quinta-feira, 3 de abril de 2008

06/02/2008

Diálogos são difíceis de eu recordar: não lembro ao certo detalhes, palavras, sinônimos. Mas fica em mim a marca da sensação das palavras, dos seus vários sentidos, das suas cócegas e das suas dores.

Diálogo 1
Estava eu na manicure e a conversa que transcorria era mais ou menos assim:
Manicure: Mulher quando não tem filhos, não é mulher. Mulher só é mulher quando é mãe. Mulher que não é mãe é vazia.
Eu: (cara de simpática)
Eu pensando comigo mesma: Ninguém realmente questiona os paradigmas da sociedade. Ninguém pode me dizer que tenho a obrigação de ter filhos: sou eu quem escolho qual é o meu papel enquanto mulher, e eu tenho o direito de não aceitar certas fórmulas prontas que existem. É possível repensar tradições seculares, tradições puramente burguesas - papéis adquiridos ao longo da História da humanidade, adquiridos por razões econômicas, políticas - não por razões de ser, de existir, de viver. Duvido. Eu não falo mais: não quero mais assistir a expressão de surpresa-ofendida quando digo as minhas escolhas, não quero mais participar deste pequeno momento de ignorância e de cegueira, também não quero mais ouvir os mesmos comentários e palpites discretos - esta sou eu: faço escolhas que ninguém sequer percebe que podem existir. Além disso, mãe não é mulher: mãe anula a mulher. Mãe é esta matéria revestida de sagrado, de censura, de perfeição (ou obrigação de tê-la). Não quero ser mãe, quero ser mulher. Sendo mulher, me sou livremente - não quero a imensa responsabilidade de cuidar de uma vida, já me basta a minha enorme e suntuosa vida, carregada à base de angústia e sacrifício.

Diálogo 2 – (Alguns são quase impossíveis de se reproduzir)
Você para mim: Você não teve ninguém.
Eu para você: (Dor)
Incrível como existem marcas que são para sempre: parece que elas irão desaparecer, mas continuam lá, tão firmes e tão fortes que nem passadas eu as sinto: são presentes e, o pior: serão futuras? A cada dia percebo os resquícios da solidão - em convívios, em conversas, em conjuntos: como se o peso da ausência fosse muito maior do que é possível ser o peso de uma presença torta. Fica em mim a impressão do que sou - e o que sou é assim tão difícil? É. Não quero te passar esta dor, pois ela só pode pertencer a mim, mas você a viverá como eu, eu sei. Eu vi nos teus olhos a tua impossibilidade de elaborar a minha dor - eu vejo nos meus olhos a minha própria impossibilidade, todos os dias. Parece até que sou mal-dita. Você me bem-diz, por favor? O meu mundo é assim mesmo, de vazio a quase-cheio, mas jamais será completo: meu mundo não será como o teu, como não será como o de ninguém, pois me sinto assim mesmo: espécie única e muito rara, quase estranha.

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