quinta-feira, 3 de abril de 2008

"Dies Irae"

(lendo "Dies Irae", de Clarice Lispector)
"Don't let me sick with your social disease."


Hoje resolvi escrever mais do que o habitual. E resolvi falar sobre tornar-se pleno: talvez isso seja o mais difícil, talvez seja o mistério da humanidade, talvez seja o que chamam de Deus: quando se está chegando perto mais parece que a plenitude distanciou-se. Eu alcancei a plenitude: e digo isso com meio orgulho, pois sei que há quem tenha inveja a e duvide da verdade - as dúvidas sempre partem dos invejosos. A minha plenitude eu vivo, e a vivo todos os dias, e sinto cada dia como sendo um fim próximo, porque assim aproveito os segundinhos que passam ansiosos. Pensar neste fim que chega, e que chega um pouco por dia, é o que faz eu aproveitar a minha plenitude - não pensando assim, as coisas são eternas, e quando nos damos conta: elas eram efêmeras e eu não sabia! Mas aí já não há saídas, foi-se o que não deveria e não há o que se fazer. Deus foi embora, diriam. Eu digo: nós fomos tolos, de achar que a vida nunca acaba. Acaba sim, e muito tempo antes de estarmos prontos, até porquê nunca estaremos prontos mesmo. De quê adianta tantas disputas? vejo cada atrocidade ao meu redor que não sei se choro de pena ou se rio de dó. De quê vale este mundo todo, se todos estão tão falidos? nada disso vale a vida, nada disso vale a pena, nada. E se fosse possível distribuir a plenitude... mas não, ela tem que ser conquistada, se sofre muito e se cresce muito: veja eu, tão angustiada que sou. Mas plena, e viva, e o principal: estranha. Estranha por ser viva e plena, e um pouco existencial demais.
E de quê adianta eu aqui escrevendo tudo isso?! Continuo sendo uma criança que sonha com dias melhores: não gosto destes dias de agora, não gosto, procuro por dias mais leves, e que principalmente tenham mais a ver comigo. Onde eu não finja ser o que não sou de fato."Dies Irae" não quero mais, não agüento mais, e lamento pela minha perspectiva de que eles voltem. "Deixem-me quieta aproveitando minha plenitude", é o que peço, peço a ouvidos que não escutam. De agora em diante, só luto pela parte final da minha plenitude: a minha última revolução. Minha última resolução. E o que é a minha plenitude?: ser apenas eu, sem efeitos, e sem remendos.
Este texto mais está parecendo um daqueles textos que só escrevo para mim, que sei exatamente quem não entende o que digo. Mas faz parte tentar sempre. Faz parte de exterminar com meus "Dies Irae", porque eu sei que não vivo a angústia de existir para eles: a vivo para meus dias de plenitude genuína, genuína, e nada mais.

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