(Este post exige que seja lido ao som de "Death is a road to Awe", trilha sonora do filme "A Fonte da Vida".)
Era de noite e o jardim era lindo. Destes jardins que tem-se uma vontade imensa de ser uma planta, só para ter o privilégio de ali passar o dia inteiro, pelo resto da sua existência de planta. E o céu, ah! o céu, com todas aquelas estrelas prontas para te engolir, brilhando tão pacíficas acima das cabeças tão atormentadas. Porque ali, no alto azul-escuro do céu, não há nada com o que se preocupar.
Era de noite e o jardim era lindo. Destes jardins que tem-se uma vontade imensa de ser uma planta, só para ter o privilégio de ali passar o dia inteiro, pelo resto da sua existência de planta. E o céu, ah! o céu, com todas aquelas estrelas prontas para te engolir, brilhando tão pacíficas acima das cabeças tão atormentadas. Porque ali, no alto azul-escuro do céu, não há nada com o que se preocupar.
Era ali que ela queria estar: dentro do azul-escuro do universo. E era aquilo que ela sempre desejara ser: uma estrela, branca e fria, silenciosa e pacífica.
A música começou a tocar de repente, mas não assustou os bichos. Nem as plantas. Era a música representando o interior dela, e ela e a música eram a mesmíssima coisa. Ela dançava, enrolada em panos brilhantes de cetim, e os seus movimentos eram exatamente os mesmos da música e dos panos, e tudo convergia para uma só harmonia.
Via-se seus pés descalços por baixo dos panos, lindamente arrematados por uma tornozeleira de ouro.
A música crescia. Nessas melodias que as notas ficam cada vez mais altas, e sentimos como se o nosso próprio coração estivesse expandindo, deixando a luz entrar, deixando o som entrar. A música crescia para o céu, querendo alcançar o azul-escuro.
Os movimentos dela ficavam cada vez mais ricos, e mais incompreensíveis. E a incompreensão se dava do corpo para o próprio corpo: como expressar essa sensação de expansão da alma, do coração, se a mente não está mais aqui?
Percebia-se, pela dança e pelo olhar dela, que ela já não estava mais ali. Aliás, ela nunca estivera tanto ali. E por isso mesmo eu a perdia de segundo a segundo.
De repente, no meio do escuro daquela noite tão (noturna?) a roupa dela mudava de cor. Começou azul clara. Com o primeiro crescendo da música, tornou-se azul escura. E, depois, roxa, de um roxo mais lindo que eu já havia visto na vida. Um roxo que doía de tão sou-roxo-e-gosto-disso. No segundo crescendo da música, o pano descia em tons de roxo, laranja, terminando em amarelo – se você já viu alguma vez uma foto de uma nebulosa, saberá do que estou falando. Era aquilo.
Ela estava se tornando uma estrela.
E foi então que, ao redor dela (enquanto ela continuava dançando) surgiu uma poeira. Uma poeira de universo, de estrela. Brilhante, e muito fugidia: você achava que havia visto um determinado tom de laranja, mas um segundo depois era rosa. Ou seria azul agora. Impossível de apreender. Impossível de controlar. E ela continuava dançando bem no centro dessa poeira, e você não saberia dizer se ela estava no meio dela ou se ela era a própria poeira. Eu concluí que era ela quem estava produzindo aquele espetáculo: saía de dentro do coração dela.
Mais um crescendo da música. E uma pausa.
Segundos densos de um silêncio de cerimônia religiosa. Mais que isso. Silêncio de algum encontro muito importante, e totalmente fatal. E ela, só então, parou. Como se tivesse ouvido um chamado, que só ela fora capaz de perceber. E olhou para cima. Para o azul-escuro do universo – o chamado vinha de lá.
A música recomeçou com um vento. Um vento não-transparente, um vento-branco. E desse reinício mágico, as estrelas desceram, penduradas por cordas fininhas e quase imperceptíveis. Ela agarrou-se a cada corda, com a estrela pendurada na ponta, e dançava por entre as cordas e por entre as estrelas exatamente como fazem os artistas de circo com seus tecidos. Subindo, desenrolando, descendo. E aquele magnífico movimento de suas pernas e de seus panos.
As cordas, as estrelas e ela mesma começaram a girar. No ritmo da noite. E uma luz branca surgiu do meio do seu peito: e então veio aquela sensação de que era aquilo que estávamos esperando que acontecesse. Como se, desde o começo, todos soubessem que aquele era o auge do espetáculo. A luz branca era mais branca que as estrelas, e fazia um contraste lindo com sua roupa do roxo para o amarelo, e a poeira, e a noite muito preta a essa altura. A noite havia se apagado para que ela, só ela, brilhasse.
Do alto da noite, lá do meio da noite, a luz branca subiu de encontro a uma estrela muito grande. Essa estrela, uma estrela-mãe, não estava lá. Ela estava no camarim, esperando pelo momento certo de acontecer. Eu senti como se ela, a estrela, tivesse abraçado ela, a mulher. Com seus panos e pernas e movimentos no meio da dança.
Ela, a mulher, era puxada pela luz branca que saía do seu peito. As estrelas continuavam calmamente penduradas em suas cordas, balançando ao vento e no meio da poeira colorida. E ela foi subindo, até que, no tempo exato de piscar meus olhos, ela não estava mais lá.
Como se nunca houvesse existido.
Mas, em seu lugar, havia uma estrela, das mais lindas que já existiram. Senti como se o universo todo tivesse se curvado para olhá-la: tinha as mesmas cores de seus panos, e a poeira tinha sido absorvida.
As cordas subiam devagar, como se houvesse algum contra-regra puxando-as e terminando o espetáculo.
E, em outro piscar de olhos, a estrela-bonita também sumira.
E a noite me engolia com seu silêncio, e eu mergulhado em minha perplexidade.
Um comentário:
Nossa...q lindo!
ñ li ouvindo a musica. Mas pude sentir a musicalidade do texto.
Foi como se eu estivesse vendo esse espetaculo.
Lindo, trágico e poetico.
agora tive uma pequena ideia dos espetaculos q vc cria em sua mente... realmente são lindos.
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