terça-feira, 24 de agosto de 2010

A sacola

Acordou cedo para arrumar a casa. Guardou as roupas que estavam na cadeira do quarto, colocou dentro dos armários os objetos que lhes pertenciam, lavou a louça, organizou os livros. Parada no meio da sala, olhando ao redor, sentiu aquele característico vazio subindo-lhe pelo peito.

Já tão habituada a ele estava, que aprendera a ignorá-lo sem muita cerimônia. Respirava fundo, e colocava uma de suas músicas preferidas para tocar. Aos poucos a angústia ia descendo de volta para o meio do seu peito, e ali permaneceria quietinha até que alguma lembrança a acordasse.

O último item a ser organizado na casa era o seu coração. Ali estava ele, dentro da sacolinha de sempre, dessas sacolinhas de mercado, esperando que a vida enfim se acalmasse para que ele pudesse voltar e preencher o buraco que estava no peito dela. Ali era o seu lugar, mas tão amassado estava, e tão dolorido, que não deixava ninguém se aproximar.

Agora o coração já estava melhor. Houve um tempo em que estivera sangrando, sem interrupção, e até branco ficou. Desbotado e pálido. Mas ela não quer lembrar desse tempo: há a determinação de esquecer o passado, para não re-doer no presente.

Mas hoje o coração acordou todo encolhido dentro da sacola. Olhava para cima com olhos ternos: esperava por um abraço. Não estava triste, não, isso não. Só precisava que o mundo lhe abraçasse um pouco, com palavras de conforto no seu ouvido de que tudo, enfim, ficaria bem.

Não havia ninguém ali para esse acolhimento.

Então, o coração suspirou, virou-se de lado e adormeceu, desejando não acordar tão cedo, não até que visse o sol brilhando lá fora. Porque mesmo o mais forte dos fortes às vezes enfraquece, e precisa de uma mão macia.

Ela não teve coragem de tirá-lo dali. E também não teve forças. A solidão pode ser desgastante.

Vamos todos adormecer, então, esperando que a vida traga, enfim, algum presente bom.

"...depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro." Caio Fernando Abreu

“Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive." Caio Fernando Abreu

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