“O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?” Clarice
Hoje faço anos.
São 23.
Fico esperando que algum super-evento da humanidade aconteça no meu aniversário, mas são coisas da minha cabeça. Não vale a pena considerar.
Não avalio os ciclos da minha vida pelos meus aniversários, ou pelos ano-novos – como a maioria costuma fazer. Costumo pensar todos os dias a respeito do que acontece comigo, e, de tal forma, que a idade perde seu peso: não encontro nenhum grande significado e nem sinto nenhuma grande mudança. Não tem data para isso acontecer.
Acontece toda hora, até demais. Se tivesse data, pelo menos, seria só uma vez ao ano.
Mas mentiria se não estou em uma posição de vida diferente do ano passado. Fiz muita coisa acontecer em um ano, sem falar naquilo que não deu certo, e contabilizo a tentativa. Não sou mesmo de ficar parada.
Passei a enxergar as minhas possibilidades a longo prazo. Não existe mais aquela ilusão de vida e saúde eternas: não que um dia eu tivesse me iludido, mas a tal da minha lucidez perigosa vai mais longe do que eu mesma, às vezes. Resolvi que cuidaria de mim, para poder comportar mais vida e mais tempo, de uma forma leve e colorida. Não quero ter uma velhice escura e embolorada: prefiro ir antes.
E me dei conta de que uma pessoa me ensinou muito mais do que eu pensava. E eu que achava que tinha ouvido anos de palavras desperdiçadas: ficou tudo guardado, esperando a hora certa de sair. Bonito de sentir. Preciso agradecer antes que seja tarde demais.
Morro de medo do “tarde demais”. Vai ver que é o principal motivo de ser precoce.
A cada ano que vivo, uma ou outra pessoa saem da minha vida. Não importa qual seja o motivo, mas saem de circulação, eu querendo e eu não querendo. Tem quem me faça falta, mas confesso uma crueldade a mim mesma: não me importo com elas. Eu provoco mesmo afastamento de quem não me acompanha, e quem não vem comigo só me atrapalha na jornada. Já me basta eu, que me atrapalho muito.
Refaço os meus votos de viver – mas não porque é meu aniversário. Refaço os votos todos os dias, quando percebo que tenho mais um dia novo e fresco pela frente. Vida não é coisa que se desperdice.
“Senti que podia. Fora feita para libertar. Libertar era uma palavra imensa, cheia de mistérios e dores.” Clarice
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