sexta-feira, 14 de maio de 2010

Ela, o Elefante e os Tijolos

Ela não sabe o que quer.

Um dia, houve um castelo. Destes com um quê de Disney. Azul e tudo. Mas veio a vida, e deu-lhe um chute. Lá ficou ela, chorando entre as ruínas. Embora um castelo em ruínas tenha seu charme, e mesmo uma certa beleza dramática.

Ela levantou. Viu um sol no horizonte, ainda longe, mas levantou-se. Limpou todo o entulho com força de gente grande – e então tornara-se mesmo uma grande mulher. Apesar do seu metro-e-meio. Com certeza foi a parte mais difícil: ela se viu no meio de um grande vazio.
Respirou fundo. Pegou a força que tinha criado e a multiplicou por dois. Foi trás de tijolos novos. E então um mundo de possibilidades abriu-se à sua frente – haveria coragem de tentar todas elas, até que se visse novamente sorrindo por dentro e em paz. Começou a empilhar novamente os tijolos, mas não construiria um castelo, não outro igual. Construiria outra coisa, ainda sem muita definição.

Encontrou gente. Gente que, como ela, quer ser feliz e aproveitar a vida. Gente que, como ela, acredita na vida e no sol. Gente que ajuda, diariamente, a empilhar os tijolos, fazer mais cimento, testar cores de tinta. A casa dela está pela metade, mas a construção não para por nada.

Veio de novo a vida com suas circunstâncias malucas querendo derrubar sua construção tão arduamente feita. Ela sentou, passou os abraços ao redor dos tijolos, e disse: não.
Como uma criança que defende seu castelinho de areia na praia. Não. Você não vai destruir o que tenho. As minhas conquistas.

E ela não sabe o que quer.


Confusa, não sabe qual caminho escolher. Parada em uma estrada, destas de grama seca e amarela, bem reta e bem comprida. Lá está uma mulher de vestido, tênis, mochila e um elefante de pelúcia nos braços. Não é uma posição de espera: ela não espera, por nada nem ninguém. É uma posição de escolha.

O que antes trazia felicidade e plenitude, transformou-se numa história de terror. Ela foge disso, com seu pequeno coração rachado numa sacolinha. Não, isso não.
Ela quer um romance. Mas não sabe qual. Não tem nenhum roteiro em vista. E a menina afaga o elefante de pelúcia, confortando-o de que haverá uma nova família para eles. Disso não tem dúvidas. Suas famílias sempre foram esquisitas, a próxima deverá ser ainda mais, o que torna tudo um pouco engraçado. Ela quer uma comédia romântica, dessas de final bobo e meloso.
Quem não quer?

Ela decidiu várias coisas. Coisas que não tem a oportunidade de dizer que foram escolhidas, mas nas suas ausências e nos silêncios ficam subentendidas. Está diferente, ela. Diferente não: está ela, genuinamente. Descobriu-se, enfim, e destas descobertas surpreendentes saíram decisões também surpreendentes.

Ela está ali parada, elaborando. O novo horizonte. Os tijolinhos sendo colocados mais rapidamente a cada dia que passa. Não sabe o que quer. Mas isso não dói, porque ela prefere gastar a energia construindo uma casa nova. Para o seu elefante.

Um comentário:

Deh disse...

*com lagrimas nos olhos*

é lindo ver uma pessoa tão querida tão forte.
*arruma o altar*
não foi a mestre de obra, no maximo uma auxiliar. Essa vitoria é 100% sua. És forte e fantastica e agora sabe muito bem disso.

bjs

 
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