“De repente, assustada com esse ódio, pensou: o mundo atingiu uma fronteira, quando ele a ultrapassar, tudo pode virar loucura: as pessoas andarão pelas ruas segurando um miosótis, ou então atirarão uns nos outros na frente de todos. E bastará muito pouca coisa, uma gota d’água fará o copo transbordar: por exemplo, um carro, um homem, ou um decibel a mais na rua. Existe uma fronteira quantitativa a não ser ultrapassada; mas essa fronteira não é vigiada por ninguém, e talvez até mesmo ninguém saiba de sua existência.” (Kundera)
Gosto desta parte que o mundo atingiu uma fronteira: só discordo que ele a tenha atingido, na verdade, esta fronteira sempre esteve por perto, mas não é fácil para as pessoas comuns perceberem o limite tênue que existe entre a sanidade e a loucura. Curiosa esta mania de pôr ordem em um caos que é inerente à existência. Nem consigo imaginar uma vida sem um pouco de caos, mas vai ver que isto não pode ser suportado por qualquer pessoa. Desordens não são nunca fáceis de serem suportadas, e pensar que delas saem tanto!
Mesmo ser são demais nos torna cada vez mais próximos da loucura – é impossível viver neste mundo, com estas pessoas, sem precisarmos ser um pouco não-sãos. Todos falam tanto sobre “ser normal” e fico me perguntando se alguém já pensou que o normal é não sê-lo. Na verdade, o que eu me pergunto mesmo é se alguém se pergunta alguma, qualquer coisa.
Acho que não. É isto que permite que o mundo continue girando nestes padrões que conhecemos, e deve ser muito complicado alguém entender – se entender – sem se estabalecer algumas normas de procedimento. Afinal, o que somos mesmo a não ser um amontoado (maior ou menor) de coisas impostas?
Devem existir pessoas que olhem por cima de suas cabeças. São as que enlouquecem.
Minha dificuldade como psicóloga sempre foi a nomenclatura. Gosto muito dos esquizofrênicos, dos psicóticos: não como objetos de estudo, mas como filosofias de vida. Quem teve sensibilidade demais neste redor de pedra: veja o que acontece. Estes rótulos de “louco, isto ou aquilo”, para mim, não deixam de ser manobras de um sistema que não nos permite a autenticidade original. Seria muito intenso se cada um fosse como é de verdade.
Não é simples colocar em prática o que somos.
Mais complicado ainda é descobrir o que somos.
Separar o lixo, ficar com as mãos sujas.
“Não apenas as pessoas não procuram ficar mais bonitas quando estão no meio das outras, mas nem mesmo evitam ser feias!
Ela pensou: um dia, quando a invasão de feiúra tornar-se inteiramente insuportável, comprará no florista um só raminho de miosótis, pequeno caule encimado por uma flor miniatura, sairá com ele na rua, segurando-o em frente ao rosto, o olhar fixado nele a fim de nada ver, a não ser esse belo ponto azul, última imagem que quer conservar de um mundo que ela deixou de amar. Irá, desta forma, pelas ruas de Paris, as pessoas logo saberão reconhece-la, as crianças correrão atrás, zombarão dela, jogarão coisas e Paris inteira irá apelida-la: a doida do miosótis.” (Kundera)
Para mim os conceitos estão todos de ponto-cabeça.
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