes deixa de sê-lo por medo da solidão, e aí sim, por não ser autêntico, que seu medo pode tornar-se realidade: C. é cheio como este círculo em que vive.

Personagem D e E: Normalmente eu não veria os dois juntos, seria mais simplista se eu os colocasse separados – sabem-se como são separados, mas sabem-se como são juntos? Descobrem a cada palavra, e – boa surpresa! – amam-se, só precisam dizer.
Figurantes: Estes são o recheio da festa. Me fizeram perceber que estou em uma era da qual não faço parte, e meus pensamentos formaram frases como “na minha época”. Mas, uma pausa: e a minha época não é agora? Parece que não. Embora me utilize de um blog e da internet. Me senti estranha, parece que perdi um pedaço da história.

Personagem Eu: Percebi que minha melancolia vem sempre da sensação de não estar participando do que eu deveria. Como se eu nunca tivesse sido convidada para as grandes festividades da humanidade. E o pior: sou uma grande festa em mim, enorme, e preciso urgentemente colocar isso para fora, antes que eu perca mais e mais de mim no caminho. Podem acontecer tragédias por eu não me exercer de fato.
Conclusão: As minhas teses são inúteis quando quero ser feliz
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05/03/2008

Psicóloga.Filósofa.Pagã
“Deus transforma caos em cosmos.”

Não acredito neste Deus cristão (parece até frase de música do Legião Urbana). Esta imagem de um Deus que pune seus “súditos” pelos pecados cometidos e que faz uma série de exigências para que se alcance o “paraíso” não me convence. Não acredito que em Deus possa existir regras, normas, leis ou qualquer coisa do gênero – para mim Deus é a vida, o universo, o que existe e o que não sabemos se existe, uma energia universal que nos aponta caminhos – e que pode, vez ou outra, nos dar uma inspiração, um insight, sobre algo que deveríamos fazer para sermos mais felizes. Não tem forma, e, na verdade, só tem um nome porque nós, homens, precisamos nomear as coisas. Não tem cor, luz, nada: apenas existe, e pode-se senti-lo, ou não. Depende da visão de mundo de cada um. Conseqüentemente, não acredito nas religiões: não vejo sentido em como uma pessoa, representada como mais sábia ou mais evoluída, pode me dizer o que devo fazer para conquistar x,y,z – o que você tem que eu não tenho para que você tenha o direito de me regrar? Ninguém tem este direito: somos apenas seres humanos, animais como os demais, com necessidades não tão civilizadas e hábitos não tão inteligentes. Um conjunto de regras estabelecido com fins sociais, políticos, econômicos – só depende da época. Quem segue, pode até ter boas intenções, mas, quem determina, garanto que não – existe muito mais sujeira no mundo do que somos capazes de (querer) enxergar. É um pouco de Teoria da Conspiração, é verdade, mas nisso, sim, eu acredito (também a meu modo).
Depois, passo para a segunda parte da frase: transformar caos em cosmos. Vendo Deus como eu vejo (totalmente pagão), me conforta pensar que a Vida, de um jeito ou de outro, dá um jeito. Existem certos momentos que eu sinto que nada posso fazer, e, até, que nada devo fazer, e apenas espero as coisas se arrumarem cada qual em seu encaixe, sem sentir angústia, pressa ou incômodo. É uma espera mansa – o que me assusta mesmo é esta mansidão, não estou acostumada com tranqüilidades. E esta sensação sempre aparece quando nada mais faz sentido, quando todas as opções já foram descartadas e sobrou só o nada: é bem verdade que o caos surge do nada. Para mim, pelo menos, é assim. É exatamente no nada que eu sinto que eu tenho que esperar, uma coisa superior, uma energia, chegar e organizar o caos, transformando-o no cosmos.
Vou parecer um pouco mais doida do que já sou ao dizer isso, mas eu sempre gostei muito de Física Quântica: é uma explicação científica dessas bobagens que digo. A energia, o nada, a mecânica do universo – acho lindo! Minha “religião” é mais ou menos assim: essa trombada de Física Quântica com Hinduísmo. Maluquices de uma psicóloga que adora filosofar.
Ando com vontade de ler filosofia: será que é uma vontade de encontrar iguais nesse mundo grande? Eu e me busca por pertencer, mas aí já é outro assunto.

Tr3s


Comecei esses dias um livro novo. Fazia tempo que não me vinha uma inspiração maior, que coubesse em várias páginas. Todas as minhas inspirações andavam tímidas, cabiam aqui em meus posts e eu ficava mais leve. Mas foi se juntando um peso maior em mim, e agora eu preciso de várias páginas. Não sei ainda o que vai se formar: o caminhar do livro será o mesmo que o meu, sem saber muito qual são as possibilidades, mas sabendo, no fundo, que qualquer coisa será possível. É diferente de outras coisas que já escrevi: tudo estava pronto em mim, lá dentro, só precisei desenterrar e vomitar algumas palavras. Hoje não: hoje não sei de nada do que há em mim, não posso prever o que virá. É um desafio, em termos técnicos – preciso escrever o que nem sequer está no nível do pensamento, só no nível do sentimento.

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever." CL

Também comecei uma nova fase da definição de mim mesma, e nesta nova fase há algumas coisas que se confirmam e há muitas outras que se contradizem. Estou, agora, em outro ambiente, com outras pessoas, convivendo com realidades diferentes das que eu tinha antes: ando buscando uma sensação de conforto maior, de familiaridade, mas não estou desconfortável. Isso foi uma descoberta: eu posso não me sentir desconfortável. Passei tanto tempo me sentindo assim que esqueci da possibilidade de que poderia ser diferente. Também redescobri minha vontade de estar perto de pessoas – bom isso, havia esquecido de que eu não sou sempre melancólica, dolorida: também posso ser aberta e colorida. Estranho isso de me estranhar. Estranho, mas, comum.
Pensar que já tive tanto medo de tudo isso, e depois passei a não ter mais. Agora sou maior de verdade, e não tenho medo mesmo, fez parte de mim conhecer essas grandes-pequenas coragens.


"Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa, minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai." CL

Agora também passo por um outro novo começo. Ando nesta fase das coisas que quase-terminam e quase-começam. Não gosto de quase, não sou pessoa de quase: gosto tudo intenso e definido, mas existem as épocas de quase-acontecer o que quer que seja. Nessas horas, que fico assim desanimada, acredito no Tempo – o que para algumas pessoas é Deus, para mim é uma combinação de Tempo, Vida e Universo. Eu confio neles três, porque sempre foi assim: quando chega aquele determinado período que parece que tudo não vai mais acontecer, há algo que simplesmente aparece, de tal forma e na minha frente que não há como recusar: eu digo – é isso o que eu quero!, sem saber antes que era aquilo que eu queria. E aí entendo por quê tudo deu errado antes, era porque havia algo maior para dar certo.
Descobri esta pequena esperança – não gosto da palavra, mas é este ato de esperar-com-calma. Logo eu, calma – quase dou risada. Vamos ver o que acontece, vamos ver no que é que dá.

06/02/2008

Diálogos são difíceis de eu recordar: não lembro ao certo detalhes, palavras, sinônimos. Mas fica em mim a marca da sensação das palavras, dos seus vários sentidos, das suas cócegas e das suas dores.

Diálogo 1
Estava eu na manicure e a conversa que transcorria era mais ou menos assim:
Manicure: Mulher quando não tem filhos, não é mulher. Mulher só é mulher quando é mãe. Mulher que não é mãe é vazia.
Eu: (cara de simpática)
Eu pensando comigo mesma: Ninguém realmente questiona os paradigmas da sociedade. Ninguém pode me dizer que tenho a obrigação de ter filhos: sou eu quem escolho qual é o meu papel enquanto mulher, e eu tenho o direito de não aceitar certas fórmulas prontas que existem. É possível repensar tradições seculares, tradições puramente burguesas - papéis adquiridos ao longo da História da humanidade, adquiridos por razões econômicas, políticas - não por razões de ser, de existir, de viver. Duvido. Eu não falo mais: não quero mais assistir a expressão de surpresa-ofendida quando digo as minhas escolhas, não quero mais participar deste pequeno momento de ignorância e de cegueira, também não quero mais ouvir os mesmos comentários e palpites discretos - esta sou eu: faço escolhas que ninguém sequer percebe que podem existir. Além disso, mãe não é mulher: mãe anula a mulher. Mãe é esta matéria revestida de sagrado, de censura, de perfeição (ou obrigação de tê-la). Não quero ser mãe, quero ser mulher. Sendo mulher, me sou livremente - não quero a imensa responsabilidade de cuidar de uma vida, já me basta a minha enorme e suntuosa vida, carregada à base de angústia e sacrifício.

Diálogo 2 – (Alguns são quase impossíveis de se reproduzir)
Você para mim: Você não teve ninguém.
Eu para você: (Dor)
Incrível como existem marcas que são para sempre: parece que elas irão desaparecer, mas continuam lá, tão firmes e tão fortes que nem passadas eu as sinto: são presentes e, o pior: serão futuras? A cada dia percebo os resquícios da solidão - em convívios, em conversas, em conjuntos: como se o peso da ausência fosse muito maior do que é possível ser o peso de uma presença torta. Fica em mim a impressão do que sou - e o que sou é assim tão difícil? É. Não quero te passar esta dor, pois ela só pode pertencer a mim, mas você a viverá como eu, eu sei. Eu vi nos teus olhos a tua impossibilidade de elaborar a minha dor - eu vejo nos meus olhos a minha própria impossibilidade, todos os dias. Parece até que sou mal-dita. Você me bem-diz, por favor? O meu mundo é assim mesmo, de vazio a quase-cheio, mas jamais será completo: meu mundo não será como o teu, como não será como o de ninguém, pois me sinto assim mesmo: espécie única e muito rara, quase estranha.
 
AT Wireless
Cell Phones