terça-feira, 4 de agosto de 2009

a.ze.do

Como psicóloga (meio freudiana) meio lacaniana, hoje prestei atenção no meu próprio discurso:
“Acordei azeda hoje”, eu disse.


Achei interessante minha escolha pela palavra. Eu poderia ter dito amarga, amassada, mal humorada, cansada, mas escolhi azeda. Impossível eu não parar para pensar no real significado dessa escolha delicada e relevante.

Daí que...


a.ze.do
1. que tem um sabor ácido, que lembra o vinagre
2. que se tornou ácido pela ação de fermentação
3. característico de algo que fermentou.


… faz todo o sentido, para mim, pensar que algo fermentou. Faz tantos dias que prossigo com os mesmos sentimentos, os mesmos pensamentos, as mesmas tentativas de elaboração e as mesmas lutas comigo mesma que eu não aguento mais – mas, quem disse que tudo passa? Simplesmente não passa. Ainda, ainda, ainda.

Sinto, de fato, como se houvesse algo dentro de mim já saturado. A repetição me saturou por dentro. Tento me posicionar diferente nas situações, e assim quem sabe sentir que algo melhorou, mas mesmo estas tentativas já são por demais repetidas para que eu acredite que vá dar certo.

Percebo que já tomei uma série de decisões que vão trazer mudanças na minha vida, mas não depende de mim, neste momento, para que tais decisões se concretizem. E essa espera que parece não ter fim me mostra que, hoje, não vai mesmo ter um fim. E aí, fermento.

Estou cansada das pessoas ao meu redor. Presencio tanta arbitrariedade que mal posso acreditar que tudo seja consentido. Tanta burrice, incompetência, descaso. Tanto ridículo que as pessoas passam sem sequer perceber. Eu simplesmente detesto este mundo em que vivo: começo a arquitetar minha mudança de vida definitiva, com a esperança final de que, enfim, eu descanse.

Por dentro. Esse descanso parece impossível, hoje.

Faz tempo que não tenho tempo para mim. Digo tempo dentro da minha cabeça. Ela anda sempre ocupada com assuntos tão medianos, que sinto falta de quando eu era mais eu.

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