"Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos."
Clarice Lispector
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
A sacola
Acordou cedo para arrumar a casa. Guardou as roupas que estavam na cadeira do quarto, colocou dentro dos armários os objetos que lhes pertenciam, lavou a louça, organizou os livros. Parada no meio da sala, olhando ao redor, sentiu aquele característico vazio subindo-lhe pelo peito.
Já tão habituada a ele estava, que aprendera a ignorá-lo sem muita cerimônia. Respirava fundo, e colocava uma de suas músicas preferidas para tocar. Aos poucos a angústia ia descendo de volta para o meio do seu peito, e ali permaneceria quietinha até que alguma lembrança a acordasse.
O último item a ser organizado na casa era o seu coração. Ali estava ele, dentro da sacolinha de sempre, dessas sacolinhas de mercado, esperando que a vida enfim se acalmasse para que ele pudesse voltar e preencher o buraco que estava no peito dela. Ali era o seu lugar, mas tão amassado estava, e tão dolorido, que não deixava ninguém se aproximar.
Agora o coração já estava melhor. Houve um tempo em que estivera sangrando, sem interrupção, e até branco ficou. Desbotado e pálido. Mas ela não quer lembrar desse tempo: há a determinação de esquecer o passado, para não re-doer no presente.
Mas hoje o coração acordou todo encolhido dentro da sacola. Olhava para cima com olhos ternos: esperava por um abraço. Não estava triste, não, isso não. Só precisava que o mundo lhe abraçasse um pouco, com palavras de conforto no seu ouvido de que tudo, enfim, ficaria bem.
Não havia ninguém ali para esse acolhimento.
Então, o coração suspirou, virou-se de lado e adormeceu, desejando não acordar tão cedo, não até que visse o sol brilhando lá fora. Porque mesmo o mais forte dos fortes às vezes enfraquece, e precisa de uma mão macia.
Ela não teve coragem de tirá-lo dali. E também não teve forças. A solidão pode ser desgastante.
Vamos todos adormecer, então, esperando que a vida traga, enfim, algum presente bom.
"...depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro." Caio Fernando Abreu
“Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive." Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Pequeno protesto que não mudará o mundo
"Something wrong with the world today
I don't know what it is."
Tem dias que eu gostaria de não fazer parte da sociedade. Minha vontade é fugir para algum lugar tranqüilo, longe das pessoas, dos valores estranhos, dos comportamentos ridículos.
Chego ao trabalho e busco me distrair um pouco, antes de começar minhas tarefas. Abro o navegador, e me interesso pelas notícias, saber o que está acontecendo, e essa conexão com o mundo, de certa forma, faz nos sentirmos mais vivos – embora seja ilusório. Em cinco minutos, já estou entediada: perco a conta de quantas vezes li as palavras “ensaio sexy, de biquíni, sensual” e de quantas fotos de mulher fazendo sempre as mesmas caras e bocas passaram pela minha frente.
Meu cérebro já nem registra mais quem é quem ou quem faz o quê. Mas o conceito de Mulher que essas sucessivas imagens tem transmitido, isso sim, para mim fica bem claro. É preciso ter um corpo, e não somente um corpo como uma atitude, e não somente uma atitude como nenhum desejo. Não há contribuição a nada ali. Não existe profundidade, ou necessidade de pensamento, de sentimento, de vontades.
É a noção moderna do desapego: não devemos querer nada em troca, e tampouco temos a responsabilidade de nos doarmos. Pois no fluxo dessa noção de Mulher, surge um Homem assustado face a qualquer tipo de demanda ou responsabilidade.
No fim dessa conta, temos um resultado nulo. Nos tornamos seres humanos tão animalescos. Uma involução. E daí que você usa Twitter e tem um iPhone? Você é tão macaco quanto o próprio.
Soa feminista, eu sei. E um pouco diferente do que costumo escrever. Mas é que ando com nojo das pessoas, da sociedade, (da falta) dos valores. Sim, sou romântica, acredito no amor, busco uma família, quero paz dentro do meu coração, segurança e estabilidade. E não, nem por isso deixo de ser Mulher e querer transar por toda a madrugada.
Mas reservo o meu lado “ensaio sexy, de biquíni, sensual” para quem realmente mereça. E com certeza não é este tipo de Homem moderno irrelevante. Aliás, as pessoas hoje são irrelevantes, a maioria delas.
Sendo assim, hoje é dia de valorizar quem deve ser valorizado. E mando esse recado a quem sabe ser merecedor de lê-lo.
domingo, 1 de agosto de 2010
Coragem: força do coração
"Was a long and dark December
From the rooftops I remember
There was snow white snow."
Violet Hill - Coldplay
From the rooftops I remember
There was snow white snow."
Violet Hill - Coldplay
Quando abri os olhos, na minha frente estavam meus dedos dos pés com unhas vermelhas. Meus dedos balançaram, como se me cumprimentassem e me recordassem que estavam com areia.
Aos poucos, os sons foram se tornando mais definidos e lentamente meu cérebro lembrou de onde eu estava. Lembrei que estava cansada, com fome e com sono. Lembrei que estava fugindo de algo, e buscando algo.
Os pensamentos, ainda confusos, voltaram. Mesmo sem eu querer. Meu desejo era continuar naquele estado distante de meditação, onde minha dor não doía. Mas não. Sempre a dor no coração me negando o sossego.
Dias atrás me disseram que tenho muitas perguntas. Sorteei uma delas para começar a responder. Pergunta que busco resposta há anos, sem nenhum resultado reconfortante duradouro.
Será que era melhor não ter perguntado?
(E segue-se uma lista de perguntas que faço de mim a mim mesma, e que só eu saberei o que a compõe).
E então a onda do mar vem e não faço nenhum esforço para sair dali. Deixo a água me molhar e reflito no que isso significa. Percebo, de repente, que sou a única pessoa de calças (agora molhadas) e caderno em mãos na praia toda. E sorrio.
Estou sempre distoando do ambiente, porque só faço questão de fazer parte do meu próprio habitat. Não preciso provar nada a ninguém, a essa altura da minha vida, onde passeio por aí com uma sacolinha onde guardo meu coração novo. Eu sei da luta diária do meu coração. Só eu sei.
E simplesmente não sei o que poderia ter siginificado a onda que veio.
De qualquer forma, estou cansada demais dessas tentativas de sobrevivência, árduas e sem pausa.
Mas amanhã nasce um novo dia. E eu sou de um tipo humano que jamais, em hipótese alguma, desiste de varrer o mundo à procura de um copinho onde esteja minha felicidade verde-alface.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Crônica de um dia perfeito



Acordo em uma manhã de sábado, mas não abro os olhos. Me detenho mais alguns minutos em contemplar, de olhos fechados, a minha paz. Sinto o calor do teu corpo ao meu lado, mas não me preocupo em saber se você também está acordado: quero, apenas, que eu curta o meu momento de sossego, e você curta o seu.
Através das pálpebras fechadas, sinto que faz sol lá fora. Um sol gostoso, não tropical, um sol de inverno. Desses sóis que os gatos deitam sob. Um dia propício para um passeio no parque, um vinho, um doce, um filme, e você.
Me espreguiço entre os lençóis, tomando cuidado para não te incomodar. Mas você está acordado, e seus enormes olhos azuis estão pousados sobre mim. Com carinho. Te olho com carinho de volta, e não sentimos necessidade de trocar nenhuma palavra. Me encosto em você, e você me recebe, como de costume, em minha casa.
Em nosso silêncio estamos compartilhando aquele momento de paz, com o mundo todo acordando lá fora. E nós nos damos o direito de não acordarmos naquele momento. Resolvo me levantar, e preparar uma mesa de café da manhã, com flores coloridas e café fresco.
Minha maior recompensa é ver teu sorriso, e teus lindos olhos grandes azuis.
A vida pode ser bem simples, e completa se houver amor nela.
(As fotos são de um apartamento em Paris. Sonhar renova o coração.)
"A felicidade aparece para aqueles que reconhecem a importância das pessoas da nossa vida." Clarice Lispector
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Moksha
(Este post exige que seja lido ao som de "Death is a road to Awe", trilha sonora do filme "A Fonte da Vida".)
Era de noite e o jardim era lindo. Destes jardins que tem-se uma vontade imensa de ser uma planta, só para ter o privilégio de ali passar o dia inteiro, pelo resto da sua existência de planta. E o céu, ah! o céu, com todas aquelas estrelas prontas para te engolir, brilhando tão pacíficas acima das cabeças tão atormentadas. Porque ali, no alto azul-escuro do céu, não há nada com o que se preocupar.
Era de noite e o jardim era lindo. Destes jardins que tem-se uma vontade imensa de ser uma planta, só para ter o privilégio de ali passar o dia inteiro, pelo resto da sua existência de planta. E o céu, ah! o céu, com todas aquelas estrelas prontas para te engolir, brilhando tão pacíficas acima das cabeças tão atormentadas. Porque ali, no alto azul-escuro do céu, não há nada com o que se preocupar.
Era ali que ela queria estar: dentro do azul-escuro do universo. E era aquilo que ela sempre desejara ser: uma estrela, branca e fria, silenciosa e pacífica.
A música começou a tocar de repente, mas não assustou os bichos. Nem as plantas. Era a música representando o interior dela, e ela e a música eram a mesmíssima coisa. Ela dançava, enrolada em panos brilhantes de cetim, e os seus movimentos eram exatamente os mesmos da música e dos panos, e tudo convergia para uma só harmonia.
Via-se seus pés descalços por baixo dos panos, lindamente arrematados por uma tornozeleira de ouro.
A música crescia. Nessas melodias que as notas ficam cada vez mais altas, e sentimos como se o nosso próprio coração estivesse expandindo, deixando a luz entrar, deixando o som entrar. A música crescia para o céu, querendo alcançar o azul-escuro.
Os movimentos dela ficavam cada vez mais ricos, e mais incompreensíveis. E a incompreensão se dava do corpo para o próprio corpo: como expressar essa sensação de expansão da alma, do coração, se a mente não está mais aqui?
Percebia-se, pela dança e pelo olhar dela, que ela já não estava mais ali. Aliás, ela nunca estivera tanto ali. E por isso mesmo eu a perdia de segundo a segundo.
De repente, no meio do escuro daquela noite tão (noturna?) a roupa dela mudava de cor. Começou azul clara. Com o primeiro crescendo da música, tornou-se azul escura. E, depois, roxa, de um roxo mais lindo que eu já havia visto na vida. Um roxo que doía de tão sou-roxo-e-gosto-disso. No segundo crescendo da música, o pano descia em tons de roxo, laranja, terminando em amarelo – se você já viu alguma vez uma foto de uma nebulosa, saberá do que estou falando. Era aquilo.
Ela estava se tornando uma estrela.
E foi então que, ao redor dela (enquanto ela continuava dançando) surgiu uma poeira. Uma poeira de universo, de estrela. Brilhante, e muito fugidia: você achava que havia visto um determinado tom de laranja, mas um segundo depois era rosa. Ou seria azul agora. Impossível de apreender. Impossível de controlar. E ela continuava dançando bem no centro dessa poeira, e você não saberia dizer se ela estava no meio dela ou se ela era a própria poeira. Eu concluí que era ela quem estava produzindo aquele espetáculo: saía de dentro do coração dela.
Mais um crescendo da música. E uma pausa.
Segundos densos de um silêncio de cerimônia religiosa. Mais que isso. Silêncio de algum encontro muito importante, e totalmente fatal. E ela, só então, parou. Como se tivesse ouvido um chamado, que só ela fora capaz de perceber. E olhou para cima. Para o azul-escuro do universo – o chamado vinha de lá.
A música recomeçou com um vento. Um vento não-transparente, um vento-branco. E desse reinício mágico, as estrelas desceram, penduradas por cordas fininhas e quase imperceptíveis. Ela agarrou-se a cada corda, com a estrela pendurada na ponta, e dançava por entre as cordas e por entre as estrelas exatamente como fazem os artistas de circo com seus tecidos. Subindo, desenrolando, descendo. E aquele magnífico movimento de suas pernas e de seus panos.
As cordas, as estrelas e ela mesma começaram a girar. No ritmo da noite. E uma luz branca surgiu do meio do seu peito: e então veio aquela sensação de que era aquilo que estávamos esperando que acontecesse. Como se, desde o começo, todos soubessem que aquele era o auge do espetáculo. A luz branca era mais branca que as estrelas, e fazia um contraste lindo com sua roupa do roxo para o amarelo, e a poeira, e a noite muito preta a essa altura. A noite havia se apagado para que ela, só ela, brilhasse.
Do alto da noite, lá do meio da noite, a luz branca subiu de encontro a uma estrela muito grande. Essa estrela, uma estrela-mãe, não estava lá. Ela estava no camarim, esperando pelo momento certo de acontecer. Eu senti como se ela, a estrela, tivesse abraçado ela, a mulher. Com seus panos e pernas e movimentos no meio da dança.
Ela, a mulher, era puxada pela luz branca que saía do seu peito. As estrelas continuavam calmamente penduradas em suas cordas, balançando ao vento e no meio da poeira colorida. E ela foi subindo, até que, no tempo exato de piscar meus olhos, ela não estava mais lá.
Como se nunca houvesse existido.
Mas, em seu lugar, havia uma estrela, das mais lindas que já existiram. Senti como se o universo todo tivesse se curvado para olhá-la: tinha as mesmas cores de seus panos, e a poeira tinha sido absorvida.
As cordas subiam devagar, como se houvesse algum contra-regra puxando-as e terminando o espetáculo.
E, em outro piscar de olhos, a estrela-bonita também sumira.
E a noite me engolia com seu silêncio, e eu mergulhado em minha perplexidade.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Não tem nome
O subtítulo deste blog é uma frase linda (como sempre) da Clarice: "Liberdade é pouco. O que eu desejo não tem nome."
Hoje me dei conta que, pode não ter um nome, mas pode ter uma definição.
O meu desejo sempre começa na liberdade. O meu conceito de liberdade é ser o que eu quiser ser, e, pelo fato de eu poder ser o que eu quiser, ter espaço para me descobrir como eu realmente sou. Liberta do que os outros querem, esperam, projetam ou temem. Liberta do meu medo de não ser amada ou aceita. Começo daí. O que não é pouco.
Eu quero continuar sendo corajosa. Mas, se um dia eu parar de me estranhar, e se um dia eu parar de estranhar o mundo, qual a graça? Quero continuar ficando perplexa, e com medo, e vencendo esses medos, e descobrindo até onde posso ir. Quero continuar perguntando, e não quero nunca achar que o mundo não é grande. Gosto que seja grande, e assustador, e lindo. É o que me move.
Tenho em mente o tipo de mulher que desejo ser. O tipo de pessoa. Mas, se um dia eu me tornar isso, não quero perceber. Quero continuar pensando que não sou. Quero continuar buscando a coragem, como se ela não fosse parte de mim.
Dentro deste meu desejo, penso quem eu quero ao meu lado, quem pode estar ao meu lado e me acompanhar. Em termos de amor. Tem que ser alguém que também fique perplexo. Que sente ao meu lado, no alto de uma montanha, olhe para as estrelas e fique em silêncio, como eu, pensando como o mundo é grande. E que tenha a coragem de encarar o céu incendiado de estrelas e ser engolido por uma vontade de viver tão impressionante que parece que seremos esmagados. Mas não seremos, o meu amor e eu, saberemos ser pequenos no meio do Universo.
E, hoje, se me perguntar qual é a minha coragem, é de saber onde está e quem é este amor, mas não poder alcançá-lo. Esta é a minha “perplexidade do dia”.
Lembrete para mim mesma: viajar o mundo.
“... nunca mais poderia começar a ser livre sem se lembrar do medo que agora sentia.” Clarice, em “A Maçã no Escuro”
Hoje me dei conta que, pode não ter um nome, mas pode ter uma definição.
O meu desejo sempre começa na liberdade. O meu conceito de liberdade é ser o que eu quiser ser, e, pelo fato de eu poder ser o que eu quiser, ter espaço para me descobrir como eu realmente sou. Liberta do que os outros querem, esperam, projetam ou temem. Liberta do meu medo de não ser amada ou aceita. Começo daí. O que não é pouco.
Eu quero continuar sendo corajosa. Mas, se um dia eu parar de me estranhar, e se um dia eu parar de estranhar o mundo, qual a graça? Quero continuar ficando perplexa, e com medo, e vencendo esses medos, e descobrindo até onde posso ir. Quero continuar perguntando, e não quero nunca achar que o mundo não é grande. Gosto que seja grande, e assustador, e lindo. É o que me move.
Tenho em mente o tipo de mulher que desejo ser. O tipo de pessoa. Mas, se um dia eu me tornar isso, não quero perceber. Quero continuar pensando que não sou. Quero continuar buscando a coragem, como se ela não fosse parte de mim.
Dentro deste meu desejo, penso quem eu quero ao meu lado, quem pode estar ao meu lado e me acompanhar. Em termos de amor. Tem que ser alguém que também fique perplexo. Que sente ao meu lado, no alto de uma montanha, olhe para as estrelas e fique em silêncio, como eu, pensando como o mundo é grande. E que tenha a coragem de encarar o céu incendiado de estrelas e ser engolido por uma vontade de viver tão impressionante que parece que seremos esmagados. Mas não seremos, o meu amor e eu, saberemos ser pequenos no meio do Universo.
E, hoje, se me perguntar qual é a minha coragem, é de saber onde está e quem é este amor, mas não poder alcançá-lo. Esta é a minha “perplexidade do dia”.
Lembrete para mim mesma: viajar o mundo.
“... nunca mais poderia começar a ser livre sem se lembrar do medo que agora sentia.” Clarice, em “A Maçã no Escuro”
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