quinta-feira, 3 de abril de 2008

Loucura Mansa

“... ‘inteligência’ que, no seu entender, era uma espécie de loucura mansa.” George Orwel

Filosofando (p/ variar)
Gostei disso: loucura mansa. Acredito que realmente seja assim: quando se é inteligente demais, alcança-se um estado de lucidez extremamente perigosa. Entende-se muito a realidade, as pessoas, o mundo – e nada esconde mais lixo do que a realidade, as pessoas e o mundo (isso é algo que venho descobrindo). A realidade, tal como ela é, é o que mais próximo da loucura pode nos levar: a fantasia, muito raramente, nos causa esse mal – é impossível viver ao longo dos longos dias do cotidiano sem um pouco de fantasia, sem ela seria extremamente pior para mim suportar o peso que a realidade implica. Daí minha preferência pelos loucos: considero que eles compreenderam demais a realidade, e chegaram à conclusão de que é melhor construirmos nosso próprio mundo, e nele sermos livres para nos expressarmos como somos de verdade.
Domingo à noite é quando mais sofro por me deparar com essa dificuldade. Não é aquela depressão-clichê de domingo à noite, sofro ao meu modo existencial. Depois de ter experimentado minha doce liberdade, minha estranha autenticidade, cortam-se as minhas asas como se não houvesse dor, e como se não fosse uma segunda forma de castração. Não é fácil para mim viver no mundo como ele é: eu aqui questiono, e percebo que ninguém sabe as respostas, ou sequer entende as minhas perguntas. Faz parte da mediocridade do mundo não entender: é a máxima da “ignorância é a felicidade”. Aliás, separo as pessoas que podem fazer parte da minha vida a partir dessa máxima: não considero digno de experimentar a VIDA quem não quer saber, entender ou se envolver – a minha concepção de vida engloba sofrer por não concordar, sofrer pelo desejo, construir este desejo.
Quero me sentir construtiva, afirmando minha existência como algo que não é possível ser modificado pelos outros. Não quero que a minha fragilidade me deixe sofrer com o que não me pertence, quero ser capaz de redescobrir a coragem que sei que tenho escondida. Meio perdida e, nos últimos tempos, sem uso. Não me admito caindo na conformidade de uma vida fracassada e sem registro. Isso não sou eu. Muita coisa do que tenho passado não sou eu.

Decepcionando (mais uma vez)
Continuo o fio dos meus pensamentos indo para as decepções que tive. Já houve quem passasse pela minha história com garantias de permanência – e quando digo isso, refiro-me aos “amigos” que não tive de fato, falo sobre amizade – e, não sem antes uma investigação, percebi que não seriam capazes de ficar. Não sou comum, não sou simples, não sou fácil, nem óbvia. Quem permanece ao meu lado deve, em um nível mínimo, ter capacidade de me ler: quando escrevo eu me destravo e me sou. Deve-se passar do primeiro texto, do primeiro livro, do primeiro post. Dessa forma – eu me sendo assim dessa forma – seleciono naturalmente que vai e quem fica. Pouquíssimos agüentam, e são heróis tanto quanto eu sou heroína de mim mesma.
O que me abala mais é a capacidade quase inata do ser humano de ser mesquinho. De ter objetivos tão rasos e tão imediatos. Há quem prefira uma posição de status à uma amizade genuína, há quem coloque esta amizade a perder pelo status. Os valores modernos me parecem distantes demais. Não falam ao coração, à alma. E assim percebo a pequenez e a feiúra de quem me pareceu à minha altura: agora sinto uma grande e pesada raiva, o que detesto. Isso também não sou eu.
Não é fácil que eu me entregue a alguém: sei que sou um fardo, e sempre trago incômodo:

Continuando a filosofia
E, então, volto ao primeiro tópico: incomodo porque penso. Porque sou vítima dessa grande lucidez que desencadeia a loucura mansa. Porque não acredito que a vida deva ser desse jeito torto imposto e obrigatório. Ainda acredito que existem opções, e, claro, sofrerei por não escolher o que é mais fácil, mais óbvio e mais próximo: eu desejo o meu desejo, e o meu desejo envolve seguir em frente mesmo com este medo imenso que sinto.
E tenho medo: sempre acho que a realidade vai me roubar o meu desejo, ser um obstáculo às minhas necessidades tão vitais. E por que sinto tanto esse medo? Cabe aí um pouco de psicanálise. Ou não. Não sei se me teorizar vai me levar a algum lugar.
Só sei que estou numa fase de inércia - não tenho p/ onde ir, embora existam muitas opções. Não chegou a hora, sequer, de pensar qual das opções. Essa fase é a que eu mais odeio: fico esperando o tempo passar, tentando aproveitar o tempo enquanto isso, p/ ver onde meu futuro vai dar. Guardo muita expectativa e muita insegurança, aquele medo sempre volta. Mas já passa, e dias melhores virão, disso eu tenho certeza.
E pensar que há alguns anos eu estava na fossa. Sem dó de mim. Decidi que não deixaria mais a vida me machucar, e, daí p/ frente, tudo foi melhorando muito, e hoje - quando estou no MEU mundo, tenho tudo o que preciso e sou tudo o que quero. Minha luta, agora, é permanecer dele o maior tempo possível. É nele que sou feliz.

E termino como comecei: “...ah, o dinheiro. Sempre o dinheiro.” (George Orwell)

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