"Shame on you Seducing everyone Faded you Your diamond in the roughYou don't have to tell me I know where you've been Shining once againWill you do The thing you've always done Tell me true I think you know the oneOne that makes me blurry Colors start to runEverytime I wonder I go underThe deeper the blues The more I see blackSweeter the brew the feeling starts coming backAll the deepest blues are blackHow my mind is spinning And my head is going numbRight from the beginning Our ending had begunI can be your trouble Shiver into youShaking like the thunder Sinking underThe deeper the blues, the more I see blackThe sweeter the bruise, the feeling starts coming backAll the deepest blues are blackWhen it comes closing in Reject Cause I gotta moveAnd the simple things get in the openings ConnectBecome something new To removeThe deeper the blues, the more I see blackThe sweeter the bruise, the feeling starts coming backAll the deepest blues are black."
Às vezes fico perto de algumas pessoas, desconhecidas, que me despertam vários sentimentos. Ao olhar para elas, estala uma história, um cenário, um contexto – não importa se está correto ou não, se é verídico ou ficção: vale pelo momento, pelo instante, pois é tão vívido.
Ontem estava sentada na plataforma do metrô, em cadeiras verde-hospital. Ao meu lado, havia um senhor. No seu colo, havia uma mala de viagem, destas bem antigas e bem rotas. A mala transmitia já ter viajado bastante – com aquele senhor ou não – mas não eram viagens peculiares: era daquele tipo de viagem que se faz com pouco dinheiro, muito planejamento, ao lado da família ou com o objetivo de ver a família, para estados distantes e cidades minúsculas. Tudo muito arenoso, quente e abafado. Existe movimento, mas não é um movimento vivo: é um movimento amorfo, apático, de quem já não espera que haja grandes surpresas. Tudo é previsto, e quer-se que seja previsto. Essa é a história da mala, mas existe também a história do senhor. Ele é roto como a mala: as roupas, a aparência, o cabelo, os sapatos. Mas, mais roto ainda é o olhar, a postura: tudo o que vem de dentro demonstra esse tipo de precariedade cafona, daquele tipo que ainda tem esperança de que sairá desta posição, mesmo sabendo que nada será feito para tal. Imagina-se facilmente a casa: os móveis velhos, desatualizados, parados no tempo. O senhor era parado no tempo: em algum momento houve um fracasso, e neste fracasso permaneceu, com aquele ar conformista de quem acha que merece a derrota. A história da mala com o senhor: ele segurava a mala com muita força em seu colo, a abraçava como a um tesouro, e permanecia imóvel esperando pelo metrô: não cogitei o que ele poderia estar pensando – parecia que desistira de pensar, e que nunca havia feito muito isso, de fato. Talvez não precisasse mais do que possuía para ser feliz – só pensamos mesmo na vida quando percebemos que o que temos não nos é suficiente. Para ele, sempre foi. Continua sendo, mesmo quando não é. Ele me deu certeza de que, quando eu levantasse, ele ainda estaria lá: esperando – e, realmente, quando fui embora, ele continuava lá, na mesma posição, sem movimento, sem vida.
No trem do metrô, uma mulher me chamou a atenção – dentre tantas. Aparentava ter mais de trinta anos, mas não ser bem resolvida com sua idade: a maquiagem, o penteado, a roupa, a figura como um todo. Existem certas mulheres de 30 que carregam um enorme peso: a vida ainda não foi vivida, mas quem sabe ainda dê tempo (que grande desespero o de correr contra o relógio). Esse era o seu peso, caracteristicamente feminino e burguês. Mas, o que mais me atraiu o pensamento foi sua postura: ela estava com as costas extremamente retas, sentando-se na beirada do banco. Me perguntei quem preocupa-se tanto com a postura, em deixar a coluna bem ereta, hoje em dia? Sabemos que devemos, mas não fazemos. Por que ela, logo aquela mulher, precisava tanto ser correta – reta? Gostaria de ter visto em seu rosto alguma expressão que acompanhasse tanta retidão: um olhar arrogante, um rosto perverso, um ar de superioridade, algo de nobreza. Mas não: esse é o ponto – não tinha essa expressão. Olhava ao longe no vagão, de uma forma ingênua e desesperada, vítima e sofrida, receptiva e medrosa. Com as mãos entrelaçadas em cima do colo: quase uma senhora bem antiga.
Depois, tive a chance de me deparar com três bebês recém-nascidos: recém-nascidos de apenas algumas horas. Achei muito estranha essa idéia: eles estavam nesse mundo há apenas algumas horas. Como deve ser difícil se acostumar com a nova realidade. Os três respiravam muito depressa, pulmõezinhos afoitos e acelerados. A barriga branca descendo e subindo depressa. Bonito de se ver essa ansiedade em estar vivo. Eles estavam com os braços e pernas ainda juntos ao corpo, não acostumados ao espaço que agora teriam: com a exceção de um deles – havia um que estava de braços abertos, havia um que estava com as pernas esticadas, havia um que alongava-se ao redor do novo território: parecia querer alcançar o novo mundo. Ele me fez uma promessa: de que não seria como o senhor ou como a mulher do metrô, ele faria da sua existência algo mais elástico, mais vivo, mais enérgico. Não ficaria encolhido diante da grandeza de uma nova realidade.
Nova realidade: este é o conflito. De agora e de sempre. Tão fácil o costume com um mundo, tão difícil nos acostumarmos com um novo. Tão fácil nos acomodarmos confortavelmente em um espaço, tão difícil enfrentarmos um novo e grande espaço. A diferença entre os bebês, entre o senhor e a mulher do metrô. É tudo uma questão de posicionamento diante da vida: como eu me coloco no mundo? O que eu faço de mim? Me encolho ou me alongo? Me agarro à mala rota ou a solto e sou livre também? Tudo é uma questão de escolha: eu escolho sempre a minha liberdade.
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