quinta-feira, 26 de junho de 2008

Instantes-já

Escuto muito as pessoas falando sobre planos. Reclamando que o tempo passa cada vez mais rápido. Que o mês x está chegando. Que a idade está chegando. Com aquele tom de urgência de quem está frustrado, e acha que não há mais tempo de recuperar o que se foi. Ou com aquele tom de quem não tem nada, no presente, com o que se entreter, e toda a vida não passa de alegrias projetadas para o futuro.

Como podemos contar com algo que não existe, isto é o que me pergunto. O futuro não existe: podemos prever algumas consequências, poucas necessidades, vários desejos, mas nada disso existe de fato. O futuro não passa de um produto do pensamento.

Eu penso em sentimentos: estes não sabem nada a respeito de futuro. Por isso os adoro – eles sabem exatamente como devemos nos comportar neste instante-já. Eles sempre sabem o que eu devo fazer e, melhor, o que eu realmente desejo fazer. Desta forma, percebo como quero viver a minha história: não dependente de algo que não existe, como o futuro, ou o tempo.

O tempo não existe, ele é, e é independente se dele vamos nos aproveitar ou não, se iremos desperdiçá-lo ou não. O tempo não se importa nem um pouco conosco, e nós, sempre tão pequenos diante da imensidão do mundo, não somos capazes de também não nos preocuparmos com ele.

O tempo, em si, não é rápido ou devagar. Nossa impressão dele é tão somente a nossa percepção de nossa própria vida.

Eu gosto de poder viver o que eu tenho hoje. Amanhã não faço a menor idéia de mim – alguém faz? E, se no futuro tudo o que eu tenho hoje não fizer mais parte do meu presente, farei questão de aproveitar tudo das novas histórias de mim mesma que eu poderei escrever. Não sou pessoa de ter uma história obviamente determinada, com começo, meio e fim: sou pessoa de inventar verdades minhas, como bem me convém, e sem a menor possibilidade de que eu ofereça a alguém garantias do que eu sou de fato.

O que eu sou eu mudo de acordo com a música que toca. Um grande e delicioso mistério dentro de mim. E assim estou sempre cheia por dentro.

Dia desses, terminei meu quarto livro. Muito árduo, e por isso mesmo, muito criativo. Orgulho. Quero o mesmo final a mim: quero conquistar um final solene, solenidade de música, e, de preferência, surrealmente lindo. Com pequenas explosões. Me realizei um pouco naquele fim.

Mas, como posso ter fim se nem começo tenho?
Não gosto de lógica.

“Se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é o bastante para a vida toda.” CL

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